Entrevista: Aldemir Bendine
O lucro não é vergonha
Para
o presidente do Banco do Brasil, as instituições financeiras públicas
devem contribuir mais para o crescimento do país sem abrir mão da
rentabilidade

Giuliano Guandalini
Roberto Setton
 |
"Não me agrada o maniqueísmo
entre público e privado. O modelo
misto pode atender a uma economia melhor
do que os dois extremos" |
Os bancos públicos, aqueles controlados
pelo governo, ainda têm um papel a cumprir no desenvolvimento do país,
mas desde que trabalhem em busca contínua da eficiência e da rentabilidade.
É sob essa perspectiva que Aldemir Bendine comanda, há dez meses,
a maior instituição financeira do país, o Banco do Brasil.
"Não precisamos ter vergonha de obter lucros", afirma Bendine.
"Os lucros demonstram a eficiência na administração dos
negócios." Nascido em 1963 em Paraguaçu Paulista, no interior
de São Paulo, começou a trabalhar no banco como office boy aos 14
anos, quando ser funcionário do BB era sinal de status, principalmente
nas cidades pequenas. Em 1982, foi admitido por concurso público. Formado
em administração de empresas, casado e pai de duas filhas, Bendine
ou "Dida", como os amigos o chamam chegou à presidência
do banco, o topo da carreira na instituição, em abril do ano passado.
Foi indicado pelo ministro da Fazenda, com a responsabilidade de reduzir as taxas
de juros. Tal incumbência não impediu o BB de registrar, em 2009,
o melhor resultado de sua história: lucro de 10,1 bilhões de reais,
de acordo com números divulgados na semana passada. Bendine falou a VEJA.
O Banco do Brasil alcançou
em 2009 o melhor resultado de sua história, com um lucro superior a 10
bilhões de reais e crescimento de 15% em relação a 2008.
Como foi possível isso em um ano em que a economia brasileira ficou estagnada?
No
início do ano passado, quando ainda imperava uma crise de confiança,
havia um travamento das linhas de crédito no país. Isso aconteceu
por causa do receio de que houvesse um contágio mais profundo da turbulência
externa, como em outras crises do passado. Nesse ambiente de incertezas, a reação
dos bancos foi restringir a concessão de empréstimos e elevar as
taxas de juros. Nossa estratégia, ao contrário, foi apostar na recuperação
rápida da economia brasileira. Foi uma receita relativamente simples, mas
que se revelou acertada e vencedora. Fizemos isso num momento em que o mercado
estava bastante conservador. Mas, de acordo com informações de que
dispúnhamos, esse conservadorismo era exagerado. A situação
da economia real não justificava essa atitude.
Mas
havia uma determinação política do governo de reduzir os
juros, motivo inclusive que o levou à presidência do banco. O BB
foi até mesmo criticado por cobrar juros, em algumas linhas, maiores que
os de bancos privados.
De fato, o governo julgava que não havia razão
para aquela reação exagerada, justificada apenas por uma crise de
confiança. Houve, de minha parte e dos diretores que comigo assumiram em
abril passado, uma confluência de visão com essa avaliação
do governo. Acreditávamos que poderíamos reduzir os juros e tivemos
o apoio para fazê-lo. Um dos pontos a ser realçados é que
fomos beneficiados pelo fato de, em meio a uma crise, o Banco do Brasil ser visto
como um porto seguro para os depósitos. Atraímos assim clientes
de qualidade. Hoje, a taxa de inadimplência de nossos clientes é
inferior à média do mercado bancário nacional.
Observada pelo retrovisor, essa "receita simples", como o senhor a classifica,
comprovou-se eficaz. Mas não houve o risco de comprometer o patrimônio
do banco?
Não foi uma aposta irresponsável, desprovida de fundamentos.
Apenas fomos mais corajosos. Tínhamos suporte técnico para tomar
aquela decisão. Os juros bancários haviam subido bem acima do razoável,
e decidimos reduzi-los antes de nossos concorrentes. Houve um momento em que o
mercado como um todo, inclusive o Banco do Brasil, fez uma leitura equivocada
do que estava ocorrendo. Nós saímos na frente na correção
dos excessos. Na sequência, os demais bancos fizeram o mesmo. Não
existiam razões concretas para aquele travamento nas linhas de crédito.
Se essa restrição perdurasse, aí sim haveria um contágio
mais profundo da economia brasileira algo que felizmente não ocorreu.
A rentabilidade dos bancos brasileiros não é exagerada, particularmente
no caso do BB, um banco público?
É preciso desmitificar
algumas questões. A rentabilidade dos bancos brasileiros, ao contrário
do que se diz, não extrapola o que ocorre em outros países. Em segundo
lugar, não é verdade que o setor financeiro seja o mais lucrativo
do país. Há outras atividades mais rentáveis. O terceiro
ponto é que não existem razões para sentirmos vergonha de
ter lucro. Pelo contrário. Os lucros demonstram a eficiência na administração
do negócio. Não é preciso ter timidez em evidenciar os resultados
positivos dos bancos brasileiros. Trata-se de uma consequência da eficiência
alcançada por essas instituições, que estão entre
as mais competitivas do mundo.
Corrigidos os excessos do momento
de quebra de confiança, nos meses mais acerbos da crise, os juros bancários
recuaram. Ainda assim, as taxas são elevadíssimas, entre as mais
altas do mundo. Por quê?
Na composição das taxas de juros,
que nada mais são do que o valor a ser cobrado dos clientes para cada tipo
de empréstimo, existem dois fatores que estão sob a influência
direta do banco. Em primeiro lugar, a inadimplência, ou, visto de outra
maneira, o risco de que haja perda do capital emprestado. O segundo componente
é a própria eficiência operacional do banco. Agora, existem
outros elementos que oneram os juros bancários, mas estão fora do
controle das instituições financeiras: a elevada carga de tributos
que recai sobre os financiamentos e também os depósitos compulsórios
recolhidos pelos bancos. Sem mexer nessas duas questões, não haverá
como reduzir significativamente os juros bancários neste momento.
O histórico de má administração e utilização
política de bancos públicos já levou o governo a capitalizar
essas instituições com dinheiro do Tesouro, bancado pelos contribuintes.
Estamos livres desse risco?
É preciso ficar bem claro que essa nova
emissão de ações não tem nada a ver com a situação
em que o banco se encontrava em 1995, por exemplo. Naquele momento houve a necessidade
de uma aplicação de dinheiro público, inclusive elevando
a participação do governo no bloco acionário, por causa de
uma deficiência na contabilidade do banco. O que estamos fazendo agora,
com essa nova emissão, não é para tapar buracos do passado.
Pelo contrário, a intenção é ter capital para investir
e crescer. A participação privada, agora, crescerá. Com relação
à ingerência política, tenho certeza de que o banco está
hoje muito mais protegido contra qualquer interferência maléfica.
No passado, com a doença da inflação e a instabilidade financeira,
não havia crédito suficiente para financiar o consumo e as empresas
no país. A presença dos bancos estatais era justificada para suprir
essa deficiência. Com a conquista da estabilidade, os bancos privados voltaram
a financiar o setor produtivo. Qual a utilidade atual dos bancos públicos?
Não
me agrada uma discussão maniqueísta entre público e privado.
O modelo misto pode atender a uma economia muito melhor do que os dois extremos.
O BB representa muito bem esse modelo. Não é um banco 100% público.
Possui ações negociadas em bolsa. Por isso temos a obrigação
de apresentar resultados positivos não somente para o governo, que é
nosso acionista majoritário, mas também para os nossos acionistas
minoritários. Não tenho dúvida de que esses investidores
estão felizes com a atual administração do banco. Mas não
podemos nos guiar somente pela lógica de mercado. Se fosse para fazer apenas
o que as instituições privadas já fazem, seria melhor privatizar
o BB. Penso que ainda temos uma função de indutores do desenvolvimento
do país. Executamos determinados papéis que às vezes não
são atrativos para os bancos privados, desde que mantidas as premissas
de rentabilidade que guiam a ação do banco. Somos responsáveis
por 65% do crédito agrícola, por exemplo, e temos uma rentabilidade
fantástica com essa carteira de clientes.
O crédito
tem crescido rapidamente no Brasil, acima de 10% ao ano. O financiamento chegou
a pessoas que, até pouco tempo atrás, não dispunham nem mesmo
de conta bancária. Podemos sofrer uma crise similar à ocorrida nos
Estados Unidos?
A curto prazo, de maneira nenhuma. Não existe
a menor possibilidade de termos uma bolha semelhante à americana. Os brasileiros,
em sua maioria, ainda estão comprando o seu primeiro carro, a sua primeira
casa. Há muito espaço para que o crédito continue crescendo
no país. Ao contrário do que ocorreu no mercado americano, no qual
as pessoas estavam comprando a sua terceira casa, o seu quinto automóvel.
Além disso, o sistema financeiro do Brasil é bem mais conservador,
não se norteia por apostas que não sejam lastreadas na economia
real. Temos também uma regulação financeira mais rígida,
que se mostrou exemplar e coíbe apostas meramente especulativas.
Quais
deverão ser os campos mais promissores nos próximos anos do ponto
de vista da ampliação do crédito no país?
Podemos
esperar duas grandes expansões nos próximos anos. A primeira delas
é a de investimentos em infraestrutura. Os financiamentos nessa área
deverão avançar rapidamente, estimulados pelas obras necessárias
à realização da Copa do Mundo e da Olimpíada
do Rio. Haverá também a necessidade de levantar capital para a exploração
do petróleo na camada do pré-sal. O segundo evento extraordinário
que presenciaremos ocorrerá no setor imobiliário. Com o amadurecimento
da economia, os financiamentos residenciais ganharão força. Além
disso, estima-se que o país tenha um déficit de 8 milhões
de moradias. A massa salarial dos trabalhadores vem crescendo, então as
pessoas se sentem mais confiantes para financiar a casa própria.
No
capitalismo pós-crise, o sistema financeiro mundial parece caminhar para
uma concentração. Como isso afeta o Brasil?
O sistema bancário
passa, de fato, por um processo de concentração. Ao contrário
do que se possa pensar, isso é salutar. Como em outras atividades, ter
escala é fundamental. Sem isso, não há como reduzir custos,
oferecer preços mais atraentes e ser mais eficiente. Essa concentração
tem sido observada no Brasil. Existem hoje no país dois grandes bancos
públicos (BB e Caixa Econômica Federal), dois grandes privados
de capital nacional (Itaú Unibanco e Bradesco) e dois grandes privados
de capital estrangeiro (Santander e HSBC). Considero esse um bom modelo,
com concorrência bastante acirrada. Nesse cenário, é
natural que os bancos brasileiros ampliem sua participação no mercado
internacional. No BB, temos uma meta de ampliar expressivamente nossas atividades
lá fora. O primeiro passo será atender os milhares de brasileiros
que vivem no exterior. Outro ponto importante é a internacionalização
das empresas brasileiras. Existem hoje 200 grupos nacionais com presença
significativa no comércio externo que necessitam de um suporte dos bancos
brasileiros.
É possível imaginar a fusão
do Banco do Brasil com algum outro banco privado nacional, para assim criar uma
potência financeira global?
Não imagino, ao menos a curto prazo,
uma fusão pura e simples.
Fala-se de uma possível
união com o Bradesco...
Em determinados negócios, por que não?
Já somos sócios em alguns empreendimentos. Temos uma cultura de
administração muito parecida. Eu, particularmente, guardo uma grande
admiração pelo seu Lázaro Brandão (presidente do
conselho do Bradesco). Procuro me espelhar na fórmula de administração
dele, baseada na simplicidade, na serenidade, no pragmatismo e em muito trabalho.
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