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"A
paz é possível"
Representante da OLP em Jerusalém
diz que as alternativas para o
Oriente
Médio
são o caos ou a negociação
Eduardo
Salgado

Veja também |
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O
representante da Organização para a Libertação
da Palestina (OLP) em Jerusalém, Sari Nusseibeh, 53 anos, já
foi vítima de ambos os lados do conflito no Oriente Médio.
Nos anos 80, quando a OLP ainda sonhava destruir Israel, Nusseibeh defendia
o reconhecimento mútuo e iniciou pessoalmente um diálogo
com os israelenses. Por causa disso, foi espancado por palestinos mascarados
e teve um braço quebrado. Na década seguinte, foi a vez
dos israelenses, que o prenderam por três meses. Professor de filosofia
formado em Oxford e com doutorado em Harvard, Nusseibeh pertence a uma
das famílias mais importantes e antigas de Jerusalém. Nos
últimos 1.300 anos, os Nusseibeh ocuparam os mais variados cargos
na Cidade Santa, inclusive o de guardião muçulmano da Igreja
do Santo Sepulcro. Seu pai foi governador de Jerusalém e perdeu
uma perna em combate na guerra que se seguiu à fundação
do Estado de Israel, em 1948. De seu escritório em Jerusalém,
Nusseibeh, que é casado e tem quatro filhos, falou a VEJA.
Veja Por que as negociações entre palestinos
e israelenses nunca chegam a um acordo para pôr fim ao conflito?
Nusseibeh
Não acho que um acordo seja impossível. Fizemos progressos
nos últimos cinqüenta anos, especialmente na década
de 90. Foram passos lentos, mas graduais, na direção da
paz e da reconciliação. A violência desses últimos
dezoito meses é uma aberração, não a norma.
Nosso dilema no momento é o seguinte: ou deixamos que as divergências
nos levem de volta aos anos 40 e 50, ou as mantemos sob controle e voltamos
ao começo da década de 90. O racional é buscarmos
o entendimento.
Veja O príncipe Abdullah, da Arábia Saudita,
propôs que os países árabes reconheçam Israel
em troca do estabelecimento de um Estado palestino. Existe alguma chance
para esse plano?
Nusseibeh
A oferta feita pelos países árabes aos israelenses de relações
pacíficas é tão importante que Israel não
tem outra opção a não ser levar o plano a sério.
Caso contrário, voltamos à estaca zero nesta tragédia
em que vivemos. A violência continuará e poderá desembocar
numa situação em que os dois lados resolverão tomar
decisões extremadas. Se Israel achar que não há entendimento
possível com os palestinos e com os árabes, e decidir fazer
incursões militares em áreas populosas, o conflito ficará
ainda mais sangrento. Nem posso estimar a extensão da tragédia,
mas com certeza muita gente vai morrer e as repercussões serão
muito negativas para toda a região, talvez para o mundo.
Veja O que o mundo árabe precisa fazer para evitar
que a situação piore?
Nusseibeh
Todos os envolvidos no conflito devem levar a proposta do príncipe
Abdullah a sério e caminhar no sentido da negociação.
O mundo árabe precisa dizer à sociedade israelense que não
é anti-semita e não quer destruir o Estado de Israel. Precisa
deixar claro que quer viver em paz com os israelenses.
Veja Não seria preciso também que palestinos
parassem com os ataques terroristas contra civis israelenses, como exige
o governo de Israel?
Nusseibeh
O processo de paz é uma estrutura delicada, que depende do encaixe
cuidadoso de muitos elementos. Israel precisa tomar medidas claras para
minimizar as ações e as intervenções militares.
Os palestinos também precisam comprometer-se claramente com a redução
da violência. Do lado israelense, uma decisão do primeiro-ministro
Ariel Sharon tem efeito imediato, porque se trata de um Exército.
No caso palestino, a obediência à ordem de cessar-fogo leva
mais tempo para surtir efeito. De qualquer forma, a liderança palestina
precisa se empenhar para pôr fim à violência e se certificar
de que a ordem seja cumprida.
Veja O senhor acredita que Yasser Arafat tem condições
de impor um cessar-fogo a todas as facções armadas palestinas?
Nusseibeh
Sim. Se a liderança deixar claras sua posição e suas
intenções, será possível reduzir significativamente
a violência. Mas isso ocorreria apenas se houvesse um clima de esperança.
E isso só se consegue se existir um processo de paz em marcha.
Veja Como seria possível injetar esperança
se tantas pessoas estão sendo mortas todos os dias?
Nusseibeh
A proposta saudita pode ajudar. Ela é razoável e permitiria
criar o ambiente de esperança necessário para ambos os lados.
Uma reação positiva do governo israelense ao plano saudita
pode transformar essa região de uma hora para a outra. De um ciclo
sangrento de violência, no qual vivemos, em algo pacífico
e positivo. Mas, mesmo que o governo de Israel rejeite a proposta do príncipe
Abdullah, o impacto na sociedade israelense deve ser positivo. A mensagem
que precisa ficar é a seguinte: o conflito não pode ser
do tipo existencial. Não podemos colocar em dúvida a existência
de Israel e os planos de construir um Estado palestino. Se for visto dessa
forma, pessoas de ambos os lados cada vez mais irão adotar posições
extremadas. Devemos administrar o conflito examinando questões
específicas: a ocupação israelense de territórios
e a capacidade dos palestinos de formar um Estado. Assim, a opinião
pública israelense reagirá positivamente à proposta
de viver em paz. E não tomará medidas extremadas.
Veja O conflito entre israelenses e palestinos começou
há meio século e vive um de seus momentos mais sangrentos.
O que leva o senhor a pensar que a paz é possível?
Nusseibeh
Os últimos cinqüenta anos ensinaram a muita gente de ambos
os lados que restam apenas dois caminhos a seguir. Uma opção
é deixar a situação piorar até que ninguém
tenha o menor controle. A outra é buscar um modelo de coexistência
que propicie progresso e prosperidade. Ou seja, segurança para
ambos os povos. Lutamos muitas guerras, tentamos a estratégia do
não-reconhecimento, tentamos matar uns aos outros, tentamos recorrer
aos organismos internacionais e ao apoio de outras nações.
Tentamos tudo o que era possível. Chegou o momento de os dois lados
reconhecerem a realidade. Não faz o menor sentido ignorar a demanda
palestina pela liberdade e pela criação do Estado palestino.
Também não faz sentido ignorar as demandas israelenses por
segurança. Se firmarmos um acordo baseado nessas demandas, poderemos
transformar a região.
Veja Há facções extremistas palestinas
que não estão dispostas a aceitar nenhum acordo com Israel.
Arafat teria condições de impor um acordo de paz aos fundamentalistas
islâmicos e a outros grupos radicais?
Nusseibeh
A Autoridade Palestina já demonstrou que tem condição
de impedir que grupos extremistas ajam por conta própria, contra
a lei ou a estratégia palestina. Já fez isso no passado.
Portanto, pode ser feito no futuro. Não será problema. Claro
que não estamos falando de uma situação que nos levaria
a uma guerra civil, o que seria contraproducente para todos os envolvidos.
Existe consenso para que Arafat trabalhe com o objetivo de pôr fim
à ocupação e crie o Estado palestino.
Veja Quem ganha com a atual onda de violência?
Nusseibeh
Ninguém. Os dois lados estão sofrendo. Alguns israelenses
e alguns palestinos acham que a violência é uma saída.
Não é. A violência é um vírus que destrói
as duas partes. Nem os israelenses nem os palestinos vão conseguir
impor sua vontade dessa forma. A violência só traz morte.
Veja Há quem diga que a autoridade de Arafat aumentou
na mesma medida em que a situação se tornou mais violenta.
Isso é verdade?
Nusseibeh
Pessoas dos dois lados estão se tornando mais radicais. Há
sinais de que as duas comunidades estão se distanciando. Acredito
que Arafat queira a paz e não apóie a violência. Ele
está interessado em cumprir a promessa de criar um Estado palestino.
A continuação dessa situação de violência
não convém aos palestinos.
Veja A intifada, a revolta palestina, enfraqueceu o movimento
pacifista em Israel?
Nusseibeh
Sim.
O estado atual de violência aumentou o radicalismo e o extremismo
em Israel. Ao mesmo tempo, reduziu o número de pessoas que apóiam
a causa palestina e com ela simpatizam. Nessa última intifada não
há uma mensagem clara que estava presente na anterior. Faltou deixar
claro que nossa luta não visa à destruição
de Israel, mas sim prevenir a destruição da sociedade palestina.
Com isso, perdemos aliados israelenses importantes, pessoas que são
nossos parceiros na missão de chegar à paz.
Veja O senhor acredita que o primeiro-ministro israelense,
Ariel Sharon, é capaz de selar a paz?
Nusseibeh
Não o conheço pessoalmente. Mas acredito que qualquer pessoa
com a liderança e o apoio do povo israelense que ele tem pode pensar
nos interesses de sua nação. Como todo ser humano racional,
ele pode ver que não existem muitas opções. É
a paz mediante a retirada dos territórios ocupados em 1967 ou guerra,
conflito e violência. Se decidir pela paz, Sharon deixará
de ser apenas um líder militar e passará a ser um líder
político.
Veja Como é o Estado palestino de seus sonhos?
Nusseibeh
Um Estado que cuide dos direitos do indivíduo. Tenho a visão
de um sistema aberto, democrático e integrado ao mundo. Onde a
liberdade seja o princípio básico.
Veja A OLP não é um exemplo de organização
democrática, é?
Nusseibeh
Há duas coisas que não podemos misturar. De um lado, o movimento
de libertação nacional. De outro, a sociedade palestina.
A herança cultural palestina dos últimos cinqüenta
anos provou que é democrática. Temos o que talvez seja a
sociedade civil mais forte do mundo árabe. É essa a sociedade
do futuro Estado palestino.
Veja Edward Said, o intelectual palestino mais conceituado
dos Estados Unidos, diz que um dos maiores problemas de um futuro Estado
palestino é a corrupção da Autoridade Palestina.
O senhor concorda?
Nusseibeh
Obviamente,
temos problemas. Seja corrupção, pouca eficiência
ou o que for. Mas precisamos trabalhar para resolvê-los. O sistema
de governo precisa ser construído. Não é dado de
presente. A única maneira de construí-lo é participar
do lado de dentro. É por isso que convido intelectuais como Said,
pessoas de todas as linhas, a viajar para o Oriente Médio e tomar
parte na criação da democracia. Precisamos construí-la
com as próprias mãos.
Veja Por que o acordo de paz assinado entre israelenses e
palestinos em 1993, que foi saudado por todo o mundo, fracassou?
Nusseibeh
Por
muitos motivos. No estágio inicial, não concordamos no princípio
básico da retirada de Israel dos territórios ocupados em
1967. Ao mesmo tempo que estávamos negociando, assentamentos israelenses
continuaram sendo feitos nesses territórios. Isso passou aos palestinos
a impressão de que Israel não estava levando o processo
a sério. Outro problema foi a falta de confiança mútua.
Arafat e Ehud Barak, o então primeiro-ministro israelense, reuniram-se
no ano 2000 em Camp David, a casa de campo da Presidência americana.
Os organizadores do encontro não pensaram em uma rede de proteção
para possíveis quedas. Algo para conter a saída da mesa
de negociações. Muitos dos problemas foram de procedimento.
Se houver vontade de ambos os lados, isso tudo pode ser corrigido. Não
é um desastre natural contra o qual nada podemos fazer. Não
é um vulcão em erupção do qual só resta
fugir da lava.
Veja O senhor é econômico nas críticas
ao lado palestino.
Nusseibeh
Em Camp David, o fato de uma delegação não concordar
com a outra não foi um erro. Isso é parte da negociação.
O erro dos dois lados foi permitir que o impasse acabasse com o acordo.
É verdade que a proposta de Barak de voltar às fronteiras
de 1967 foi inédita. Do ponto de vista dos palestinos, apenas 70%
ou 80% dos territórios seriam devolvidos. Mas não quero
dar muito importância a esses pontos. Eram detalhes. O problema
foi que ambos os lados permitiram, de forma intencional ou não,
que a situação se deteriorasse. O processo de paz era uma
criança. A morte dessa criança foi causada pelo descuido
de ambos os pais. Obviamente, podemos apontar falhas no lado palestino,
assim como no israelense. A questão-chave em nossas discussões
é fazer com que Israel desocupe os territórios.
Veja O senhor apóia o plano americano de atacar e
depor o ditador do Iraque, Saddam Hussein?
Nusseibeh
Saddam tem feito mal aos iraquianos e é autoritário. Sou
a favor da democratização do Iraque. Mas não estou
certo de que uma invasão militar seja a melhor solução.
Por uma questão de princípio, sou favorável a soluções
negociadas.
Veja O senhor é um otimista?
Nusseibeh
Existe diferença entre otimismo e esperança. Otimismo e
pessimismo dependem da razão. Esperança depende das emoções.
Se usasse apenas minha razão, provavelmente diria que sou pessimista.
Mas não uso somente meu raciocínio. Também utilizo
meu coração, e nele há esperança. Por isso,
trabalho pela paz, que não é apenas um direito, mas também
uma necessidade existencial.
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