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Edição 1 745 - 3 de abril de 2002
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Um candidato
bom de boca

Garotinho deixa o governo do Rio
e faz da campanha à Presidência
um show de populismo

Marcelo Carneiro e Ronaldo França

Oscar Cabral
O governador na terça-feira passada: candidato em busca do voto da periferia

A cena que se segue aconteceu na semana passada em Japeri. Essa é a mais miserável das cidades que compõem a Baixada Fluminense, cinturão de pobreza e violência que circunda a cidade do Rio de Janeiro. Mas terça-feira foi dia de festa. Seis ruas do bairro Virgem de Fátima acabavam de ganhar asfaltamento. No palanque armado na carroceria de um caminhão de som, cantores evangélicos preparavam o terreno para a principal atração. Às 8 da noite, o espetáculo já estava atrasado uma hora e meia quando o locutor anunciou: "Minha gente, ele chegou, é o nosso governador e futuro presidente do Brasil, Ga-ro-ti-nhooooooo". Anthony Garotinho surge em seu habitat. O que se segue é um show. Do alto do palanque, gestos largos e palavras de fácil entendimento se juntam num discurso televisivo. "Quem aqui já comeu no restaurante popular da Central do Brasil?", provoca, como se estivesse diante de um auditório. "Aqui é muito longe da Central, não é? Vou inaugurar um aqui perto", promete, referindo-se ao programa que oferece comida a 1 real à população. A massa delira. A uma semana de deixar o governo do Estado para lançar-se na disputa à Presidência, a inauguração de uma capa de asfalto em meia dúzia de ruas é pretexto para mais um comício. Era o sétimo compromisso do tipo naquele dia. Em trinta dias, foram 47. Anthony Garotinho está em plena campanha, reinando na periferia.

A candidatura do governador do Rio de Janeiro teve seu fôlego renovado, na semana passada, por mais um resultado positivo nas pesquisas de opinião. É esse o principal motivo de ele se manter firme na intenção de se desincompatibilizar do cargo e concorrer à Presidência, apesar da decisão do TSE de vincular as coligações em todo o país, o que lhe é francamente desfavorável. Segundo três institutos – Datafolha, Ibope e Sensus – ele ocupa o segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, disputando com José Serra e Roseana Sarney. O candidato do PSB à Presidência é um dos últimos exemplares de uma espécie em processo de extinção: os populistas. Guarda semelhanças com vários outros populistas históricos. Com o ex-governador do Rio Chagas Freitas tem em comum as obras de apelo popular. De Jânio Quadros, reproduz o desapego aos partidos em favor de seu projeto pessoal de chegar ao poder. De Leonel Brizola, herdou o personalismo que o faz sentir-se acima das legendas e pronto a qualquer tipo de aliança. O que o destaca é a competência com que transforma todos os atos de governo em ações de marketing.

Populistas como os dos velhos tempos são espécimes mais raros porque o terreno onde vivem e se alimentam está se exaurindo no Brasil à medida que o país avança para a modernidade. Seus insumos são desinformação, baixo nível de escolaridade e desorganização social. Ou seja, sua dieta básica é o atraso, ainda abundante nas periferias. É por isso que Garotinho se tem fartado justamente ali. "Ele encarna um populismo sustentado sobre uma plataforma de gastos públicos desmedidos, obras e religião", avalia o cientista político Sérgio Abranches. "Só opera nas periferias desestruturadas. Seu discurso é do tipo 'vim para fazer o bem'.", diz.

Para os teóricos, definir o conceito de populismo é difícil porque, em tese, a função de um político é mesmo realizar coisas que agradem à maioria, por isso ele foi eleito. Até aí não há restrições. O que condena a prática populista é o expediente de pautar a administração por obras de fachada e nenhum compromisso com medidas que tenham a mais leve coloração de impopularidade, por mais necessárias que sejam. Não se ouve o governador do Rio falar mal ou bem do MST, criticar sindicatos nem dizer coisa alguma que o comprometa. E não é só. É com habilidade que ele promove obras gigantescas que lhe rendem visibilidade, como o Piscinão de Ramos. Na mesma linha de projetos que empolgam as massas, o governador está inaugurando no Rio sete restaurantes populares de refeições a 1 real, além de um hotel com diárias pelo mesmo preço. Projetos que ele promete levar para o governo federal, caso eleito. Hotéis de 1 real por dia no Brasil inteiro bancados pelo governo federal? Não há espaço para brincadeiras desse tipo no orçamento social do país. "O Brasil já destina 35 bilhões de reais a algum tipo de programa de renda mínima. Quase um terço da população brasileira já recebe uma ajuda como essa", afirma o especialista em finanças públicas Raul Velloso. É graças à estampa que imprime a seus atos que Garotinho está escorado em uma espetacular popularidade. É, de acordo com as pesquisas do Datafolha, o terceiro governador mais bem avaliado do Brasil, com índice de 7,2% de aprovação, numa escala de zero a 10. "Os políticos com projetos voltados para as camadas excluídas da sociedade são chamados de populistas. Eu sou é popular", disse o governador a VEJA, na quinta-feira. "Sei que os problemas do país só serão resolvidos com crescimento e desenvolvimento econômico."

A força do candidato do PSB, mostram as pesquisas, está no entorno empobrecido das grandes cidades. Por isso, a cena em Japeri é simbólica. É em lugares como esse que se juntam o eleitorado carente em suas necessidades mais básicas e o político bom de gogó, que agrada porque promete somente o que sabe que irá agradar. E o governador, que começou a corrida em sexto lugar nas pesquisas de intenção de votos, é um craque na arte de falar com o povo. "Ele consegue dizer as coisas de uma forma que todo mundo entende", afirma Fernando Peregrino, coordenador de seu programa de governo. Sua técnica é engenhosa. Na maratona da semana passada, uma de suas tarefas era explicar a uma platéia de semi-analfabetos o que é uma usina termoelétrica. Na tradução de Garotinho ficou assim: "Vou gerar empregos aqui mesmo". Todo mundo entendeu o necessário.

Anthony William Matheus de Oliveira, 41 anos e nove filhos, dos quais cinco adotivos, tornou-se Garotinho quando tinha 15 anos e começou a trabalhar em rádios do interior. Vem dessa época a habilidade com as palavras, muito aprimorada nos programas diários retransmitidos por uma rede de emissoras Brasil afora. Desempregado, em 1982 foi à luta vender livrinhos de cordel. Depois disso, ascendeu na política – primeiro filiado ao PCB e depois ao PT. Foi duas vezes prefeito de Campos, secretário estadual de Agricultura e governador. Com mais de 80% de aprovação no Estado, preocupa os adversários. A mais recente pesquisa do Ibope dá a Garotinho 14% das intenções de voto e mostra que uma expressiva parcela de seu eleitorado se concentra em cidades com mais de 100.000 habitantes, independentemente da região do país. Tem 27% das intenções de voto nas periferias das cidades, desempenho superior até mesmo ao de Lula, que alcança apenas 21%.

Garotinho se atrapalha quando fala com alguém um pouco mais bem informado. Alguns pontos já explicitados de seu programa econômico de governo são um exemplo. A maior parte do que promete não se sustenta no plano federal, como mostra o quadro abaixo. É o caso, por exemplo, do crescimento econômico de 8% ao ano. "É uma promessa irresponsável, típica de político populista. Esse crescimento também traria de volta o aumento da inflação", afirma o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. Críticas como essa não abalam o ânimo do candidato. Garotinho é movido pela fé inabalável de que será, um dia, o presidente do Brasil. Por via das dúvidas, tem feito suas orações.

 

REI DO GOGÓ

O governador Anthony Garotinho tem o hábito de torcer a realidade a seu favor. Alguns exemplos:

Em fevereiro deste ano, o governo do Estado publicou um anúncio comparando os índices de violência da gestão Garotinho com os do governo anterior, de Marcello Alencar. Só se esqueceu de incluir nas estatísticas o último ano de Alencar à frente do Estado, o que criou a falsa impressão de queda em alguns índices.

Em seus discursos de campanha à Presidência, apresenta-se como o governador do Estado que tem os menores índices de desemprego no país. Isso é uma realidade há dez anos, e não um mérito de seu governo.

Acossado por críticas do PT que apontam irregularidades nos gastos do governo, anunciou a contratação da consultoria Ernst & Young para auditar suas contas. A empresa foi, de fato, contratada pelo governo, mas não para fazer uma auditoria.

O governador aumentou o salário mínimo estadual para 220 reais em dezembro de 2000 e prometeu reajustar o valor para 280 em março deste ano, mas a maior parte dos funcionários ficou com 240.

Em disputa política com a vice-governadora Benedita da Silva, do PT, Garotinho acusou a ex-aliada de ter feito desaparecer 500 000 reais doados por empresas privadas para a construção de restaurantes populares. As companhias citadas desmentiram ter feito qualquer doação, e o governador não apresentou provas da acusação.

 

PALAVRA DE GAROTINHO

O governador Anthony Garotinho tem repetido algumas promessas em entrevistas e palanques. Todas causariam mudanças profundas na economia. VEJA procurou especialistas para conferir sua viabilidade.

 

CORTE DE JUROS

Promete limitar a taxa anual de juros a 4% acima da inflação. Seria uma forma, segundo ele, de reativar a economia, aumentando a oferta de crédito.

A medida poderia acabar com a poupança do país, já que os bancos ofereceriam baixa remuneração aos depósitos. Além disso, em uma economia globalizada como a dos dias de hoje, é impossível reduzir taxa de juro por decreto.

 

CRESCIMENTO DE 8% AO ANO

Tem dito que promoverá um crescimento entre 7% e 8% ao ano, conquistado através do aumento do crédito e da substituição das importações.

É uma promessa ambiciosa, já que o país só cresceu a essas taxas na época do milagre econômico. Ainda que fosse viável, a proposta levaria a um inevitável aumento do consumo, o que acionaria novamente a espiral inflacionária.

 

AUMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO

Elevou o salário mínimo estadual para 220 reais e dá a entender que aplicará aumento substancial na esfera federal.

A medida teria forte impacto sobre a Previdência Social, cujos gastos hoje já chegam perto de 60 bilhões de reais. As prefeituras, que não têm condição de arcar com o aumento, seriam as mais prejudicadas.

 

 
 
   
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