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Edição 1 745 - 3 de abril de 2002
Entrevista: Sari Nusseibeh

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"A paz é possível"

Representante da OLP em Jerusalém
diz que as alternativas para
o Oriente
Médio são o caos ou a negociação

Eduardo Salgado

Veja também
VEJA de 4/7/2001: o chanceler de Israel, Shimon Peres, fala sobre o conflito no Oriente Médio

O representante da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em Jerusalém, Sari Nusseibeh, 53 anos, já foi vítima de ambos os lados do conflito no Oriente Médio. Nos anos 80, quando a OLP ainda sonhava destruir Israel, Nusseibeh defendia o reconhecimento mútuo e iniciou pessoalmente um diálogo com os israelenses. Por causa disso, foi espancado por palestinos mascarados e teve um braço quebrado. Na década seguinte, foi a vez dos israelenses, que o prenderam por três meses. Professor de filosofia formado em Oxford e com doutorado em Harvard, Nusseibeh pertence a uma das famílias mais importantes e antigas de Jerusalém. Nos últimos 1.300 anos, os Nusseibeh ocuparam os mais variados cargos na Cidade Santa, inclusive o de guardião muçulmano da Igreja do Santo Sepulcro. Seu pai foi governador de Jerusalém e perdeu uma perna em combate na guerra que se seguiu à fundação do Estado de Israel, em 1948. De seu escritório em Jerusalém, Nusseibeh, que é casado e tem quatro filhos, falou a VEJA.

Veja – Por que as negociações entre palestinos e israelenses nunca chegam a um acordo para pôr fim ao conflito?
Nusseibeh – Não acho que um acordo seja impossível. Fizemos progressos nos últimos cinqüenta anos, especialmente na década de 90. Foram passos lentos, mas graduais, na direção da paz e da reconciliação. A violência desses últimos dezoito meses é uma aberração, não a norma. Nosso dilema no momento é o seguinte: ou deixamos que as divergências nos levem de volta aos anos 40 e 50, ou as mantemos sob controle e voltamos ao começo da década de 90. O racional é buscarmos o entendimento.

Veja – O príncipe Abdullah, da Arábia Saudita, propôs que os países árabes reconheçam Israel em troca do estabelecimento de um Estado palestino. Existe alguma chance para esse plano?
Nusseibeh – A oferta feita pelos países árabes aos israelenses de relações pacíficas é tão importante que Israel não tem outra opção a não ser levar o plano a sério. Caso contrário, voltamos à estaca zero nesta tragédia em que vivemos. A violência continuará e poderá desembocar numa situação em que os dois lados resolverão tomar decisões extremadas. Se Israel achar que não há entendimento possível com os palestinos e com os árabes, e decidir fazer incursões militares em áreas populosas, o conflito ficará ainda mais sangrento. Nem posso estimar a extensão da tragédia, mas com certeza muita gente vai morrer e as repercussões serão muito negativas para toda a região, talvez para o mundo.

Veja – O que o mundo árabe precisa fazer para evitar que a situação piore?
Nusseibeh – Todos os envolvidos no conflito devem levar a proposta do príncipe Abdullah a sério e caminhar no sentido da negociação. O mundo árabe precisa dizer à sociedade israelense que não é anti-semita e não quer destruir o Estado de Israel. Precisa deixar claro que quer viver em paz com os israelenses.  

Veja – Não seria preciso também que palestinos parassem com os ataques terroristas contra civis israelenses, como exige o governo de Israel?
Nusseibeh – O processo de paz é uma estrutura delicada, que depende do encaixe cuidadoso de muitos elementos. Israel precisa tomar medidas claras para minimizar as ações e as intervenções militares. Os palestinos também precisam comprometer-se claramente com a redução da violência. Do lado israelense, uma decisão do primeiro-ministro Ariel Sharon tem efeito imediato, porque se trata de um Exército. No caso palestino, a obediência à ordem de cessar-fogo leva mais tempo para surtir efeito. De qualquer forma, a liderança palestina precisa se empenhar para pôr fim à violência e se certificar de que a ordem seja cumprida.

Veja – O senhor acredita que Yasser Arafat tem condições de impor um cessar-fogo a todas as facções armadas palestinas?
Nusseibeh – Sim. Se a liderança deixar claras sua posição e suas intenções, será possível reduzir significativamente a violência. Mas isso ocorreria apenas se houvesse um clima de esperança. E isso só se consegue se existir um processo de paz em marcha.

Veja – Como seria possível injetar esperança se tantas pessoas estão sendo mortas todos os dias?
Nusseibeh – A proposta saudita pode ajudar. Ela é razoável e permitiria criar o ambiente de esperança necessário para ambos os lados. Uma reação positiva do governo israelense ao plano saudita pode transformar essa região de uma hora para a outra. De um ciclo sangrento de violência, no qual vivemos, em algo pacífico e positivo. Mas, mesmo que o governo de Israel rejeite a proposta do príncipe Abdullah, o impacto na sociedade israelense deve ser positivo. A mensagem que precisa ficar é a seguinte: o conflito não pode ser do tipo existencial. Não podemos colocar em dúvida a existência de Israel e os planos de construir um Estado palestino. Se for visto dessa forma, pessoas de ambos os lados cada vez mais irão adotar posições extremadas. Devemos administrar o conflito examinando questões específicas: a ocupação israelense de territórios e a capacidade dos palestinos de formar um Estado. Assim, a opinião pública israelense reagirá positivamente à proposta de viver em paz. E não tomará medidas extremadas.

Veja – O conflito entre israelenses e palestinos começou há meio século e vive um de seus momentos mais sangrentos. O que leva o senhor a pensar que a paz é possível?
Nusseibeh – Os últimos cinqüenta anos ensinaram a muita gente de ambos os lados que restam apenas dois caminhos a seguir. Uma opção é deixar a situação piorar até que ninguém tenha o menor controle. A outra é buscar um modelo de coexistência que propicie progresso e prosperidade. Ou seja, segurança para ambos os povos. Lutamos muitas guerras, tentamos a estratégia do não-reconhecimento, tentamos matar uns aos outros, tentamos recorrer aos organismos internacionais e ao apoio de outras nações. Tentamos tudo o que era possível. Chegou o momento de os dois lados reconhecerem a realidade. Não faz o menor sentido ignorar a demanda palestina pela liberdade e pela criação do Estado palestino. Também não faz sentido ignorar as demandas israelenses por segurança. Se firmarmos um acordo baseado nessas demandas, poderemos transformar a região.

Veja – Há facções extremistas palestinas que não estão dispostas a aceitar nenhum acordo com Israel. Arafat teria condições de impor um acordo de paz aos fundamentalistas islâmicos e a outros grupos radicais?
Nusseibeh – A Autoridade Palestina já demonstrou que tem condição de impedir que grupos extremistas ajam por conta própria, contra a lei ou a estratégia palestina. Já fez isso no passado. Portanto, pode ser feito no futuro. Não será problema. Claro que não estamos falando de uma situação que nos levaria a uma guerra civil, o que seria contraproducente para todos os envolvidos. Existe consenso para que Arafat trabalhe com o objetivo de pôr fim à ocupação e crie o Estado palestino.

Veja – Quem ganha com a atual onda de violência?
Nusseibeh – Ninguém. Os dois lados estão sofrendo. Alguns israelenses e alguns palestinos acham que a violência é uma saída. Não é. A violência é um vírus que destrói as duas partes. Nem os israelenses nem os palestinos vão conseguir impor sua vontade dessa forma. A violência só traz morte.

Veja – Há quem diga que a autoridade de Arafat aumentou na mesma medida em que a situação se tornou mais violenta. Isso é verdade?
Nusseibeh – Pessoas dos dois lados estão se tornando mais radicais. Há sinais de que as duas comunidades estão se distanciando. Acredito que Arafat queira a paz e não apóie a violência. Ele está interessado em cumprir a promessa de criar um Estado palestino. A continuação dessa situação de violência não convém aos palestinos.

Veja – A intifada, a revolta palestina, enfraqueceu o movimento pacifista em Israel?
Nusseibeh – Sim. O estado atual de violência aumentou o radicalismo e o extremismo em Israel. Ao mesmo tempo, reduziu o número de pessoas que apóiam a causa palestina e com ela simpatizam. Nessa última intifada não há uma mensagem clara que estava presente na anterior. Faltou deixar claro que nossa luta não visa à destruição de Israel, mas sim prevenir a destruição da sociedade palestina. Com isso, perdemos aliados israelenses importantes, pessoas que são nossos parceiros na missão de chegar à paz.

Veja – O senhor acredita que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, é capaz de selar a paz?
Nusseibeh – Não o conheço pessoalmente. Mas acredito que qualquer pessoa com a liderança e o apoio do povo israelense que ele tem pode pensar nos interesses de sua nação. Como todo ser humano racional, ele pode ver que não existem muitas opções. É a paz mediante a retirada dos territórios ocupados em 1967 ou guerra, conflito e violência. Se decidir pela paz, Sharon deixará de ser apenas um líder militar e passará a ser um líder político.

Veja – Como é o Estado palestino de seus sonhos?
Nusseibeh – Um Estado que cuide dos direitos do indivíduo. Tenho a visão de um sistema aberto, democrático e integrado ao mundo. Onde a liberdade seja o princípio básico.

Veja – A OLP não é um exemplo de organização democrática, é?
Nusseibeh – Há duas coisas que não podemos misturar. De um lado, o movimento de libertação nacional. De outro, a sociedade palestina. A herança cultural palestina dos últimos cinqüenta anos provou que é democrática. Temos o que talvez seja a sociedade civil mais forte do mundo árabe. É essa a sociedade do futuro Estado palestino.

Veja – Edward Said, o intelectual palestino mais conceituado dos Estados Unidos, diz que um dos maiores problemas de um futuro Estado palestino é a corrupção da Autoridade Palestina. O senhor concorda?
Nusseibeh – Obviamente, temos problemas. Seja corrupção, pouca eficiência ou o que for. Mas precisamos trabalhar para resolvê-los. O sistema de governo precisa ser construído. Não é dado de presente. A única maneira de construí-lo é participar do lado de dentro. É por isso que convido intelectuais como Said, pessoas de todas as linhas, a viajar para o Oriente Médio e tomar parte na criação da democracia. Precisamos construí-la com as próprias mãos.

Veja – Por que o acordo de paz assinado entre israelenses e palestinos em 1993, que foi saudado por todo o mundo, fracassou?
Nusseibeh – Por muitos motivos. No estágio inicial, não concordamos no princípio básico da retirada de Israel dos territórios ocupados em 1967. Ao mesmo tempo que estávamos negociando, assentamentos israelenses continuaram sendo feitos nesses territórios. Isso passou aos palestinos a impressão de que Israel não estava levando o processo a sério. Outro problema foi a falta de confiança mútua. Arafat e Ehud Barak, o então primeiro-ministro israelense, reuniram-se no ano 2000 em Camp David, a casa de campo da Presidência americana. Os organizadores do encontro não pensaram em uma rede de proteção para possíveis quedas. Algo para conter a saída da mesa de negociações. Muitos dos problemas foram de procedimento. Se houver vontade de ambos os lados, isso tudo pode ser corrigido. Não é um desastre natural contra o qual nada podemos fazer. Não é um vulcão em erupção do qual só resta fugir da lava.

Veja – O senhor é econômico nas críticas ao lado palestino.
Nusseibeh – Em Camp David, o fato de uma delegação não concordar com a outra não foi um erro. Isso é parte da negociação. O erro dos dois lados foi permitir que o impasse acabasse com o acordo. É verdade que a proposta de Barak de voltar às fronteiras de 1967 foi inédita. Do ponto de vista dos palestinos, apenas 70% ou 80% dos territórios seriam devolvidos. Mas não quero dar muito importância a esses pontos. Eram detalhes. O problema foi que ambos os lados permitiram, de forma intencional ou não, que a situação se deteriorasse. O processo de paz era uma criança. A morte dessa criança foi causada pelo descuido de ambos os pais. Obviamente, podemos apontar falhas no lado palestino, assim como no israelense. A questão-chave em nossas discussões é fazer com que Israel desocupe os territórios.

Veja – O senhor apóia o plano americano de atacar e depor o ditador do Iraque, Saddam Hussein?
Nusseibeh – Saddam tem feito mal aos iraquianos e é autoritário. Sou a favor da democratização do Iraque. Mas não estou certo de que uma invasão militar seja a melhor solução. Por uma questão de princípio, sou favorável a soluções negociadas.

Veja – O senhor é um otimista?
Nusseibeh – Existe diferença entre otimismo e esperança. Otimismo e pessimismo dependem da razão. Esperança depende das emoções. Se usasse apenas minha razão, provavelmente diria que sou pessimista. Mas não uso somente meu raciocínio. Também utilizo meu coração, e nele há esperança. Por isso, trabalho pela paz, que não é apenas um direito, mas também uma necessidade existencial.

 
 
   
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