Edição 1843 . 3 de março de 2004

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Cinema
Uma bela ruína

Lance de Sorte, de Neil Jordan, é uma
ode ao que sobrou do monumento
existencialista dos anos 50


Isabela Boscov


Divulgação
Nolte, com Nutsa Kukhianidze: perder-se pode ser a salvação
Fotos
Trailer


Como qualquer lugar em que o dinheiro circula rápido e em grande quantidade, a Riviera francesa de Lance de Sorte (The Good Thief, Inglaterra/França/Irlanda, 2002), em cartaz desde sexta-feira, é uma terra de ninguém. De francês, aqui, só parece haver Roger (Tchéky Karyo), o policial que tenta vigiar um submundo povoado por russos, bósnios, argelinos e outras tantas nacionalidades não-identificadas. Roger vigia especialmente o americano Bob (Nick Nolte). Bob é um ladrão com seis condenações, um apostador em maré de azar, um viciado em heroína e, em que pesem essas credenciais, um sujeito legal, que não faria mal a ninguém e de quem todos gostam – inclusive o policial, que se mobiliza para impedir que ele dê um novo golpe e, com isso, vá parar mais uma vez na prisão. Bob, porém, está sempre à procura de um algo mais, e essa busca vai levá-lo à companhia de uma jovem prostituta russa e a um cassino onde há um cofre bem recheado e, mais importante, um porão repleto de obras de arte.

Dirigido pelo irlandês Neil Jordan, Lance de Sorte é uma adaptação livre de Bob le Flambeur, filme-marco do vazio existencial feito por Jean-Pierre Melville em 1955. Não há aqui a fotografia atmosférica em preto-e-branco, ou a reticência que caracterizava o trabalho de Melville. Ao contrário, Lance de Sorte é iluminado pelo sol, por cores elétricas e por um certo otimismo. Também a maquinação do golpe assume uma importância maior. Nem por isso ela deixa de ser um mero pretexto. A razão de ser do filme é Bob. Magnificamente interpretado por Nolte, ele é a ruína que sobrou de um monumento – no sentido específico, de um homem que dissipou sua energia em atalhos fúteis, e, no mais amplo, de um personagem arquetípico dos anos 50 e 60, que foi enterrado junto com os ideais da época. Para Bob e seus semelhantes, a perdição é em si uma salvação – nem que seja como salvaguarda contra os pecados maiores da hipocrisia e do conformismo.

 
 
 
 
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