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Desesperados por
dólares
Risco
de hiperinflação
causa pânico na Argentina

Raul Juste
Lores

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A Argentina
espera um novo pacote econômico, provavelmente já neste fim
de semana. É o enésimo plano para tentar tirar o país
da bancarrota e procurar evitar o pior, a hiperinflação.
Esse fantasma, que os argentinos conhecem muito bem, vem provocando correria
no centro de Buenos Aires. Quem tem algum dinheiro no bolso se apressa
para trocar seus pesos por dólares. Na semana passada, formaram-se
filas enormes e muita gente passou a noite ao relento esperando a abertura
de bancos e casas de câmbio. O dólar, que durante uma década
esteve equiparado por força de lei à moeda argentina, na
segunda-feira já valia 4 pesos. Recuou um pouco no meio da semana,
depois que o Banco Central vendeu 100 milhões de dólares
de reservas a preços camaradas. Não foi o suficiente para
acalmar as multidões. Os argentinos acham que o dinheiro nacional
vai desvalorizar-se ainda mais e que o governo terá de emitir milhões
de pesos para cobrir seus gastos, visto que a arrecadação
de impostos continua caindo. Com isso, os preços vão subir.
É o cenário clássico da inflação. No
governo, ninguém tem nenhum plano coerente para evitar o desastre,
exceto pedir novos empréstimos ao Fundo Monetário Internacional.
É um plano malfadado, pois o FMI reluta em emprestar dinheiro à
Argentina.
A venda
de ovos de Páscoa foi a pior dos últimos anos, e os preços
da carne, o alimento mais popular do país, da batata e do óleo
subiram 10% em uma semana. O quilo de frango praticamente dobrou de valor
desde dezembro. Celulares e planos de saúde ficaram de 10% a 15%
mais caros. No caso dos remédios, a alta foi de 35%. As companhias
de ônibus decidiram suspender a circulação de coletivos
das 10 da noite às 6 da manhã por "falta de combustível".
Com a corda no pescoço, o governo do presidente Eduardo Duhalde
comemorou um acordo com supermercados e a associação da
indústria alimentícia para evitar aumentos de preços
até... a próxima terça-feira. Onde isso vai parar?
Ainda está fresca na memória dos argentinos a hiperinflação
dos anos 80. Por isso, eles resolveram fugir do peso e dolarizar o país
por conta própria. O governo também gostaria de abandonar
de vez o peso e adotar o dólar como moeda corrente mas já
não restam no Tesouro Nacional dólares em quantidade suficiente
para bancar a empreitada. As reservas do país, que eram de 20 bilhões
de dólares há cinco meses, são de 12 bilhões
hoje 1 bilhão a menos que no mês passado. Quem pôde
colocou seu dinheiro longe da Argentina. Segundo o Ministério da
Economia, há 106 bilhões de dólares de argentinos
no exterior, e 13 bilhões teriam saído apenas no ano passado.
Há 4,5 bilhões em imóveis, a maior parte no Uruguai
e em Miami.
Nesta semana,
Duhalde receberá a enésima visita de uma missão do
FMI e apresentará seu novo plano para tirar o país do atoleiro
e voltar a pagar a dívida externa de 150 bilhões de dólares.
O presidente pretende duplicar o imposto sobre exportações
será de 20% , para ter mais dólares em caixa,
e deve mudar a lei de falências aprovada há dois meses, que
obriga os bancos a esperar 180 dias antes de pedir a bancarrota de seus
devedores.
Até
a volta da conversibilidade como se chamava a paridade entre o
peso e o dólar está sendo discutida, só que
desta vez 1 dólar valeria 3 pesos. Há duas semanas, em Monterrey,
no México, onde participou de uma cúpula sobre desenvolvimento
econômico, o presidente Duhalde ouviu tanto do secretário
do Tesouro americano quanto do diretor-presidente do FMI que a ajuda financeira
à Argentina só sai se o governo puder provar que daqui para
a frente deixará de gastar mais do que arrecada. Essa é
uma promessa que Duhalde não pode cumprir, sob o risco de provocar
uma crise social ainda mais grave.
Por falta
de dinheiro, a maioria dos argentinos não saiu de férias
no verão. Neste fim de março, quando o ritmo de vida costuma
voltar ao normal em Buenos Aires, eles descobriram que este será
um ano sem o entretenimento habitual. Vários dos principais programas
de TV estão temporariamente cancelados por falta de anunciantes.
Velhos seriados, como Chaves e Esquadrão Classe A,
são agora transmitidos em horário nobre. Algumas celebridades
televisivas nem retornaram das férias em Miami ou em Punta del
Este, esperando tempos mais amenos em Buenos Aires. A temporada do Teatro
Colón, a principal sala lírica da América Latina,
é uma das mais esquálidas dos últimos anos. Até
as modelos argentinas estão migrando para as passarelas da Espanha
e do México. A capital famosa por seus teatros e pela ótima
programação de shows vê diariamente o cancelamento
de atrações internacionais. Sem dólar, a vida portenha
é um desespero.
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