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Cinema
Uma
bela ruína
Lance
de Sorte,
de Neil Jordan, é uma
ode ao que sobrou do monumento
existencialista dos anos 50

Isabela Boscov
Divulgação
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| Nolte,
com Nutsa Kukhianidze: perder-se pode ser a salvação
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Como qualquer lugar em que o dinheiro circula rápido e em
grande quantidade, a Riviera francesa de Lance de Sorte (The
Good Thief, Inglaterra/França/Irlanda, 2002), em cartaz
desde sexta-feira, é uma terra de ninguém. De francês,
aqui, só parece haver Roger (Tchéky Karyo), o policial
que tenta vigiar um submundo povoado por russos, bósnios,
argelinos e outras tantas nacionalidades não-identificadas.
Roger vigia especialmente o americano Bob (Nick Nolte). Bob é
um ladrão com seis condenações, um apostador
em maré de azar, um viciado em heroína e, em que pesem
essas credenciais, um sujeito legal, que não faria mal a
ninguém e de quem todos gostam inclusive o policial,
que se mobiliza para impedir que ele dê um novo golpe e, com
isso, vá parar mais uma vez na prisão. Bob, porém,
está sempre à procura de um algo mais, e essa busca
vai levá-lo à companhia de uma jovem prostituta russa
e a um cassino onde há um cofre bem recheado e, mais importante,
um porão repleto de obras de arte.
Dirigido
pelo irlandês Neil Jordan, Lance de Sorte é
uma adaptação livre de Bob le Flambeur, filme-marco
do vazio existencial feito por Jean-Pierre Melville em 1955. Não
há aqui a fotografia atmosférica em preto-e-branco,
ou a reticência que caracterizava o trabalho de Melville.
Ao contrário, Lance de Sorte é iluminado pelo
sol, por cores elétricas e por um certo otimismo. Também
a maquinação do golpe assume uma importância
maior. Nem por isso ela deixa de ser um mero pretexto. A razão
de ser do filme é Bob. Magnificamente interpretado por Nolte,
ele é a ruína que sobrou de um monumento no
sentido específico, de um homem que dissipou sua energia
em atalhos fúteis, e, no mais amplo, de um personagem arquetípico
dos anos 50 e 60, que foi enterrado junto com os ideais da época.
Para Bob e seus semelhantes, a perdição é em
si uma salvação nem que seja como salvaguarda
contra os pecados maiores da hipocrisia e do conformismo.
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