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Exilados voltam
à China. Ricos
Líderes
dos protestos de 1989
trocam militância por bons negócios

José
Eduardo Barella
Arquivo pessoal
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Divulgação
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WILLIAM
XIN
Por que fugiu: liderou uma caravana de
estudantes do interior que foi a Pequim para os protestos, em 1989
Como voltou: é dono de uma empresa
especializada em vender produtos chineses nos Estados Unidos |
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YAQIN
ZHANG
Por que fugiu: organizou o movimento
dissidente no exterior, onde fazia doutorado, em 1989
Como voltou: é chefe do centro
de pesquisas da Microsoft em Pequim |
Em maio de
1989, milhares de estudantes desafiaram o regime comunista chinês
e ocuparam pacificamente a Praça da Paz Celestial, em Pequim, para
exigir democracia. Acabaram reprimidos a bala pelo Exército, em
um massacre que deixou milhares de mortos. Os líderes do movimento
que não foram detidos tiveram de fugir para o exílio para
escapar do longo braço repressor do regime. Mais de uma década
depois, muitos desses exilados já trilharam o caminho de volta
para casa. Seu objetivo não é mais derrubar o regime, mas
aproveitar a abertura econômica chinesa para fazer bons negócios.
Tão surpreendente quanto o retorno desses dissidentes é
a postura adotada pelo regime comunista. Ávido por atrair investimentos
externos, o mesmo governo que em 1989 acusou os líderes estudantis
de traição agora os recebe de braços abertos. Não
todos, é bom dizer. Apenas os que viraram empresários bem-sucedidos
ou aqueles que acumularam uma sólida formação acadêmica
em áreas estratégicas, como alta tecnologia. Aos demais,
que incluem cientistas políticos, escritores ou professores universitários
que insistem em pedir democracia, as portas continuam fechadas.
Como era
de esperar, os dissidentes que obtiveram autorização para
voltar trocaram as críticas inflamadas ao governo pela cautela.
A maioria fica visivelmente incomodada ao ser questionada sobre a situação
política atual da China, marcada pela repressão. "A abertura
econômica foi um sucesso nos últimos vinte anos e trouxe
grandes benefícios à população", disse a VEJA
o empresário William Xin, que decidiu retornar após treze
anos de exílio nos Estados Unidos. Sua trajetória resume
a reviravolta que os protestos de 1989 causaram na vida de um punhado
de ótimos alunos. Xin Weirong (como William se chamava até
então) cursava física nuclear na Universidade de Lanzhou
quando explodiram as manifestações em Pequim. Ele liderou
uma caravana de estudantes em direção à capital.
Perseguido, fugiu para os Estados Unidos, onde foi acolhido por uma ONG.
Xin adotou o prenome William, ganhou uma bolsa para concluir os estudos
pela Universidade Yale e fez ainda o MBA, a pós-graduação
em administração.
A primeira
tentativa de voltar ao país ocorreu em 1997. Sua mãe estava
doente e ele decidiu viajar sem pedir autorização ao governo.
Xin ficou impressionado com as mudanças econômicas na China
e notou que havia ótimas oportunidades de negócios. Há
pouco mais de dois anos, abriu uma empresa especializada em comercializar
produtos plásticos chineses no mercado americano. Aos 34 anos,
Xin não se arrepende da jogada arriscada que fez. Ele já
investiu 1 milhão de dólares no negócio e se orgulha
de ter organizado uma cooperativa de fornecedores chineses que reúne
800 empresas, todas privadas. Em seus contatos comerciais, Xin não
fala do passado de líder estudantil. "Minha atividade empresarial
é a melhor forma de ajudar os chineses a trilhar o caminho da prosperidade",
diz, cauteloso.
Três
dos mais destacados líderes dos protestos de 1989 também
riscaram a atividade política de seu currículo. Hoje, eles
comandam uma revolução tecnológica na China. James
Ding e Liu Yadong trocaram há dois anos uma vida confortável
nos Estados Unidos pelo promissor mercado chinês das telecomunicações.
Acertaram em cheio. Ambos trabalham para a AsiaInfo, a primeira empresa
chinesa com ações na Nasdaq, a bolsa de valores eletrônica
americana. O faturamento da companhia, atualmente presidida por Ding,
foi de 150 milhões de dólares no ano passado. O engenheiro
Yaqin Zhang, considerado um dos cientistas mais brilhantes de sua geração,
também deu a volta por cima. Zhang entrou na Universidade de Ciência
e Tecnologia de Pequim com apenas 12 anos de idade. Em 1989, aos 23, estava
concluindo o doutorado nos Estados Unidos quando os estudantes chineses
ocuparam a Praça da Paz Celestial. Yaqin viajou para Paris para
organizar o movimento dissidente e entrou na lista negra do governo. Seu
talento acabou prevalecendo. Por indicação de Bill Gates,
Yaqin voltou em 1998 para comandar o centro de pesquisas da Microsoft
na China. Seu exemplo estimulou outros ex-líderes estudantis a
sonhar com uma ampla anistia política, algo improvável.
Por enquanto, a maioria tem de se contentar em engrossar a lista dos cerca
de 30 milhões de chineses que vivem fora do país. Até
com a diáspora o governo de Pequim fatura. Cerca de dois terços
dos 47 bilhões de dólares em investimentos externos na China
em 2001 foram feitos por empresas de chineses estabelecidos no exterior.
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