Edição 1843 . 3 de março de 2004

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Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev,
um dos maiores romances políticos
de todos os tempos


Moacyr Scliar

Trechos do livro

Clássicos, define o escritor italiano Italo Calvino, são livros que chegam a nós trazendo as marcas que deixaram na cultura. E cita como exemplo o romance Pais e Filhos, do russo Ivan Turguêniev (1818-1883). Pais e Filhos marcou a cultura por ser um dos mais perfeitos exemplos de romance político jamais escritos. Ele também se destacou por ter dado ampla circulação ao termo niilismo (embora não o tenha inventado), que se aplica a uma das figuras centrais do livro, o estudante Bazárov. O niilista, explica Turguêniev por intermédio de um de seus personagens, "é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio sem provas". Agora, o público brasileiro terá a oportunidade de conferir essa obra-prima em versão direta do russo, que chega às livrarias no próximo dia 9 (tradução de Rubens Figueiredo; Cosac & Naify; 356 páginas; 42 reais).

Descrever Pais e Filhos como um romance político não é o mesmo que qualificá-lo como um livro de teses abstratas. Tudo nele está profundamente calcado na realidade russa que Turguêniev conheceu. Essa foi, aliás, uma das grandes audácias do escritor: analisar um quadro político e social no momento mesmo em que ele começava a tomar forma, e não com um confortável distanciamento histórico. A Rússia do tempo de Turguêniev vivia no atraso, presa a uma economia agrária e feudal. Um grande clamor por reformas se fazia ouvir, sobretudo nas camadas mais esclarecidas, às quais Turguêniev pertencia (descendente de uma família rica, o escritor recebeu educação esmerada, cursou a universidade e passou boa parte de sua vida em Paris). As opiniões se dividiam entre os favoráveis à ocidentalização e os eslavófilos, que exigiam a manutenção das antigas tradições.

Pais e Filhos tem como pano de fundo esse conflito. Arkádi Kirsánov, um estudante, retorna à casa do pai, Nikolai Petróvitch, em companhia de seu amigo Bazárov, estudante de medicina de origem plebéia que associa a crença no progresso científico a um profundo pessimismo em relação à cultura e à sociedade. Turguêniev falava de uma situação concreta: eram comuns à época, sobretudo na universidade, jovens para os quais um bom sapateiro seria mais útil que um Goethe – pois a humanidade precisa mais de sapatos do que de poesia. Na visão desse grupo, a religião seria substituída pela ciência, o casamento pelo amor livre, a propriedade privada pelo coletivismo, a administração central por comunas independentes. No campo, os revolucionários tratavam de mobilizar os servos (que o governo havia, aliás, emancipado) contra os proprietários, que deveriam ser eliminados para que os pobres pudessem, afinal, ter terras. Essa campanha não teve muito sucesso nem podia ser levada à imprensa, fortemente censurada. O niilismo à moda russa acabaria evoluindo para um movimento revolucionário de cunho anarquista e mesmo terrorista.

No romance, Bazárov não chega a tais extremos. Seus conflitos são sobretudo de natureza emocional. Ele não tarda a entrar em choque com o gentil e romântico Nikolai e, de maneira mais acentuada, com seu irmão, o aristocrático Pável. Arkádi e ele prosseguem viagem, e hospedam-se na casa da bela e sedutora viúva Odíntsova, por quem ele desenvolverá uma paixão não correspondida. Seguem para a casa dos pais de Bazárov, e depois de volta à casa de Arkádi, onde o atrito entre Bazárov e Pável termina num duelo bizarro – uma das grandes cenas do livro. Bazárov mais uma vez retorna à casa dos pais. Ali, ao fazer uma necropsia, fere-se e contrai uma infecção mortal: ironicamente, a paixão pela ciência custa-lhe a vida. Mas o livro tem final feliz. As flores que crescem sobre o túmulo de Bazárov, garante-nos Turguêniev, falam de "reconciliação eterna".

Em contraste com seus também geniais contemporâneos, Tolstoi e Dostoievski, cujas obras são cheias de som e fúria, Turguêniev foi antes de tudo um escritor amável. Sua obra revela um profundo conhecimento da natureza humana, examinada em estilo elegante. A narrativa se desdobra em sucessivos diálogos, por meio dos quais os personagens ganham voz e também, aos poucos, uma existência concreta. Esses personagens se erguem diante do leitor e suscitam, de forma vívida, questões que em boa parte continuam atuais. Não há dúvida: estamos mesmo diante de um clássico.

 
NIILISMO É...

"– O que Bazárov é? – sorriu Arkádi.

– Tio, o senhor quer que eu lhe diga?

– Faça-me esse favor, meu sobrinho.

– É um niilista.

– Como? – perguntou Nikolai Petróvitch.

– Ele é um niilista – repetiu Arkádi.

– Niilista – disse Nikolai Petróvitch. – Vem do latim nihil, nada, até onde posso julgar; portanto essa palavra designa uma pessoa que... que não admite nada?

– Digamos: que não respeita nada – emendou Pável Petróvitch.

– Aquele que considera tudo de um ponto de vista crítico – observou Arkádi.

– E não é a mesma coisa? – indagou Pável Petróvitch.

– Não, não é. O niilista é uma pessoa que não admite nenhum princípio sem provas."

Trecho de Pais e Filhos

 
 
 
 
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