Brasil
" MEU CARO PRESIDENTE..."
Tancredo Neves, o homem que devolveu a democracia
ao Brasil,
completaria
100 anos nesta semana. Cartas inéditas, trocadas
entre
ele e o ex-presidente Juscelino Kubitschek durante o regime militar,
oferecem
uma lição de espírito público cada vez mais rara
nos tempos atuais

Diego Escosteguy
Montagem sobre fotos de Manoel Novaes/Iconografia
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CARINHO EPISTOLAR
O afeto entre JK (à esq.) e Tancredo cresceu conforme cresciam as adversidades
políticas enfrentadas por ambos no decorrer da ditadura: mesmo de longe,
viraram amigos |
Na noite de 13 de junho de 1964, pouco mais de dois meses após
o golpe militar que estabeleceu uma ditadura no Brasil, o ex-presidente Juscelino
Kubitschek embarcava solitariamente no Rio de Janeiro rumo ao exílio
voluntário na Europa. JK, o festejado presidente bossa-nova, tivera o
mandato e os direitos políticos cassados pelos militares. Despedia-se
do país sob o rugido aziago das turbinas do avião da Ibéria
que o levaria a Madri. No jato, partiam Juscelino e os anos dourados. Em terra,
ficavam os militares e os anos de chumbo. Quando Juscelino subiu as escadas
do avião, um braço o alcançou. Era Tancredo de Almeida
Neves, que completaria 100 anos nesta semana, em 4 de março. Aos 54 anos,
Tancredo era deputado, crítico do regime, mas ainda não tinha
o tamanho de Juscelino. Deixaram-no ficar. Juscelino, porém, projetava
uma sombra democrática por demais incômoda aos militares. "Meu
caro Tancredo", escreveu Juscelino de Paris, dois meses depois do embarque,
numa das primeiras cartas de uma correspondência que se avolumaria no
decorrer daqueles tempos lúgubres, "lembro-me bem de que a sua foi
a última mão que apertei antes de me dirigir ao avião.
Naquele instante de brutalidade, a sua presença me confortou."
Foi em meio à brutalidade do regime militar que a amizade
entre ambos amadureceu, transcendendo as conveniências da política
- e amadureceu por meio das epístolas que ambos trocavam. VEJA teve
acesso a um conjunto de dez cartas inéditas, escritas por eles durante
o regime militar. Começam em julho de 1964, quando Tancredo descreve
os movimentos do regime para destruir a reputação de JK, e terminam
em julho de 1975, quando o ex-presidente agradece por mais uma leva de discursos
remetidos pelo amigo. A correspondência percorre um arco de onze anos,
nos quais Tancredo esteve no Congresso, enfrentando a ditadura por dentro. Ele
tentava dissolver na legalidade um regime que operava fora dela. Por fora também
agia JK, que, amaldiçoado pelos militares, amargava um limbo público,
exilado ora no exterior, ora no Brasil. No plano político, as missivas
expõem a convergência de afinidades entre dois grandes estadistas.
Desde a despedida no aeroporto do Rio, Tancredo trabalhou para retomar a democracia
no país. Foi deputado, senador e governador. Eleito presidente por um
colégio eleitoral em 1985, adoeceu um dia antes de tomar posse, morrendo
pouco mais de um mês depois - mas sua obra já estava terminada:
o poder foi entregue aos civis.
Arquivo Editora Block
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CONGRESSO NO PAU DE ARARA
Logo depois do golpe, em abril de 1964, os militares enquadram o Parlamento:
nos anos de chumbo, Tancredo se transformou no mais astuto articulador político
em favor da democracia |
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No dia 24 de julho de 1964, quase quatro meses após o golpe
militar, Tancredo enviou uma emocionada carta a JK. Escreveu o então
deputado: "Sinto que se aproxima do fim o eclipse que nos envergonha diante
das nações civilizadas e que já está à vista
o dia em que iremos restaurar o clima de dignidade democrática por que
anseiam todos os brasileiros, com a revisão das brutais iniquidades que
maculam nossa história política". Tancredo sabia que o regime
não agonizava. Queria confortar o amigo. A morte da ditadura só
viria vinte anos depois, com a eleição dele à Presidência. |
Nas cartas trocadas entre os dois, há ideias, há
projetos políticos, há a genuína preocupação
com os atalhos autoritários tomados pelos militares. Há, sobretudo,
a obsessão em restaurar a democracia no país. São linhas
escritas com sinceridade por homens que compreendiam as exigências daquela
tormentosa circunstância histórica - e, mais do que isso, sabiam
quais sacrifícios eram necessários para superá-la. JK e
Tancredo usam expressões como "dignidade democrática",
"objetivo maior" e "bravura moral". Não há
nenhuma menção a cargos, emendas, empregos para a família...
Nada do que tanto faz salivar a maioria dos políticos do nosso tempo
está naquelas linhas, numa mostra constrangedora do declínio ético
e intelectual da classe política brasileira. Num ambiente infestado nos
últimos anos pelo cinismo dos mensaleiros e pela mendacidade dos deputados
propineiros de Brasília, as epístolas servem de guia para outra
categoria de políticos - aqueles poucos que reúnem coragem suficiente
para caminhar na direção contrária do que exige a cultura
partidária do país.
Alberto Ferreira
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DE PRESIDENTE A PÁRIA
JK
desembarca no Brasil ao lado da esposa, dona Sarah, após três anos
no exílio: cartas revelam angústia com a radicalização
do regime |
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As catas estavam dispersas pelos arquivos tanto de JK quanto
de Tancredo. Algumas foram encontradas por Andrea Neves, a neta mais velha de
Tancredo, junto aos pertences pessoais do avô. Outras estavam nos papéis
de Juscelino, cuidadosamente preservadas por Maria Estela Kubitschek, filha
do ex-presidente, que guardava a correspondência para si até hoje.
Ela explica por quê: "Demorei seis anos para conseguir abri-las.
São como um pedaço do meu pai, do qual não quero me desfazer".
Andrea Neves, que era afeiçoada ao avô, compilou o material. Diz
ela: "Meu avô teve uma importância capital na minha vida. É
preciso preservar o legado dele". O governador de Minas Gerais, Aécio
Neves, neto de Tancredo e seu herdeiro político, conta que aprendeu a
fazer política com o avô, durante a transição para
a democracia: "Ele ensinava que não se pode transigir jamais com
os objetivos, apenas com a estratégia". "Se hoje temos uma
experiência democrática, devemos isso historicamente a Juscelino
e a Tancredo", afirma o filósofo Newton Bignotto, da Universidade
Federal de Minas Gerais.
A correspondência começa com as palavras de um Tancredo
ainda perplexo pelos rumos do país. Escreveu ele: "Na sucessão
dos dias, (a nação) mais consciência vai tomando
de que, com a ignóbil cassação do seu mandato e a suspensão
dos seus direitos políticos, cassados e suspensos ficaram os direitos
do povo". O discreto e parcimonioso Tancredo registra também, numa
abundância de adjetivos incomum para a sua personalidade: "Em meio
a um panorama desolador e aviltante, estamos colecionando muitas decepções
dos que desertam, se acovardam ou se acomodam". Como que para consolar
JK, o deputado afirma que, apesar dos ataques do regime contra o amigo, crescia
a gratidão do povo, "cada vez mais viva e profunda".
Carlos Namba
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MAGO DA CONCILIAÇÃO
Tancredo, o político que consagrou a vida e a morte à democracia,
é eleito presidente em 1985: deveres políticos não impediram
lealdade a Juscelino (ao lado) |
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Generosas palavras, partindo de quem partiam, parecem ter conquistado
em definitivo um JK já sensibilizado pelo gesto de Tancredo no Aeroporto
do Galeão. A partir daí, as cartas crescem em cumplicidade e afeto.
De "meu caro", Juscelino passa a qualificar Tancredo de "querido",
que por sua vez se despede do ex-presidente com o carinhoso "sempre seu".
Nos anos subsequentes, enquanto se exilava no exterior, JK sempre encontrava
tempo para escrever a Tancredo. Numa correspondência, redigida em Nova
York no dia 2 de maio de 1966, JK mostra-se melancólico, "tentando
escrever alguma coisa num triste domingo". Até que, relata, deparou
com uma entrevista do amigo: "A tarde estava chuvosa, e eu senti que um
raio de sol a atravessava, ao ler a página que poucos homens teriam a
coragem de escrever, nessa hora que pesa como uma campânula de chumbo
sobre o nosso pobre país".
Os dois entendiam de sacrifícios pessoais. Numa carta de
dezembro de 1966, JK explica a Tancredo por que iria aliar-se a Carlos Lacerda,
seu "mais terrível adversário". Escreveu o ex-presidente:
"Era o único serviço que eu podia prestar ao meu país,
mostrando a todos os brasileiros que é possível superar divergências
profundas quando se tem em vista um bem maior". A aliança deu errado,
mas o sacrifício mostrou até que ponto ambos estavam dispostos
a ir para expulsar os militares do poder. Quando essa possibilidade parecia
mais remota, no Natal de 1971, JK antevia que, se houvesse democracia novamente
no país, ela passaria por Tancredo: "Nada que venha de você
pode me surpreender. A trajetória que o caro amigo está deixando
na vida brasileira, tão pobre de homens com a grandeza do seu caráter,
é marcada por um rastro de bravura moral".
Antes do golpe, Tancredo e Juscelino mantinham uma relação
de cordialidade política, embora cultivassem várias divergências.
Apesar de ser um homem de diálogo e conciliação, Tancredo
era contra qualquer acordo com os militares golpistas. Juscelino, cujo governo
sobrevivera graças ao apoio de setores das Forças Armadas, acreditava
ser possível um governo de coalizão quando surgiram os primeiros
sinais de ruptura institucional. A cassação de Juscelino e tudo
que veio a acontecer depois mostraram que Tancredo estava certo. Lidas agora,
palavras tão fortes podem aproximar-se do melodramático, do cabotino.
A emoção que transborda das cartas, contudo, resulta dos esforços
que lhes eram exigidos: para JK, deixar o país, a família, sua
obra; para Tancredo, estar sob a mira constante de um regime que pouco hesitava
em torturar. JK morreu em 1976, ainda perseguido e humilhado, e não teve
a chance de assistir ao fim da ditadura. Tancredo sacrificou seus últimos
dias de vida para assegurar que morresse junto com a ditadura, recusando-se
a receber atendimento médico quando já estava muito doente por
temer que os militares não entregassem o poder a seu vice, José
Sarney. Não deu apenas sua vida à democracia: deu sua morte também.
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