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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Faça um colchão
de segurança
"Você
tem a obrigação de proteger
sua
família da
volatilidade da vida. Embora
tentem, os
governos nunca conseguirão
defendê-lo
a contento"
A
oposição à globalização não
tem nada a ver com o comércio, mas com as movimentações
financeiras entre países. Até manifestantes antiglobalização
usam celulares da Nokia e imprimem seus protestos em impressoras
Hewlett Packard. Ou seja, até eles aprovam o intercâmbio
comercial entre os povos.
O que mudou é que, hoje, americanos e europeus podem investir
os reais que recebem de suas exportações em dívidas
do governo brasileiro ou na bolsa. Isso aumenta a demanda por títulos
do governo e reduz os juros, que seriam ainda mais altos se não
existisse esse influxo internacional.
O lado ruim é que qualquer deslize do governo ou frase infeliz
de alguém importante gera pânico e rápida movimentação
financeira internacional desses neo-investidores. É como
se o leitor colocasse a mão numa toca à procura de
ouro num país desconhecido. A qualquer raspão na pele,
a mão sai a 100 quilômetros por hora, nunca devagarinho.
Portanto, o problema é o curto prazo, ter de agüentar
a insegurança desses neo-investidores, que vivem com o dedo
no gatilho. Com o tempo, espera-se que eles aprendam nossas idiossincrasias
e que as fugas de capitais sejam bem mais brandas no futuro.
Nos últimos oito anos, adotamos soluções como
"acalmar" ou "compensar" o medo desses investidores com juros elevados.
Outras soluções sugeridas por aí passam por
instituir a centralização do câmbio, criar uma
CPMF internacional ou intervir na economia quando for preciso.
Ilustração Ale Setti
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São soluções que não me convencem, porque
sempre existirão pessoas que se assustam com o novo e que
no início reagirão de maneira exagerada ao menor sinal
de perigo. Volatilidade faz parte da vida e sempre fará.
O correto é conviver com ela, e não tentar impedi-la.
O simples medo de uma possível "solução" econômica
já assustou muita gente no Brasil de 1964 para cá.
Governos anteriores acreditavam que saberiam intervir inteligentemente
no câmbio ou nos juros, a cada nova crise, o que nunca aconteceu.
Melhor seria adotar a visão dos médicos e dos administradores
financeiros, que é criar mecanismos de defesa muito antes
de as crises acontecerem, o que nunca fizemos.
Nunca criamos reservas internacionais suficientes para enfrentar
crises. Hoje temos somente 18 bilhões de dólares,
dez dias de nosso PIB. Reservas financeiras substanciais compram
tranqüilidade e tempo, já que nenhuma crise dura para
sempre.
O segredo dessa postura administrativa é estimular cada empresa,
cada família e o próprio governo a ter reservas financeiras
suficientes para enfrentar as crises do futuro. Se uma crise pode
durar um ano, não é muito difícil calcular
as reservas necessárias para anular seus efeitos.
TODAS as crises foram nefastas para o Brasil porque nossas reservas
sempre terminaram antes. Criar reservas nunca foi nossa prioridade;
nossas prioridades são sempre econômicas, como essas
"metas" de inflação. Tanto é que nossas reservas
são novamente ínfimas: 18 bilhões de dólares.
A China vive uma fase de prosperidade porque possui nada menos que
420 bilhões de dólares, o suficiente para enfrentar
a pior crise que se possa imaginar.
Se você quer ter um celular, uma impressora e não quer
viver assustado com capitais voláteis, proteja sua família
criando uma boa reserva financeira.
Ninguém sabe como será o amanhã, exceto que
teremos muitas crises pela frente. Se você tiver zero de reservas
familiares, a crise o afetará 100%. Quanto mais reservas
você tiver, menos ela o afetará. Quem enfrenta uma
crise sem ter reservas acaba contraindo mais dívidas, como
sempre acontece com o Brasil.
A não ser que ganhe um salário mínimo, você
não tem desculpas para não ter uma reserva financeira
constituída. Você tem a obrigação de
proteger sua família da volatilidade da vida. Embora tentem,
os governos nunca conseguirão defendê-lo a contento.
Vou bater na mesma tecla: crie um colchão de segurança
que garanta entre seis e doze meses de sustento para você
e sua família, e deixe que as crises passem ao largo. Justamente
porque as reservas do Brasil andam baixas, você deveria se
preocupar, e muito, em aumentar as suas.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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