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Ciência
Estes
bichos começam
a ser salvos
Graças a novas tecnologias, cai
o número de animais usados como
cobaias de laboratório. Mas ainda
morrem 100 milhões por ano

Juliana Linhares
Reuters
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| Macacos
em laboratório da indústria farmacêutica. Entre os fabricantes
de cosméticos, os coelhos são as cobaias preferidas: testes
em animais causam dor, cegueira e morte. Mas são eles que dão
segurança para o uso dos produtos em seres humanos |
Gustavo Arrais
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Antonio Milena
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Os
fabricantes de cosméticos são um dos alvos preferidos
dos protestos de organizações de defesa dos animais.
O motivo da animosidade é o sofrimento causado às
cobaias nos testes de novos produtos nos laboratórios dessas
empresas. Os produtores de medicamentos, que sofrem a mesma pressão,
podem argumentar que o sacrifício das cobaias é necessário
para a criação de remédios capazes de salvar
vidas humanas. Já a indústria da beleza, cujo objetivo
é satisfazer a vaidade pessoal, sempre teve maior dificuldade
em justificar o sofrimento dos animais. Depois de anos sendo patrulhada,
ela afinal tem uma boa notícia: diminuiu bastante a quantidade
de animais usados em laboratórios. De acordo com a ONG americana
The Humane Society of the United States, entre 1970 e 2003 caiu
pela metade o número de cobaias utilizadas em testes nos
Estados Unidos e na Inglaterra, países campeões nesse
tipo de procedimento. A mesma porcentagem foi registrada na Holanda
e na Suíça. No Brasil, não existem estatísticas
oficiais a respeito. Mas há novidades em pelo menos um grande
fabricante, a Natura. De acordo com a empresa, seus laboratórios
usaram apenas 308 animais no ano passado. Em 1999, haviam sido 4.077.
Apesar da redução, o número de animais empregados
como cobaias de laboratório em todo o mundo ainda é
enorme: as estimativas variam entre 70 milhões e 100 milhões
de bichos mortos por ano, 30% deles pelos fabricantes de cosméticos.
Os testes com cobaias vivas são parte essencial das pesquisas
de medicamentos, cosméticos e produtos de limpeza. O organismo
dos animais é muito parecido com o do homem. Dessa maneira,
a maioria das substâncias prejudiciais à saúde
humana afeta os bichos de maneira semelhante. Na indústria
da beleza são utilizados de preferência coelhos, ratos,
porquinhos-da-índia e hamsters. Na fabricação
de remédios também entram espécies de maior
porte, como macacos e cães. Os testes são cruéis,
mas essenciais. Só assim se pode saber se um produto é
seguro sem precisar experimentá-lo numa pessoa.
Um dos motivos pelos quais os animais têm sido poupados é
o surgimento de tecnologias capazes de substituir boa parte dos
testes tradicionais. Os de sensibilização cutânea,
cujo objetivo é identificar os produtos que causam alergia,
irritação ou, em último caso, câncer,
são feitos agora com células humanas cultivadas em
laboratório. Alguns testes para detectar a toxicidade de
substâncias podem ser realizados com plantas capazes de fornecer
informações muito parecidas com as reações
do corpo humano. Apesar de parte dos testes ter sido substituída,
alguns dos mais condenados pelos ambientalistas ainda continuam
a ser feitos em grande escala. Um deles é o método
Draize, que procura verificar a tolerância do globo ocular.
Consiste em pingar determinado produto químico nos olhos
de um coelho imobilizado no laboratório até que o
animal fique cego. Os olhos são então extraídos
e examinados pelos peritos. No LD50 (a sigla significa dose letal
para 50% dos animais), substâncias são testadas diretamente
no estômago de roedores. Usa-se como primeira dose a quantidade
máxima do produto, que vai sendo diminuída progressivamente.
Quando 50% dos ratos sobrevivem, os cientistas consideram ter encontrado
a quantidade ideal para a prescrição em humanos.
O esforço da indústria da beleza tem urgência
em substituir as cobaias vivas em seus laboratórios. No ano
passado, a União Européia decidiu proibir os testes
de cosméticos em animais. A Europa pretende também
banir a comercialização e a importação
desses produtos. A idéia ainda precisa receber o o.k. de
cada um dos governos. Se ela for aprovada, os produtos estarão
banidos do continente a partir de 2009. Outra razão é
que o trabalho das ONGs está tendo repercussão na
opinião pública quem não se comove com
a imagem do sofrimento de um coelhinho? As grandes marcas, como
L'Oréal, Nivea e Natura, perceberam que o consumidor não
gosta dessa história de bicho maltratado e que, em alguns
países do Primeiro Mundo, ele até abre mão
de usar cremes e xampus que tenham sido testados em cobaias vivas
e vai atrás de produtos alternativos. Uma das razões
do sucesso da The Body Shop, fabricante inglesa de cosméticos
"ecologicamente corretos", é a garantia de que seus produtos
não foram testados em animais. Por enquanto, não há
exemplos parecidos no Brasil. "As empresas brasileiras já
perceberam que o consumidor se tornou mais 'verde', mas dizem ainda
não ter estrutura para realizar uma mudança radical
em seus procedimentos", avalia Marco Ciampi, presidente da Arca
Brasil, uma das maiores organizações ambientalistas
do país. Ele acredita que é só uma questão
de tempo. "Se alguma delas tiver a coragem de abolir os testes com
animais, todas as outras virão atrás", diz.
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