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Ciência
Se
fôssemos feitos
para durar 120 anos
Cientistas americanos
mostram
como o corpo deveria ser para
vivermos bem mais de um século

Diogo
Schelp
Vem
aí o mundo dos homens e mulheres centenários. Se a
expectativa de vida na Alemanha mantiver o crescimento atual, as
meninas que nascem hoje naquele país viverão em média
até os 100 anos. A ONU estima que, nos Estados Unidos, uma
em cada vinte pessoas que hoje têm 50 anos viverá ainda
meio século. No Brasil, existem cerca de 10.000 pessoas com
mais de 100 anos. Diante dessa realidade, o sonho de que se possa
viver muito além dos 100 anos se afigura cada vez mais possível.
Mas não muito mais, pois há raros casos de pessoas
que ultrapassam os 120 anos, idade que parece ser nosso limite natural.
A questão que se coloca é: poderíamos transpor,
com saúde, essa barreira biológica? Os cientistas
americanos Robert Butler, do Centro Internacional de Longevidade,
de Nova York, Bruce Carnes, da Universidade de Chicago, e Jay Olshansky,
da Universidade de Illinois, estudaram o assunto e concluíram
que não. Para eles, se a evolução tivesse desenhado
o corpo humano para durar um século ou mais com perfeição,
nós teríamos uma aparência muito diferente da
atual.
Butler, Carnes e Olshansky fizeram o exercício de imaginar
como teria de ser o corpo de uma pessoa centenária e totalmente
saudável, construído para a longevidade (veja quadros).
O resultado é uma figura grotesca, que nem a mais avançada
das engenharias genéticas poderia conceber. Nós seríamos
criaturas mais baixas, mais cabeçudas, mais orelhudas, encurvadas,
de coxas e quadris mais largos. Tudo para evitar o desgaste natural
causado pelo uso prolongado do corpo. Sem essas e outras mudanças,
os idosos continuariam sofrendo com ossos frágeis, discos
da coluna gastos, ligamentos destruídos, varizes, cataratas,
perda de audição e hérnias. Uma das características
estruturais mais importantes que precisariam ser modificadas é
a coluna vertebral, que costuma apresentar os primeiros sinais de
desgaste muito cedo. A postura ereta do ser humano é uma
adaptação de nossos ancestrais quadrúpedes.
Foi o que nos permitiu desenvolver a inteligência. Mas a coluna
vertebral não evoluiu o suficiente para resistir ao peso
de um corpo apoiado em apenas duas pernas. E isso traz sérios
problemas físicos, como o desgaste dos discos entre as vértebras,
que passam a pressionar as terminações nervosas da
coluna, provocando dores insuportáveis.
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O
idoso de 100 anos ideal imaginado por Butler, Carnes e Olshansky
serve para mostrar que é mais importante prolongar a saúde
do que perpetuar a vida. O envelhecimento está diretamente
relacionado à função reprodutiva do ser humano.
A natureza planejou homens e mulheres para se reproduzir e para
viver tempo suficiente para criar seus filhos. O auge do bom funcionamento
do corpo coincide com o período em que estamos mais aptos
para reproduzir. Tanto homens como mulheres têm uma vida reprodutiva
limitada. Com o tempo, as mulheres deixam de ovular e se reduz bastante
a capacidade masculina de produzir espermatozóides. Quando
acaba o auge da capacidade de reprodução, começa
a decadência do corpo. Articulações, músculos
e outros traços anatômicos que nos serviram tão
bem durante a juventude começam a dar sinais de fraqueza.
Certas doenças de caráter genético, cuja predisposição
para aparecer é transmitida de geração para
geração, como a doença de Alzheimer, só
se manifestam em idades mais avançadas e, por isso, são
"ignoradas" pela seleção natural. Ou seja, a natureza
tende a selecionar as qualidades do indivíduo que o ajudam
a sobreviver até a fase reprodutiva, e não aquelas
que determinam uma velhice mais saudável. Por isso, do ponto
de vista da evolução, a longevidade não traz
vantagem alguma.
Alguns cientistas defendem que a ciência deve colocar todos
os instrumentos possíveis a serviço do objetivo de
estender a vida e retardar o envelhecimento, mesmo que o ser humano
não tenha sido planejado para isso. A medicina do século
XX identificou e eliminou as causas das doenças infecciosas,
o que, junto com uma série de mudanças no estilo de
vida, como trabalhos menos pesados, ajudou a aumentar a média
de vida da população. A medicina do século
XXI procura a solução para as doenças vasculares,
o câncer, as patologias degenerativas e as inflamações
crônicas, males que acometem com freqüência pessoas
idosas. A engenharia genética promete ser a chave para a
cura dessas doenças e para a ampliação do limite
da longevidade humana. Já se conseguiu localizar e modificar
o gene que determina a longevidade em ratos. Em experimentos, o
tempo de vida desses animais foi aumentado em até 30%. Os
pesquisadores acham que no futuro será possível fazer
o mesmo com os seres humanos.
Na semana passada, o médico Nir Barzilai, do Instituto para
Pesquisas do Envelhecimento, da Escola de Medicina Albert Einstein,
nos Estados Unidos, divulgou o resultado de um estudo feito com
300 pessoas com cerca de 100 anos e seus familiares. Os velhinhos
entrevistados tinham hábitos sedentários e não
faziam nenhuma dieta especial que justificasse a vida prolongada.
A explicação é puramente genética. Barzilai
diz ter descoberto um gene responsável por 18% da longevidade
dessas pessoas centenárias. Segundo ele, empresas farmacêuticas
dos Estados Unidos já pesquisam remédios que atuam
sobre esse gene, retardando o envelhecimento.
Não faltam interessados em patrocinar o sonho da eternidade.
Nos Estados Unidos, o bilionário John Sperling, empresário
do setor de educação, fundou um instituto para desenvolver
técnicas que aumentem a longevidade humana. Sperling, de
77 anos, decidiu que, quando morrer, sua fortuna de 3 bilhões
será destinada a esses estudos. As pesquisas com clones humanos
divulgadas na Coréia do Sul no mês passado, que devem
permitir a produção de tecidos para transplantes,
também poderão ser usadas para aumentar a longevidade,
ou pelo menos para fazer com que as pessoas tenham uma velhice mais
saudável. Permitir que a humanidade viva o máximo
de tempo possível com saúde é o objetivo da
maior parte dos cientistas e pesquisadores. A questão é
saber qual o limite que se quer para a extensão da vida humana.
Uma sociedade em que o número de aposentados é maior
que o de pessoas em atividade poderia entrar em colapso. Em muitos
países, as pessoas param de trabalhar quando entram na casa
dos 60 anos. Se fosse possível superar as limitações
estruturais do corpo humano e estender a vida para além dos
120 anos, seria preciso rever todo o sistema social e econômico
atual.
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