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Todo
o apoio ao MST
"No
sítio de uns amigos, na falta de
um MST, minha maior diversão era
ver a dona do lugar espremer bernes
entranhados em seus cachorros"
Depois do ataque à fazenda de Fernando Henrique Cardoso, todo mundo
virou as costas para o MST. Até o PT. É nesse momento de
grave dificuldade que eu me sinto no dever de me solidarizar com os sem-terra.
Apóio-os incondicionalmente. Enquanto eles invadiam a fazenda do
presidente, eu passava o fim de semana no sítio de uns amigos.
Aborrecia-me tanto com a vida campestre que a minha única esperança
era que 300 manifestantes, armados com enxadas, ocupassem nossa casa e
aliviassem a monotonia, embriagando-se com vinho francês, fumando
charuto cubano, dançando forró, telefonando para os parentes,
tacando fogo nos tratores e rindo à toa com o quadro do chapéu
do Programa Raul Gil. O problema é que, ao contrário
da fazenda do presidente, o sítio em que eu estava hospedado não
tinha vinho francês, nem charutos cubanos, nem telefone, nem tratores,
nem TV. Só tinha rede. Eu ficava o tempo todo deitado na rede.
Na falta do MST, minha maior diversão era ver a dona do sítio
espremer bernes entranhados em seus cachorros.
Sou viciado em jornais e revistas. Não consigo passar um dia inteiro
sem lê-los. No sábado, infelizmente, o único jornal
disponível no vilarejo mais próximo do sítio era
o Extra. Você não tem idéia de como o Extra
é ruim. Por causa de meu vício, porém, acabei lendo-o
de ponta a ponta. Fiz até as palavras cruzadas. Nas palavras cruzadas
do Extra, aparece, por exemplo, o desenho de um cavalo. Você
tem de preencher os quadradinhos horizontais com C-A-V-A-L-O. Já
nas verticais há o desenho de um carro de corrida. Você enfia
lá: C-A-R-R-O-D-E-C-O-R-R-I-D-A. Estimulado por esse duro desafio,
no dia seguinte, além do Extra, comprei a revista Coquetel,
em sua versão mais difícil. Eu não fazia as palavras
cruzadas da revista Coquetel havia décadas. Tudo continuava
perfeitamente igual. Figura bíblica? Noé. Interjeição
mineira? Uai. Muro, em francês? Mur. Começo, origem? Incunábulo.
Cinema? A sétima arte.
Somos muito fracos em matéria de palavras. Aliás, temos
problemas com a língua portuguesa em geral. Ela teima em não
entrar em nossa cabeça. Prova disso é que, juntamente com
Extra e Coquetel, o jornaleiro me vendeu um encarte especial
de O Globo em que Pasquale Cipro Neto ensina umas regrinhas básicas
sobre prefixos, adjetivos compostos e crases. Ele explica que é
errado dizer coisas como "Ronaldo driblou ao zagueiro", "a camisa verde-amarelo"
e "bem-vindo à São Paulo". É como se nenhum brasileiro
tivesse completado a sétima série. Dizem que o MST se inspira
no modelo chinês. Na China, durante a Revolução Cultural,
escolas foram fechadas, livros queimados e professores assassinados ou
mandados para trabalhos forçados no campo e nas fábricas.
A idéia era reeducar a elite intelectual do país, acusada
de estar contaminada com valores burgueses. O ensino foi nivelado por
baixo, com o uso de uma língua simplificada, dotada de menos caracteres,
que criou uma massa de proletários semi-alfabetizados, prontos
para decorar o livro vermelho, mas incapazes de entender um artigo de
jornal. Talvez nem um artigo do Extra. Mas o que eu quero dizer
é que, no Brasil, nós também nivelamos o ensino por
baixo, com um português simplificado, de vocabulário cada
vez mais pobre e gramática cada vez mais torta. O Brasil passou
por uma Revolução Cultural e não percebeu. Aqui se
esqueceram da reforma agrária, claro. Mas sobraram os bernes.
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