Edição 1843 . 3 de março de 2004

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Ciência
Estes bichos começam
a ser salvos

Graças a novas tecnologias, cai
o número de animais usados como
cobaias de laboratório. Mas ainda
morrem 100 milhões por ano


Juliana Linhares

 
Reuters
Macacos em laboratório da indústria farmacêutica. Entre os fabricantes de cosméticos, os coelhos são as cobaias preferidas: testes em animais causam dor, cegueira e morte. Mas são eles que dão segurança para o uso dos produtos em seres humanos
Gustavo Arrais
Antonio Milena

Os fabricantes de cosméticos são um dos alvos preferidos dos protestos de organizações de defesa dos animais. O motivo da animosidade é o sofrimento causado às cobaias nos testes de novos produtos nos laboratórios dessas empresas. Os produtores de medicamentos, que sofrem a mesma pressão, podem argumentar que o sacrifício das cobaias é necessário para a criação de remédios capazes de salvar vidas humanas. Já a indústria da beleza, cujo objetivo é satisfazer a vaidade pessoal, sempre teve maior dificuldade em justificar o sofrimento dos animais. Depois de anos sendo patrulhada, ela afinal tem uma boa notícia: diminuiu bastante a quantidade de animais usados em laboratórios. De acordo com a ONG americana The Humane Society of the United States, entre 1970 e 2003 caiu pela metade o número de cobaias utilizadas em testes nos Estados Unidos e na Inglaterra, países campeões nesse tipo de procedimento. A mesma porcentagem foi registrada na Holanda e na Suíça. No Brasil, não existem estatísticas oficiais a respeito. Mas há novidades em pelo menos um grande fabricante, a Natura. De acordo com a empresa, seus laboratórios usaram apenas 308 animais no ano passado. Em 1999, haviam sido 4.077.

Apesar da redução, o número de animais empregados como cobaias de laboratório em todo o mundo ainda é enorme: as estimativas variam entre 70 milhões e 100 milhões de bichos mortos por ano, 30% deles pelos fabricantes de cosméticos. Os testes com cobaias vivas são parte essencial das pesquisas de medicamentos, cosméticos e produtos de limpeza. O organismo dos animais é muito parecido com o do homem. Dessa maneira, a maioria das substâncias prejudiciais à saúde humana afeta os bichos de maneira semelhante. Na indústria da beleza são utilizados de preferência coelhos, ratos, porquinhos-da-índia e hamsters. Na fabricação de remédios também entram espécies de maior porte, como macacos e cães. Os testes são cruéis, mas essenciais. Só assim se pode saber se um produto é seguro sem precisar experimentá-lo numa pessoa.

Um dos motivos pelos quais os animais têm sido poupados é o surgimento de tecnologias capazes de substituir boa parte dos testes tradicionais. Os de sensibilização cutânea, cujo objetivo é identificar os produtos que causam alergia, irritação ou, em último caso, câncer, são feitos agora com células humanas cultivadas em laboratório. Alguns testes para detectar a toxicidade de substâncias podem ser realizados com plantas capazes de fornecer informações muito parecidas com as reações do corpo humano. Apesar de parte dos testes ter sido substituída, alguns dos mais condenados pelos ambientalistas ainda continuam a ser feitos em grande escala. Um deles é o método Draize, que procura verificar a tolerância do globo ocular. Consiste em pingar determinado produto químico nos olhos de um coelho imobilizado no laboratório até que o animal fique cego. Os olhos são então extraídos e examinados pelos peritos. No LD50 (a sigla significa dose letal para 50% dos animais), substâncias são testadas diretamente no estômago de roedores. Usa-se como primeira dose a quantidade máxima do produto, que vai sendo diminuída progressivamente. Quando 50% dos ratos sobrevivem, os cientistas consideram ter encontrado a quantidade ideal para a prescrição em humanos.

O esforço da indústria da beleza tem urgência em substituir as cobaias vivas em seus laboratórios. No ano passado, a União Européia decidiu proibir os testes de cosméticos em animais. A Europa pretende também banir a comercialização e a importação desses produtos. A idéia ainda precisa receber o o.k. de cada um dos governos. Se ela for aprovada, os produtos estarão banidos do continente a partir de 2009. Outra razão é que o trabalho das ONGs está tendo repercussão na opinião pública – quem não se comove com a imagem do sofrimento de um coelhinho? As grandes marcas, como L'Oréal, Nivea e Natura, perceberam que o consumidor não gosta dessa história de bicho maltratado e que, em alguns países do Primeiro Mundo, ele até abre mão de usar cremes e xampus que tenham sido testados em cobaias vivas e vai atrás de produtos alternativos. Uma das razões do sucesso da The Body Shop, fabricante inglesa de cosméticos "ecologicamente corretos", é a garantia de que seus produtos não foram testados em animais. Por enquanto, não há exemplos parecidos no Brasil. "As empresas brasileiras já perceberam que o consumidor se tornou mais 'verde', mas dizem ainda não ter estrutura para realizar uma mudança radical em seus procedimentos", avalia Marco Ciampi, presidente da Arca Brasil, uma das maiores organizações ambientalistas do país. Ele acredita que é só uma questão de tempo. "Se alguma delas tiver a coragem de abolir os testes com animais, todas as outras virão atrás", diz.

 
 
 
 
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