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Edição 1 745 - 3 de abril de 2002
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Desesperados por dólares

Risco de hiperinflação
causa pânico na Argentina

Raul Juste Lores


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A Argentina espera um novo pacote econômico, provavelmente já neste fim de semana. É o enésimo plano para tentar tirar o país da bancarrota e procurar evitar o pior, a hiperinflação. Esse fantasma, que os argentinos conhecem muito bem, vem provocando correria no centro de Buenos Aires. Quem tem algum dinheiro no bolso se apressa para trocar seus pesos por dólares. Na semana passada, formaram-se filas enormes e muita gente passou a noite ao relento esperando a abertura de bancos e casas de câmbio. O dólar, que durante uma década esteve equiparado por força de lei à moeda argentina, na segunda-feira já valia 4 pesos. Recuou um pouco no meio da semana, depois que o Banco Central vendeu 100 milhões de dólares de reservas a preços camaradas. Não foi o suficiente para acalmar as multidões. Os argentinos acham que o dinheiro nacional vai desvalorizar-se ainda mais e que o governo terá de emitir milhões de pesos para cobrir seus gastos, visto que a arrecadação de impostos continua caindo. Com isso, os preços vão subir. É o cenário clássico da inflação. No governo, ninguém tem nenhum plano coerente para evitar o desastre, exceto pedir novos empréstimos ao Fundo Monetário Internacional. É um plano malfadado, pois o FMI reluta em emprestar dinheiro à Argentina.

A venda de ovos de Páscoa foi a pior dos últimos anos, e os preços da carne, o alimento mais popular do país, da batata e do óleo subiram 10% em uma semana. O quilo de frango praticamente dobrou de valor desde dezembro. Celulares e planos de saúde ficaram de 10% a 15% mais caros. No caso dos remédios, a alta foi de 35%. As companhias de ônibus decidiram suspender a circulação de coletivos das 10 da noite às 6 da manhã por "falta de combustível". Com a corda no pescoço, o governo do presidente Eduardo Duhalde comemorou um acordo com supermercados e a associação da indústria alimentícia para evitar aumentos de preços até... a próxima terça-feira. Onde isso vai parar? Ainda está fresca na memória dos argentinos a hiperinflação dos anos 80. Por isso, eles resolveram fugir do peso e dolarizar o país por conta própria. O governo também gostaria de abandonar de vez o peso e adotar o dólar como moeda corrente – mas já não restam no Tesouro Nacional dólares em quantidade suficiente para bancar a empreitada. As reservas do país, que eram de 20 bilhões de dólares há cinco meses, são de 12 bilhões hoje – 1 bilhão a menos que no mês passado. Quem pôde colocou seu dinheiro longe da Argentina. Segundo o Ministério da Economia, há 106 bilhões de dólares de argentinos no exterior, e 13 bilhões teriam saído apenas no ano passado. Há 4,5 bilhões em imóveis, a maior parte no Uruguai e em Miami.

Nesta semana, Duhalde receberá a enésima visita de uma missão do FMI e apresentará seu novo plano para tirar o país do atoleiro e voltar a pagar a dívida externa de 150 bilhões de dólares. O presidente pretende duplicar o imposto sobre exportações – será de 20% – , para ter mais dólares em caixa, e deve mudar a lei de falências aprovada há dois meses, que obriga os bancos a esperar 180 dias antes de pedir a bancarrota de seus devedores.

Até a volta da conversibilidade – como se chamava a paridade entre o peso e o dólar – está sendo discutida, só que desta vez 1 dólar valeria 3 pesos. Há duas semanas, em Monterrey, no México, onde participou de uma cúpula sobre desenvolvimento econômico, o presidente Duhalde ouviu tanto do secretário do Tesouro americano quanto do diretor-presidente do FMI que a ajuda financeira à Argentina só sai se o governo puder provar que daqui para a frente deixará de gastar mais do que arrecada. Essa é uma promessa que Duhalde não pode cumprir, sob o risco de provocar uma crise social ainda mais grave.

Por falta de dinheiro, a maioria dos argentinos não saiu de férias no verão. Neste fim de março, quando o ritmo de vida costuma voltar ao normal em Buenos Aires, eles descobriram que este será um ano sem o entretenimento habitual. Vários dos principais programas de TV estão temporariamente cancelados por falta de anunciantes. Velhos seriados, como Chaves e Esquadrão Classe A, são agora transmitidos em horário nobre. Algumas celebridades televisivas nem retornaram das férias em Miami ou em Punta del Este, esperando tempos mais amenos em Buenos Aires. A temporada do Teatro Colón, a principal sala lírica da América Latina, é uma das mais esquálidas dos últimos anos. Até as modelos argentinas estão migrando para as passarelas da Espanha e do México. A capital famosa por seus teatros e pela ótima programação de shows vê diariamente o cancelamento de atrações internacionais. Sem dólar, a vida portenha é um desespero.

 
 
   
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