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Livros
Leitura obrigatória
Pais
e Filhos,
de Ivan Turguêniev,
um dos maiores romances políticos
de todos os tempos

Moacyr
Scliar
Clássicos,
define o escritor italiano Italo Calvino, são livros que
chegam a nós trazendo as marcas que deixaram na cultura.
E cita como exemplo o romance Pais e Filhos, do russo
Ivan Turguêniev (1818-1883). Pais e Filhos marcou a
cultura por ser um dos mais perfeitos exemplos de romance político
jamais escritos. Ele também se destacou por ter dado ampla
circulação ao termo niilismo (embora não o
tenha inventado), que se aplica a uma das figuras centrais do livro,
o estudante Bazárov. O niilista, explica Turguêniev
por intermédio de um de seus personagens, "é uma pessoa
que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não
admite nenhum princípio sem provas". Agora, o público
brasileiro terá a oportunidade de conferir essa obra-prima
em versão direta do russo, que chega às livrarias
no próximo dia 9 (tradução de Rubens Figueiredo;
Cosac & Naify; 356 páginas; 42 reais).
Descrever
Pais e Filhos como um romance político não
é o mesmo que qualificá-lo como um livro de teses
abstratas. Tudo nele está profundamente calcado na realidade
russa que Turguêniev conheceu. Essa foi, aliás, uma
das grandes audácias do escritor: analisar um quadro político
e social no momento mesmo em que ele começava a tomar forma,
e não com um confortável distanciamento histórico.
A Rússia do tempo de Turguêniev vivia no atraso, presa
a uma economia agrária e feudal. Um grande clamor por reformas
se fazia ouvir, sobretudo nas camadas mais esclarecidas, às
quais Turguêniev pertencia (descendente de uma família
rica, o escritor recebeu educação esmerada, cursou
a universidade e passou boa parte de sua vida em Paris). As opiniões
se dividiam entre os favoráveis à ocidentalização
e os eslavófilos, que exigiam a manutenção
das antigas tradições.
Pais
e Filhos tem como pano de fundo esse conflito. Arkádi
Kirsánov, um estudante, retorna à casa do pai, Nikolai
Petróvitch, em companhia de seu amigo Bazárov, estudante
de medicina de origem plebéia que associa a crença
no progresso científico a um profundo pessimismo em relação
à cultura e à sociedade. Turguêniev falava de
uma situação concreta: eram comuns à época,
sobretudo na universidade, jovens para os quais um bom sapateiro
seria mais útil que um Goethe pois a humanidade precisa
mais de sapatos do que de poesia. Na visão desse grupo, a
religião seria substituída pela ciência, o casamento
pelo amor livre, a propriedade privada pelo coletivismo, a administração
central por comunas independentes. No campo, os revolucionários
tratavam de mobilizar os servos (que o governo havia, aliás,
emancipado) contra os proprietários, que deveriam ser eliminados
para que os pobres pudessem, afinal, ter terras. Essa campanha não
teve muito sucesso nem podia ser levada à imprensa, fortemente
censurada. O niilismo à moda russa acabaria evoluindo para
um movimento revolucionário de cunho anarquista e mesmo terrorista.
No
romance, Bazárov não chega a tais extremos. Seus conflitos
são sobretudo de natureza emocional. Ele não tarda
a entrar em choque com o gentil e romântico Nikolai e, de
maneira mais acentuada, com seu irmão, o aristocrático
Pável. Arkádi e ele prosseguem viagem, e hospedam-se
na casa da bela e sedutora viúva Odíntsova, por quem
ele desenvolverá uma paixão não correspondida.
Seguem para a casa dos pais de Bazárov, e depois de volta
à casa de Arkádi, onde o atrito entre Bazárov
e Pável termina num duelo bizarro uma das grandes
cenas do livro. Bazárov mais uma vez retorna à casa
dos pais. Ali, ao fazer uma necropsia, fere-se e contrai uma infecção
mortal: ironicamente, a paixão pela ciência custa-lhe
a vida. Mas o livro tem final feliz. As flores que crescem sobre
o túmulo de Bazárov, garante-nos Turguêniev,
falam de "reconciliação eterna".
Em
contraste com seus também geniais contemporâneos, Tolstoi
e Dostoievski, cujas obras são cheias de som e fúria,
Turguêniev foi antes de tudo um escritor amável. Sua
obra revela um profundo conhecimento da natureza humana, examinada
em estilo elegante. A narrativa se desdobra em sucessivos diálogos,
por meio dos quais os personagens ganham voz e também, aos
poucos, uma existência concreta. Esses personagens se erguem
diante do leitor e suscitam, de forma vívida, questões
que em boa parte continuam atuais. Não há dúvida:
estamos mesmo diante de um clássico.
| NIILISMO
É... |
|
"
O que Bazárov é? sorriu Arkádi.
Tio, o senhor quer que eu lhe diga?
Faça-me esse favor, meu sobrinho.
É um niilista.
Como? perguntou Nikolai Petróvitch.
Ele é um niilista repetiu Arkádi.
Niilista disse Nikolai Petróvitch.
Vem do latim nihil, nada, até onde posso
julgar; portanto essa palavra designa uma pessoa que...
que não admite nada?
Digamos: que não respeita nada
emendou Pável Petróvitch.
Aquele que considera tudo de um ponto de vista
crítico observou Arkádi.
E não é a mesma coisa? indagou
Pável Petróvitch.
Não, não é. O niilista é
uma pessoa que não admite nenhum princípio
sem provas."
Trecho
de Pais e Filhos
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