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Como as flores demoravam três dias para chegar ao Ceará, e isso afetava bastante a sua qualidade, Germana resolveu plantá-las. Pediu ao pai, um agricultor de Baturité, a 100 quilômetros de Fortaleza, que adiantasse sua parte na herança um pedaço do sítio da família. O primeiro problema estava resolvido. Faltavam, porém, dinheiro para levar adiante o negócio e know-how na tecnologia de produção. Para resolver esse segundo problema, Germana contou com a sorte. Na época, um amigo pediu que servisse de guia para um grupo de paulistas que passava férias no Ceará. Os turistas, descendentes de japoneses e produtores de flores em São Paulo, queriam conhecer Baturité, que fica na bela região serrana do Estado. Durante o passeio, ela falou de seus planos e recebeu um convite decisivo: passar uma temporada com eles em São Paulo, fazendo estágio na empresa. Ela aceitou na hora e, de volta ao Ceará, pediu financiamento ao Banco do Nordeste. A instituição não dispunha de linha de crédito para a produção de flores. Germana procurou, então, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Secretaria de Agricultura. Conseguiu que fosse elaborado um relatório sobre a viabilidade da produção de flores na região. Com isso, o projeto finalmente foi aprovado e ela recebeu 30.000 reais do mesmo banco que lhe recusara dinheiro. Hoje, a empresa de Germana tem 1 hectare de área plantada três vezes mais do que quando começou e emprega nove funcionários. Ela também vende suas flores na Paraíba e no Piauí. "Venci graças a um misto de determinação, senso de oportunidade e disposição para correr riscos. Se escolhesse uma opção mais comum, como vender roupas, talvez não estivesse tão bem", diz Germana, hoje com 41 anos, casada e mãe de uma filha. Ela investe tudo o que fatura no próprio negócio. Quando viaja, é para fazer cursos e apresentar seus produtos em feiras e exposições. Sua compra mais ousada foi em benefício da empresa um caminhão zero-quilômetro. Empreendedores que enveredam pelas atividades de alta tecnologia ou voltadas para a exportação têm mais chance de escapar dos humores da sorte pelo menos nos anos iniciais do negócio. É voltada para eles a maioria das incubadoras de novos negócios. As incubadoras são a melhor forma de garantir o sucesso de empreendedores em início de carreira. Elas funcionam como abrigo de empresas nascentes que têm algum projeto inovador, e geralmente estão ligadas a universidades que querem transformar pesquisadores em empresários. São financiadas pelas prefeituras locais, governos de Estado, fundações como Rotary e Lions, pelas próprias universidades e, principalmente, pelo Sebrae. Um levantamento de 2001 da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas (Anprotec) mostra que existiam 150 incubadoras no país, a maioria nas regiões Sul e Sudeste. Segundo a pesquisa, as empresas incubadas atuam mais nas áreas de software, produtos eletroeletrônicos, telecomunicações e automação. "O sistema de incubação ajuda a atrair investimentos", diz Arnaldo Mendes Tufani, gerente da incubadora vinculada à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Às vezes, o projeto de uma empresa incubada chama tanto a atenção do mercado que é preciso frear o entusiasmo do empreendedor em gestação. "Nosso papel é também tentar evitar que um jovem de 28 anos venda por 10 milhões de reais uma empresa que vai valer dez vezes mais em pouco tempo", explica Tufani. As incubadoras ligadas às universidades alugam salas aos jovens empresários por quantias pequenas, vinculadas ao faturamento da empresa em potencial. Em geral, esse valor varia de 1% a 2% do faturamento. Além disso, prestam a elas toda a assistência técnica, jurídica e administrativa de que precisam para entrar nos trilhos da estabilidade e do crescimento.
Já foi dito no início desta reportagem, mas vale repetir. São os seguintes os requisitos necessários para um negócio ser bem-sucedido, com base nos depoimentos dos novos empreendedores, em pesquisas e nas entrevistas com consultores: Depois de ler esta reportagem, você chegou à conclusão de que não leva mesmo jeito para ser empresário? Então, não se esqueça de que o trabalho sem patrão é fruto de uma revolução que começou no final dos anos 70. Nos últimos vinte anos, o modelo de gerenciamento das empresas passou por uma reviravolta. A produtividade cresceu em ritmo alucinante. Hoje, em empresas na vanguarda da tecnologia, um único trabalhador produz o mesmo que 25 deles há duas décadas. O fenômeno de diminuição do emprego formal e aumento das iniciativas econômicas individuais é mundial. Nos Estados Unidos, em 1977, apenas 7% das pessoas se descreviam como empresários. Em 2000, já eram 26%. Estima-se que serão 41% em oito anos. O economista Waldir José de Quadros, da Universidade de Campinas, mostra que o trabalho por conta própria cresceu no Brasil ao mesmo tempo que as possibilidades de emprego murcharam. Analisando os dados da Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios (Pnad), Waldir Quadros descobriu que, entre 1992 e 1999, o número de trabalhadores não assalariados na classe média aumentou 20,5%. Nesse período, sua participação na renda nacional subiu 29,6%. "A globalização obrigou as empresas a reduzir seus quadros em busca de eficiência. Mais gente, portanto, terá de se virar como dona de negócios", diz Quadros. É bom estar preparado.
Com
reportagem de
Adriana Negreiros, |
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