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Edição 1 745 - 3 de abril de 2002
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Exilados voltam
à China. Ricos

Líderes dos protestos de 1989
trocam militância por bons negócios

José Eduardo Barella

Arquivo pessoal
  Divulgação
WILLIAM XIN
Por que fugiu: liderou uma caravana de estudantes do interior que foi a Pequim para os protestos, em 1989
Como voltou: é dono de uma empresa especializada em vender produtos chineses nos Estados Unidos
  YAQIN ZHANG
Por que fugiu: organizou o movimento dissidente no exterior, onde fazia doutorado, em 1989
Como voltou: é chefe do centro de pesquisas da Microsoft em Pequim

Em maio de 1989, milhares de estudantes desafiaram o regime comunista chinês e ocuparam pacificamente a Praça da Paz Celestial, em Pequim, para exigir democracia. Acabaram reprimidos a bala pelo Exército, em um massacre que deixou milhares de mortos. Os líderes do movimento que não foram detidos tiveram de fugir para o exílio para escapar do longo braço repressor do regime. Mais de uma década depois, muitos desses exilados já trilharam o caminho de volta para casa. Seu objetivo não é mais derrubar o regime, mas aproveitar a abertura econômica chinesa para fazer bons negócios. Tão surpreendente quanto o retorno desses dissidentes é a postura adotada pelo regime comunista. Ávido por atrair investimentos externos, o mesmo governo que em 1989 acusou os líderes estudantis de traição agora os recebe de braços abertos. Não todos, é bom dizer. Apenas os que viraram empresários bem-sucedidos ou aqueles que acumularam uma sólida formação acadêmica em áreas estratégicas, como alta tecnologia. Aos demais, que incluem cientistas políticos, escritores ou professores universitários que insistem em pedir democracia, as portas continuam fechadas.

Como era de esperar, os dissidentes que obtiveram autorização para voltar trocaram as críticas inflamadas ao governo pela cautela. A maioria fica visivelmente incomodada ao ser questionada sobre a situação política atual da China, marcada pela repressão. "A abertura econômica foi um sucesso nos últimos vinte anos e trouxe grandes benefícios à população", disse a VEJA o empresário William Xin, que decidiu retornar após treze anos de exílio nos Estados Unidos. Sua trajetória resume a reviravolta que os protestos de 1989 causaram na vida de um punhado de ótimos alunos. Xin Weirong (como William se chamava até então) cursava física nuclear na Universidade de Lanzhou quando explodiram as manifestações em Pequim. Ele liderou uma caravana de estudantes em direção à capital. Perseguido, fugiu para os Estados Unidos, onde foi acolhido por uma ONG. Xin adotou o prenome William, ganhou uma bolsa para concluir os estudos pela Universidade Yale e fez ainda o MBA, a pós-graduação em administração.

A primeira tentativa de voltar ao país ocorreu em 1997. Sua mãe estava doente e ele decidiu viajar sem pedir autorização ao governo. Xin ficou impressionado com as mudanças econômicas na China e notou que havia ótimas oportunidades de negócios. Há pouco mais de dois anos, abriu uma empresa especializada em comercializar produtos plásticos chineses no mercado americano. Aos 34 anos, Xin não se arrepende da jogada arriscada que fez. Ele já investiu 1 milhão de dólares no negócio e se orgulha de ter organizado uma cooperativa de fornecedores chineses que reúne 800 empresas, todas privadas. Em seus contatos comerciais, Xin não fala do passado de líder estudantil. "Minha atividade empresarial é a melhor forma de ajudar os chineses a trilhar o caminho da prosperidade", diz, cauteloso.

Três dos mais destacados líderes dos protestos de 1989 também riscaram a atividade política de seu currículo. Hoje, eles comandam uma revolução tecnológica na China. James Ding e Liu Yadong trocaram há dois anos uma vida confortável nos Estados Unidos pelo promissor mercado chinês das telecomunicações. Acertaram em cheio. Ambos trabalham para a AsiaInfo, a primeira empresa chinesa com ações na Nasdaq, a bolsa de valores eletrônica americana. O faturamento da companhia, atualmente presidida por Ding, foi de 150 milhões de dólares no ano passado. O engenheiro Yaqin Zhang, considerado um dos cientistas mais brilhantes de sua geração, também deu a volta por cima. Zhang entrou na Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim com apenas 12 anos de idade. Em 1989, aos 23, estava concluindo o doutorado nos Estados Unidos quando os estudantes chineses ocuparam a Praça da Paz Celestial. Yaqin viajou para Paris para organizar o movimento dissidente e entrou na lista negra do governo. Seu talento acabou prevalecendo. Por indicação de Bill Gates, Yaqin voltou em 1998 para comandar o centro de pesquisas da Microsoft na China. Seu exemplo estimulou outros ex-líderes estudantis a sonhar com uma ampla anistia política, algo improvável. Por enquanto, a maioria tem de se contentar em engrossar a lista dos cerca de 30 milhões de chineses que vivem fora do país. Até com a diáspora o governo de Pequim fatura. Cerca de dois terços dos 47 bilhões de dólares em investimentos externos na China em 2001 foram feitos por empresas de chineses estabelecidos no exterior.

 
 
   
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