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O brasileiro é um dos povos mais empreendedores do mundo. De acordo com a última pesquisa realizada pela London Business School, o Brasil está em quinto lugar nesse quesito, atrás apenas do México, da Nova Zelândia, da Austrália e da Coréia. Um em cada quatro brasileiros economicamente produtivos é dono de uma empresa. São mais de 18 milhões os brasileiros que ganham a vida como empresários atrás do balcão. Literalmente atrás do balcão: os pequenos negócios, que empregam menos de 100 pessoas e costumam ser tocados com rédea curtíssima pelos seus donos, representam mais de 99% do total de estabelecimentos comerciais e industriais do país. A cada ano, dezenas de milhares de pessoas tentam a sorte como empreendedores nas diversas regiões brasileiras. Outro dado da London Business School dá ao país um recorde: o de ter mais mulheres entre os empresários iniciantes. A média mundial dá conta de que 30% dos empresários de primeira viagem são mulheres. No Brasil, elas representam quase 40% dos empreendedores.
Como em toda parte do mundo, abrir e fazer prosperar uma empresa é uma aventura de alto risco. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) mostram que apenas três de cada dez novos negócios chegam ao quinto ano de vida. A boa notícia é que essa realidade começa a mudar. Os riscos são os mesmos de sempre, mas uma parte razoável dos novos candidatos a empresário forma um time preparado para os desafios a ser enfrentados por um empreendedor. Eles chegam orientados por consultores, por universidades ou órgãos do governo. Alguns passam por triagens tão severas que, quando efetivamente montam um negócio, suas chances de vencer são bem maiores do que no passado. Há franquias que chegam a recusar nove em cada dez candidatos por considerar que eles nunca terão sucesso. Algumas mudanças estão tornando a vida do empreendedor de primeira viagem menos volátil. Uma delas é a informação. Os especialistas notam que muitas das pequenas empresas de sucesso que estão surgindo são quase um prolongamento do trabalho que os novos empresários executavam quando eram empregados. "Como operam num mercado que conhecem a fundo, isso lhes dá mais certeza das dificuldades que encontrarão pela frente. Assim, a taxa de sucesso aumenta", diz Anette Trompeter, diretora executiva da Associação Brasileira de Franchising (ABF). Entre os novos empresários, aqueles que se sentem inseguros costumam optar pelas franquias e, nesse caso, não importa se conhecem ou não o ramo em que vão atuar. O último censo da ABF mostra que já passa de 50.000 o número de pequenas empresas franqueadas, aquelas que têm bandeiras famosas como McDonald's ou as lavanderias 5 à Sec. Mais recentemente, mas de forma disseminada por todo o Brasil, têm surgido empresas que conseguem testar seu modelo de negócio em um ambiente protegido das hostilidades do mercado. Elas são fruto de uma espécie de berçários de empresas, chamados de incubadoras no jargão econômico. Salpicadas pelas páginas que se seguem, VEJA apresenta histórias de sucesso dessa geração especial de pequenos empreendedores. Eles fazem parte de uma elite de vencedores que superaram todas as etapas que um negócio bem-sucedido exige. Ao longo de um mês, onze repórteres da revista entrevistaram dezenas de pessoas. A partir daí, os critérios estabelecidos para um pequeno empresário figurar nesta reportagem foram basicamente três:
A princípio, a sede do negócio funcionou na quitinete em que morava sozinha, no bairro paulistano de Santa Cecília. Seu primeiro cliente foi justamente a empresa de bebidas que havia procurado o Senac. "Na primeira reunião com a diretoria da empresa, em que eu explicaria o que faria com os arquivos, meu estômago gelou de medo", lembra-se Sueli. A empresária conta que enfrentou resistência de um executivo, que não queria que ela mexesse em suas pastas de documentos. Meses depois, entendeu o motivo. "A organização dos arquivos revelou que ele estava sendo desonesto, o que o levou a ser demitido." Como não tinha empregados no início, Sueli era quem fazia tudo. E isso lhe deu uma enorme experiência, que ela considera um de seus fatores de sucesso.
Alguém poderia pensar que em tempos de informatização não há espaço para arquivistas. Errado. Por determinação legal, tudo o que exige a assinatura de uma pessoa deve ser guardado em papel durante um certo tempo. E as empresas precisam achar esses papéis quando enfrentam um processo judicial ou querem obter um certificado de qualidade ISO 9000, por exemplo. O método de organização de arquivos utilizado pela Técnica é uma invenção de Sueli e tem o reconhecimento de especialistas da Biblioteca Nacional. Atualmente, a sua empresa tem 35 funcionários, faturamento de cerca de 700.000 reais por ano e uma lista de clientes que inclui gigantes do porte da Ericsson, Philips, CSN e Eletropaulo. Já conta também com uma franquia, no interior de São Paulo. Marco Aurélio Bede, assessor de planejamento estratégico do Sebrae de São Paulo, ensina que alguns detalhes fazem a diferença entre a vida e a morte nos negócios. Primeiro, o controle severo do caixa da empresa. Depois, dedicação exclusiva do dono a seu empreendimento. Experiência prévia no ramo escolhido também conta muitos pontos. E, finalmente, vem o planejamento. Um estudo realizado pelo Sebrae paulista mostra estatisticamente que sem planejamento as novas empresas têm fôlego curto. O estudo acompanhou empresas estreantes durante cinco anos. As que sobreviveram foram planejadas durante nove meses ou mais. O panorama está mudando com a chegada ao mercado de gente preparada, mas os dados recolhidos pelos pesquisadores pintam um quadro ainda bastante precário: mais da metade das empresas abertas de meados da década passada para cá não conheciam ou procuraram saber a quantidade de clientes que teriam e seus hábitos de consumo. Quase 40% delas não tinham nenhuma idéia sobre a concorrência. A partir desses e de outros dados, o estudo conclui que os descuidos de planificação não apenas levam várias empresas a fechar prematuramente, como diminuem bastante a margem de lucro líquido das sobreviventes.
Essa constatação de que muitos candidatos a empresário alçam um vôo cego casa-se à perfeição com o elenco de motivações levantado pela pesquisa do Sebrae. A principal razão para a abertura de novas empresas é o simples desejo de ter um negócio próprio. A identificação de uma boa oportunidade aparece apenas como a segunda razão. E isso está errado. Ou, pelo menos, fora da ordem correta. Querer não ter patrão é uma motivação legítima, mas ela não pode levar ao equívoco de imaginar que tudo é mais fácil quando se é dono do próprio nariz. Você troca o chefe por uma legião de fornecedores e clientes, que não perdoam atrasos ou falhas. O horário certinho, de oito horas diárias de batente, é substituído por jornadas que, não raro, ultrapassam doze horas de trabalho contínuo. O colega carreirista, que faz tudo para puxar seu tapete, é substituído pela concorrência feroz. O planejamento é a chave do sucesso da paraibana Maria Salete Batista Freitag, de 47 anos. Durante sete anos, ela foi gerente de recursos humanos da Petrobras, em Natal. Administradora de empresas por formação, ela namorou por muito tempo a idéia de abrir uma loja de artigos esportivos. Quando finalmente se decidiu, estudou todas as possibilidades: do tipo de produto que venderia ao perfil dos potenciais clientes. Em 1996, ela aderiu ao plano de demissão voluntária da Petrobras e usou o dinheiro da rescisão e da poupança para abrir sua loja na capital do Rio Grande do Norte. Investiu 100.000 reais e levou três anos para ver o retorno do capital aplicado. Embora tenha planejado exaustivamente sua operação, Maria Salete cometeu erros. Começou oferecendo uma lista extensa de artigos, o que a obrigava a trabalhar com grandes estoques. Com o tempo, ela se deu conta de que o melhor a fazer era concentrar-se num segmento específico. Hoje, ela vende apenas moda para academia de ginástica e equipamentos para quem joga tênis. Também aprendeu a manter atualizado um banco de dados dos clientes. No ano passado, Maria Salete obteve um faturamento de 320.000 reais e, pela primeira vez, colocou parte desse dinheiro no bolso, para gastar com ela e a família. "Só agora estou pensando em tirar férias", conta ela, separada e mãe de dois filhos.
Não é incomum que a resolução de lançar-se na iniciativa privada seja causada pela mais absoluta necessidade. Isso porque algumas profissões simplesmente desaparecem e setores da economia encolhem ou passam por processos de automação e racionalização que implicam a dispensa em massa de funcionários. Essa onda atingiu em cheio a goiana Lêda Soares, hoje com 45 anos. Há sete, ela foi demitida do banco em que trabalhava, em Goiânia, e mergulhou numa depressão profunda. Quando decidiu reagir, procurou outros colegas demitidos e foram à luta. Orientados por consultores, eles abriram uma agência especializada em indicar profissionais qualificados para a construção civil, a Mundcoop. Dois fatores foram fundamentais nessa escolha. Em primeiro lugar, não havia na capital de Goiás um serviço tão específico e, por isso, poderiam levar vantagem. As companhias de construção civil, pelo caráter temporário da atividade, enfrentam dificuldade na hora de selecionar trabalhadores mais preparados. Ao recorrerem a uma agência como a de Lêda, esse processo é abreviado. O outro fator que pesou na balança foi uma experiência similar e bem-sucedida no Rio de Janeiro, levada a cabo por ex-funcionários do mesmo banco em que ela e seus sócios trabalhavam. A Mundcoop começou prestando serviços a três empresas. Hoje, tem mais de 100 clientes, distribuídos por Goiás, Distrito Federal e São Paulo. No ano passado, a empresa faturou 7 milhões de reais. Lêda, casada, dois filhos, dificilmente permanece mais de um dia longe do escritório. Para ela, é impossível qualquer negócio prosperar sem a presença constante do dono. "Estou muito feliz com o que faço. Espero que meus filhos tenham seu próprio negócio, para não terem de passar pela decepção que sofri quando saí do banco", diz Lêda. Não se pode esquecer, é claro, que um sem-número de iniciativas nasce da intuição e da realização de sonhos que não cabem em planilhas, projetos estruturados por consultores ou algo que o valha. É essa a graça (e engrenagem importante) do capitalismo. Quando anunciou que iria produzir flores ornamentais no Ceará, há seis anos, a ex-recepcionista de supermercado Germana Oliveira, moradora de Fortaleza, não foi levada a sério. O Ceará, árido e sem tradição em floricultura, mais afugentava que atraía investimentos no setor. "Mas eu tinha um sonho e não podia fugir dele. Sempre fui apaixonada por flores e desde cedo acalentava a idéia de não ter patrão", conta Germana. Durante a época em que trabalhou como recepcionista, usava uma parte do salário para comprar livros sobre flores. Foi por meio dessa literatura que ela aprendeu a desidratá-las, o que prorroga a aparência fresca do produto. Dominada a técnica, pediu demissão do emprego e passou a investir o dinheiro da poupança na compra de flores de um fornecedor de São Paulo. Depois de desidratadas, elas eram vendidas para o supermercado no qual Germana trabalhou e de onde saiu mantendo boas relações com os antigos chefes. Tanto que, não demorou muito, conseguiu convencê-los a montar uma seção de flores na loja.
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