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Especial
No
mundo da Lya
A
gaúcha Lya Luft se torna uma campeã de
vendagem com a lição de que a vida deve ser
saboreada no que tem de doce e de amargo

Isabela
Boscov
Liane Neves
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| Lya,
na casa que construiu com o primeiro marido, em Porto Alegre:
o sucesso depois dos 60 |
Existe
uma longa (e quase esquecida) tradição filosófica,
que começa na Grécia clássica, empenhada em
refletir sobre a vida e a morte ou, mais precisamente, sobre
como remover os obstáculos que nos impedem de viver e morrer
bem. Há também uma corruptela moderna, e altamente
lucrativa, dessa tradição a auto-ajuda, que
trocou a reflexão pelo tom e pelas simplificações
dos manuais. Entre esses dois extremos, encontra-se algo raro, que
o best-seller Perdas & Ganhos, lançado no ano
passado pela escritora Lya Luft, exemplifica. Perdas & Ganhos
fala das armadilhas que nós próprios criamos, e que
se interpõem entre nós e a fruição plena
da vida. Fala do medo da velhice e do quanto ele é injustificado,
da desorientação diante da educação
dos filhos, da falta de tempo e de como desperdiçamos o pouco
que temos em frivolidades, dos rancores passados que ainda norteiam
o presente, do fim às vezes inevitável dos casamentos,
dos arrependimentos pelas oportunidades que julgamos perdidas. Fala,
também, das rasteiras que vez por outra a vida nos passa,
como nascer num lar infeliz ou o sofrimento com a morte de pessoas
queridas. Fala, claro, das coisas boas da existência humana
especialmente as ligadas ao amor, em todas as suas formas.
Não por acaso, muitos dos leitores do livro de Lya o têm
usado como fonte de aconselhamento. Se, à primeira vista,
isso parece caracterizar o trabalho da autora gaúcha como
representante do segmento de auto-ajuda, um exame um pouco mais
atento não demora a dispersar essa impressão
que Lya, aliás, abomina. "A auto-ajuda pretende ensinar as
pessoas a serem felizes. Eu quero provocar meus leitores e fazer
com que eles pensem", diz. Para tanto, ela se vale de um tom que
reproduz o de uma conversa íntima: em uma prosa serena e
de polimento nitidamente literário, a autora troca idéias
com o leitor, faz reflexões, rememora episódios de
sua vida, conta casos que lhe foram transmitidos por outros e emite
opiniões opiniões, frise-se, não conselhos.
Reprodução
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Pedro Rubens
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| Com
Celso Luft e, hoje, com a filha Suzana e as netas Bibi e Nanda:
elas já acordam pedindo pela "fofó"
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Trata-se
de um casamento feliz entre forma e conteúdo, ao qual o público
reagiu de imediato. Lya varreu as livrarias do país como
um pé-de-vento: chegou sem aviso e deixou um bocado desarrumada
a tradicionalmente estável lista dos campeões nacionais
de popularidade. Num mercado editorial em que vendas contadas às
dezenas de milhares são um feito de destaque, a escritora
gaúcha ultrapassou com facilidade a casa da centena. Já
há 150.000 exemplares de Perdas &
Ganhos nas mãos dos leitores. Nem há sinal de
calmaria no horizonte: no início de fevereiro, o livro voltou
ao primeiro posto da relação de mais vendidos de VEJA,
na categoria ficção, que tem freqüentado assiduamente
nos últimos oito meses e de onde desbancou o antes inexcedível
Paulo Coelho. Agora, seus direitos vêm sendo negociados também
para o teatro, com a atriz Regina Duarte entre os principais interessados.
Perdas & Ganhos é o 14º livro de Lya, e o
primeiro em seus 24 anos de carreira a atingir repercussão
e números desse porte. Mas não deve ser o último.
Em 5 de março, as primeiras 40.000 cópias
do próximo trabalho da escritora, Pensar É Transgredir,
chegam às prateleiras das livrarias de todo o Brasil
e não se espera que demorem a sair delas.
Dois
capítulos em especial de Pensar É Transgredir
demonstram quanto Lya tem o pulso de seus leitores. Em Canção
das Mulheres, uma mulher hipotética exorta seu companheiro
a tomá-la nos braços quando ela está com medo,
sem fazer perguntas demais; a perceber suas fragilidades sem rir
nem se aproveitar delas; a não censurá-la quando ela
pede um segundo drinque no restaurante; a admirá-la e amá-la
mesmo que eventualmente ela perca a paciência, a graça
ou a compostura; e assim por diante. É uma espécie
de compêndio das queixas e das dores cotidianas que, somadas,
não raro terminam por consumir um relacionamento. Lya, entretanto,
costuma ser severa com o recurso das mulheres à vitimização
e por isso Canção dos Homens é
ainda mais pungente que a sua contrapartida feminina. Nela, o marido
ou amante pede que a mulher não o humilhe por estar ficando
calvo ou barrigudo, que não faça gestos públicos
de enfado quando ele conta de novo uma mesma piada, que não
tire o bebê de seus braços dizendo que homem não
tem jeito para isso, que não comente a intimidade do casal
com as amigas, que não o acuse quando ele está com
pouco dinheiro, que o deixe também ter momentos de fraqueza.
E que atire a primeira pedra a mulher que nunca cometeu um desses
pecados ou que, na visão de Lya, não tenha
sucumbido a envenenar o amor com essas doses pequenas, mas cumulativas,
de desafeto. "Para viver de verdade, pensando e repensando a vida
para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e
amar-se", escreve a autora em outro ponto de Pensar É
Transgredir.
Rafael Campos
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| Regina,
que negocia os direitos de Perdas & Ganhos: rumo ao teatro
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Essa literatura, que se pode chamar de cunho moral, floresceu desde
a Antiguidade com o grego Epicuro ou o romano Cícero,
que além de ser estadista escreveu sobre, por exemplo, a
dor pela perda de sua filha até a segunda metade do
século XIX, quando os filósofos alemães estavam
na sua dianteira. Mas desde então essa grande presença
se converteu numa ausência conspícua. Hoje, afora o
suíço Alain de Botton, que se diverte compilando aquilo
que os grandes filósofos pensaram sobre temas caros também
ao homem contemporâneo como a falta de popularidade
ou de dinheiro , não há muitos escritores que
se dediquem ao gênero. É essa a lacuna que Lya Luft
parece preencher entre seus leitores. Guardadas as diferenças
de crença, estilo e alcance, o que ela faz lembra aquilo
que tornou o americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882) imensamente
popular à sua época: não fornecer respostas
para problemas (como a auto-ajuda pretende fazer), mas sim auxiliar
homens e mulheres comuns a identificar suas indagações
e indicar o caminho para que cada um chegue às suas soluções
um caminho que, em geral, está dentro de nós
próprios.
Muito
de Pensar É Transgredir se volta para esse tema: aquilo
que Lya descreve como "a horrenda banalidade do cotidiano" e os
seus efeitos deletérios sobre nossa capacidade de saborear
a vida, no que ela tem de doce e de amargo. Mas há dados
curiosos no sucesso de Lya. O primeiro é que a sua definição
do que é banal não é exatamente a mais corrente.
Em seus textos, a escritora é impiedosa com o consumo exagerado,
a ânsia com a juventude, o carro, a viagem, o tênis
mais caro para o filho. A riqueza, diz ela, está no tempo
que se dedica aos filhos, aos amigos, aos amores, à sensualidade
e ao trabalho feito com prazer e que compra, isso sim, uma
vida digna. O público de Lya vem crescendo entre os homens
e os jovens, mas é ainda na maioria composto de mulheres
maduras. Para elas, que presumivelmente vivem divididas entre escolhas
pessoais e profissionais, essa reafirmação de que
o afeto é uma prioridade tem algo de alívio e, de
tão antiga, também de novidade. O outro fator que
chama a atenção em Perdas & Ganhos é
que essas coisas não são ditas em tom de chamego,
para agradar ao leitor. Não raro, elas tomam a forma de desabafos
e chacoalhões, especialmente quando a escritora fala do tópico
que mais a incendeia: a obsessão pela juventude, as plásticas
que transformam mulheres feitas em caricaturas de adolescentes e
o desejo de permanecer infantil também no espírito.
Hoje amadurecemos tarde e mal, acredita Lya. Não à
toa, portanto, tememos tanto a velhice: chegamos a ela vazios, sem
a bagagem interior com que deveríamos nos sustentar em mais
essa etapa.
Envelhecer,
na definição de Lya, não tem nada a ver com
entregar os pontos. Divertida, ela narra uma conversa que ouviu
entre sua neta Isabela, de 5 anos, e uma amiguinha, que louvava
os dotes culinários de sua avó. "A minha avó
não faz bolo", retrucou Isabela. "Ela tem é namorado
e bem bonitão." A foto na mesa de trabalho de Lya
confirma o julgamento da neta sobre o novo romance da escritora,
um engenheiro carioca que hoje mora em Porto Alegre e sobre o qual
ela é muito reticente. "Esse, graças a Deus, ninguém
conhece", diz ela, numa referência aos seus casamentos anteriores
com figuras públicas o lingüista Celso Pedro
Luft, pai de seus três filhos, e o psicanalista Hélio
Pellegrino. Lya não quer nem divulgar o nome de seu novo
amor, mas o define assim: "É um homem... bom, interessante,
sensível, que vê em mim muito mais o ser humano do
que a escritora, que cuida de mim, me entende, me conhece, me faz
bem, me faz feliz, me deixa segura, conhece minhas fragilidades
e meus segredos. Ele venceu a barreira da minha solidão e
da minha reserva. Os verdadeiros encontros são sempre um
mistério, não é?".
Lya
não tem perdão para os desavisados que vêm perguntar
"como é isso de se apaixonar aos 65 anos". "Tenho 65 anos,
e não 165", costuma esclarecer, seca. "Ademais, não
há nada de estranho em um homem se apaixonar por uma velha
gordinha e sensual como eu. As mulheres estão muito chatas:
só falam de dieta, e metade do tempo não se pode nem
encostar nelas, tantas as cicatrizes de plástica", fulmina.
Cirurgia, a escritora só fez uma, depois da morte de Hélio
Pellegrino, para amenizar a expressão sombria que o luto
deixara em sua fisionomia. Das caminhadas, ela não abre mão,
por uma razão "de higiene". "Quero conseguir me levantar
sozinha da cadeira aos 80 anos."
O
que há de especial na biografia de Lya e que se reflete
na sua literatura é justamente o que ela tem de tão
comum à classe média brasileira: dinheiro curto (pelo
menos até o sucesso de Perdas & Ganhos), mãe
doente, saudade do pai que morreu cedo demais, casamentos desfeitos,
viuvez, alguns filhos perto e outros longe, um olho na rotina da
casa e outro sempre no trabalho, pouco tempo para a diversão
e para a ginástica. Lya começou a publicar aos 41
anos, quando deu um basta à vida de professora universitária,
e foi sempre uma escritora de vendas constantes, mas modestas. Nunca
pôde, portanto, deixar o trabalho como tradutora do alemão
e do inglês, de autores que vão de James Joyce a Thomas
Mann. Sem ele, não haveria como custear os 2.500
reais mensais da clínica em que mora sua mãe, de 89
anos, que sofre de Alzheimer e Parkinson, ou o salário ("muito
bem pago, porque justiça social começa e se aprende
em casa") das duas empregadas que tomam conta da residência
ampla, construída por ela e Celso Luft nos anos 70. A atividade
ali é grande. Quando Suzana, sua filha mais velha, se casou,
Lya construiu um novo piso sobre a casa térrea, que foi se
ampliando com a chegada das netas Isabela e as gêmeas Fernanda
e Fabiana, de pouco mais de 1 ano.
Todas
as manhãs, Nanda e Bibi já acordam chamando pela "fofó",
que pára o trabalho quantas vezes for preciso para colocá-las
no colo, beijar um machucado ou desarrumar seus cachos. Isabela,
Suzana e Lya almoçam juntas todos os dias, sempre ao meio-dia
a família é madrugadora, e Suzana, que é
pintora pela manhã, tem de correr para o seu consultório
de pediatra à tarde. "Não sei o que eu faria sem a
minha mãe", diz Suzana. O arranjo funciona na base do respeito
mútuo: o térreo e o andar superior têm entradas
separadas, e nem mãe nem filha fazem visitas uma à
outra sem antes telefonar ou bater à porta, numa demonstração
prática dos ensinamentos da escritora sobre ser uma mãe
e uma avó presente, mas não intrometida.
Suzana
tinha 20 anos quando Lya se separou de Celso Luft, e foi a primeira
a se aproximar de Hélio Pellegrino. A personalidade calorosa
do psicanalista não demoraria a conquistar também
Eduardo, o filho mais novo, que hoje é filósofo, e
André, o do meio, que é agrônomo e mora em Mato
Grosso. "O fim de um casamento não precisa ser o fim de uma
relação", diz Lya. "Minha convivência com Celso
havia se metamorfoseado numa grande amizade. Eu me mudei para o
Rio, com o Hélio, e também Celso foi viver com uma
nova companheira", diz ela, rebatendo as versões mais titilantes
que circularam pela imprensa. Na festa de noivado de Suzana, Celso
e Hélio finalmente se conheceram pessoalmente e passaram
a noite toda engatados numa conversa animada, sem dar a mínima
para as respectivas esposas.
Quando
Pellegrino morreu de infarto, em 1988, após apenas três
anos de convivência, a escritora ficou devastada. "Tinham
de me dar comida na boca." Celso, os filhos e os amigos é
que a apoiaram, moral e financeiramente, nessa época. É
dela também que datam os poemas de O Lado Fatal
numa referência ao lado esquerdo do peito, o do coração
, o único livro que Lya não quer relançar
agora que está de editora nova, a Record. "Só o publiquei
porque estava meio louca", diz a escritora, para quem hoje os poemas
representam uma brecha desconfortável em seu recato. Quatro
anos após a morte de Pellegrino, Lya e Celso anularam o divórcio.
Não muito depois, o lingüista sofreu um acidente vascular
gravíssimo, e aí vieram os três anos de chumbo
da escritora, durante os quais sua casa virou um hospital dos mais
desesperançados, já que nunca houve chance real de
recuperação para Celso.
A
psicóloga argentina Martha Herzberg, grande amiga da escritora,
morre de rir do jeito dela. "Lya ainda vai morrer estrangulada na
echarpe do seu romantismo, como a bailarina Isadora Duncan", diverte-se.
Lya confirma: "Por constituição, sou apaixonada. Quando
gosto de uma música, passo meses ouvindo só ela, na
sala, no carro e no escritório. Mas a paixão é
uma coisa para poucos. Ela exige alguma audácia, ou alguma
loucura". Nesse quadro, o pai de Lya, o advogado e juiz Arthur Germano
Fett, e Celso Luft teriam sido os formadores, os companheiros de
aventuras intelectuais e professores de afeto. Pellegrino foi o
terremoto.
Entre
todas essas lembranças, a que mais abala a escritora é
a do pai, que morreu quando ela tinha 35 anos e, em suas palavras,
dividiu sua vida ao meio. Nascida no interior do Rio Grande do Sul,
numa família que emigrara da Alemanha no início do
século XIX, mas ainda se considerava alemã, Lya desde
cedo foi a "diferente". Em pequena, certa feita perguntou ao pai
o que era aquilo que tanto se revolvia em sua cabeça. "São
seus pensamentos", explicou ele, embevecido. Quando a filha quis
saber quem era Sócrates, o pai não a mandou passear.
Explicou que o filósofo não deixara escritos, mas
algo de seu pensamento podia ser compreendido "neste livrinho aqui".
Era um exemplar de O Banquete, de Platão. Lya não
entendeu lá muita coisa do livro, mas adorou. Para as tias
e avós que a circundavam na então pequena Santa Cruz
do Sul, esse tipo de curiosidade não causava tanto entusiasmo.
A mãe de Lya, famosa pela beleza e pelo temperamento vivaz,
estava ainda em luto pelo seu primogênito quando a filha nasceu.
Estranhava mais ainda, portanto, a menina medrosa, quieta, sempre
no mundo da lua e enfiada nos livros que tinha em casa. Lya também
não lia pela cartilha das boas meninas alemãs de então:
não sabia cozinhar (nunca aprendeu, confirmam os filhos),
seus bordados eram pavorosos e ela era o que então se chamava
uma criança desobediente. As contravenções
de Lya consistiam em mostrar a língua para a mãe,
ou não esticar direito os lençóis da cama.
Mas bastaram para que, mal despontasse a puberdade, ela fosse despachada
para um internato. Foram apenas dois meses longe de casa até
que o pai a trouxesse de volta, mas ela diz que o sentimento de
traição se tornou inesquecível.
Tímida
assim, e dividida entre a idolatria pelo pai e um amor que julgava
não correspondido pela mãe, Lya não parecia
uma candidata provável a afirmar sua independência.
Mas conseguiu atravessar a infância e a adolescência
fazendo o que bem entendia. Para começar, detesta o rótulo
de "alemã" (ou "alemoa", como gostava de brincar Pellegrino).
"Sou tão brasileira quanto qualquer baiana que venda acarajé
em Salvador", diz. Aos 19 anos, espantou os pais, luteranos distraídos,
convertendo-se ao catolicismo. Não muito mais tarde, conheceu
o professor Celso Luft, que era dezoito anos mais velho e desde
os 8 vivera num seminário. Celso abandonou seus votos, aos
43, para se casar com Lya, não sem antes avisá-la
de que não tinha o menor pendor para a vida prática.
"Não tem problema", respondeu ela. "Eu cuido de tudo." E
foi o que ela fez nos mais de vinte anos que durou o casamento.
O marido trabalhava duro na universidade onde Lya também
lecionava , mas não mentira quanto à falta de
senso prático. "Um dia, quando eu já estava com o
Hélio, ele ligou para minha casa no Rio de Janeiro para perguntar
como se trocava o gás", diverte-se Lya. Fiel ao que ensina
hoje em seus livros, ela se preocupava menos em instigar os seus
poucos talentos de dona-de-casa e mais em estar presente para os
filhos. "Ela não é uma mãe, assim, básica,
mas é de uma generosidade inacreditável. Nem na minha
adolescência deixamos de nos entender", diz Suzana. André
e Eduardo eram mais "tinhosos", e vez por outra voavam chinelos
pela casa, na tentativa de conter o ímpeto dos moleques.
"Mas tudo sempre terminava em esculhambação", diz
Lya. "No amor, seja com os filhos ou com o marido, o importante
é dar a certeza do colo, do ombro, da escuta. Mas sem vigiar
ou fiscalizar." Ouvir o carinho com que os filhos falam dela, ou
ver as fotos da escritora cercada por seus sete netos, é
a prova de que o mundo de Lya, embora tão atribulado quanto
o de qualquer mulher brasileira de classe média, é
mais harmonioso que o de muitas. Algo que os seus leitores sem dúvida
descobriram neste último ano.
| O
que vem por aí |
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Trechos do novo livro de Lya Luft, Pensar É
Transgredir
Milestones
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"No
Rio
do Meio, escrevi entre outras coisas que também
os homens sofrem de solidão na medida
da solidão (ou da infantilidade) de suas mulheres;
que também querem ser amados, ouvidos, olhados,
não só criticados e cobrados. Em palestras
afirmo (para horror de muitas) que nós mulheres
também sabemos ser muito chatas. Insatisfeitas,
cobradoras, ásperas ou lamuriosas, frívolas
e agitadas, chantagistas: nem sempre companheiras, poucas
vezes cúmplices. (...) E deixamos sozinho o nosso
homem, que bem ou mal é o que está do
nosso lado. Pois se for ruim demais, por que ainda estamos
com ele?"
"O
silêncio nos assusta por retumbar no espaço
vazio dentro de nós. Quando nada se move nem
faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam
coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga
outro ângulo de nós mesmos. (...) No susto
que essa idéia provoca, queremos ruído,
ruídos. Chegamos em casa e ligamos a televisão
antes de largar a bolsa ou a pasta. Não é
para assistir a um programa: é pela distração."
"O
que precisa um casal para ser um bom casal, amoroso,
alegre, criando pontes sobre as diferenças e
resolvendo com bom humor as agruras do convívio
cotidiano? Penso que o bom
casal é o que SE
GOSTA, com tudo o que isso significa: cumplicidade,
interesse, sensualidade boa, e o difícil compromisso
da lealdade."
Photodisc
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"Muitas vezes a salvação está na
separação, embora casais não se
separem apenas por frieza ou desamor. Às vezes
houve tamanhas e tais transformações no
curso do tempo que o mais digno, o mais libertador para
todos, é uma separação com respeito
e amizade. (...) Não acho um fracasso uma relação
que dure dez, vinte anos e depois termine. O 'que seja
eterno enquanto dure' de Vinicius não era cinismo,
porém constatação de que um amor
pode se transformar, não em rancor mas em um
afeto que foge às definições e
permanece mesmo depois de uma separação.
Desde que não se abafe essa possibilidade debaixo
de camadas de rancor e desejo de vingança."
"Para
ser boa mãe não preciso me vitimizar:
a mãe-mártir desperta culpa e causa aflição.
Só uma pessoa que se respeita e valoriza pode
realmente amar seus filhos, prepará-los para
não serem almas subalternas, e lhes servir de
eventual apoio."
"O
desperdício de nossa vida, talentos e oportunidades
é o único débito que no final não
se poderá saldar: estaremos no arquivo morto."
"Fico
imaginando que se a gente
fizesse uma faxina em nossos compromissos
e deveres, boa parte desapareceria ligeiro
no ralo do bom senso. (...) Sobrariam alguns compromissos
reais, dos quais não há como fugir: provavelmente
saúde, prestação do apartamento,
escola (a pública estando como está),
e alguns outros (poucos). Comprar não é
um dever, quando não se trata do indispensável
ou do que faz bem. Comprar pode ser, e tem sido, em
grande parte moda, mania, quase neurose. (...) Cada
um que arrume o baú de suas prioridades, e faça
a arrumação que quiser ou puder."
Trechos
de Pensar é Transgredir
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| O
amor por Pellegrino |
Reprodução
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| Com
Hélio, numa das poucas fotos do casal: uma
perda devastadora |
"Insensato eu estar aqui, e viva. O
rosto dele me contempla vincado e triste no retrato
sobre minha mesa; em outros, sorri para mim,
apaixonado e feliz. Insensato, isso de sobreviver:
mas cá estou, na aparência inteira.
Vou
à janela esperando que ele apareça
e me acene com aquele seu gesto largo e generoso,
que ao acordar esteja ao meu lado e que ao
telefone seja sempre a sua voz.
Sei
e não sei que tudo isso é impossível,
que a morte é um abismo sem pontes (ao
menos por algum tempo).
Sobrevivo,
mas pela insensatez."
Trecho
de O Lado Fatal
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|
| Educação
sentimental |
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Amor, família e bem-viver, em Perdas &
Ganhos
"De
modo geral acho que nos contentamos com muito pouco.
Não falo em dinheiro, carro, casa, roupa, jóias,
viagens, que esses cobiçamos cada vez mais. Refiro-me
aos tesouros humanos: ética, lealdade, amizade,
amor, sensualidade boa."
"Se
o outro servir de cabide para os nossos sonhos
mais extravagantes de perfeição, o primeiro
vento contrário derruba o pobre ídolo
que não tem culpa de nada."
"'Mas
o que pode haver de positivo em ficar velho?', perguntaram-me
um dia. (...) As qualidades interiores vão
sobressaindo, afirmando-se sobre as físicas.
Ao contrário da pele, cabelos, brilho de olhar
e firmeza de carnes, elas tendem a se aprimorar: inteligência,
bondade, dignidade, escutar o outro. Capacidade de compreender.
Mas é preciso que exista algo interior para sobressair:
o desgaste físico será compensado
pelo brilho de dentro."
"Mãe
não tem de ser amiguinha, tem de ser
mãe. Tem de ser aquela a quem
filhos, mesmo adultos, sabem que podem recorrer quando
tudo falhou, até os melhores amigos. Não
ser a falsa jovenzinha competindo em maquilagem
e roupas com a filha, ou parecendo seduzir colegas do
filho criando constrangimentos que ela ignora
como se não vivesse no real. Conceitos
pouco simpáticos, severos? A vida pode
ser bem mais severa que isso."
"Não
comandamos o destino das
pessoas amadas, nem ao menos podemos sofrer em lugar
delas, mas ter filhos é
ser gravemente responsável. Não apenas
por comida, escola, saúde, mas pela personalidade
desses filhos: mais complicado do que garantir uma sobrevivência
física saudável."
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| O
vício da paixão |
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Não é brincadeira: atração
é mesmo
uma questão de química
O
sentimento
mais sublime, e o mais exaltado pela arte e pela poesia
desde que a arte e a poesia existem, tornou-se agora
a fixação de categorias profissionais
bem diversas: os antropólogos, os bioquímicos
e os neurocientistas que se vêm dedicando a descobrir
como, e por quê, o mundo só parece fazer
sentido para nós se aquela determinada pessoa
estiver olhando nos nossos olhos. As conclusões
são no mínimo intrigantes. A paixão,
sugerem esses pesquisadores, é um tipo de dependência
química mais potente que o vício da heroína
e capaz de causar tanto ou mais estrago do que este
na paz de nossa vidinha diária. Mais: para alguns
visionários, chegará o dia em que a incapacidade
de sentir paixão (ou a propensão excessiva
a se apaixonar) poderá ser tratada por remédios,
como uma dor de cabeça ou uma bursite.
Há quatro anos, dois cientistas do University
College de Londres fizeram um experimento curioso. Selecionaram
estudantes que declaravam estar loucamente apaixonados
e mapearam sua atividade cerebral. Surpresa: o amor
romântico ativa uma área do cérebro
muito menor do que a envolvida, por exemplo, na amizade.
Trata-se também de uma região diferente
daquela que se acende quando somos presas de outras
emoções, como o medo ou a raiva. Os mecanismos
neurais postos em marcha pela paixão são
os mesmos que respondem pelas sensações
de euforia que nos invadem ao consumir drogas. "Somos
literalmente viciados em amor", disse Larry Young, pesquisador
americano da Universidade Emory, num artigo sobre o
tema na revista inglesa The Economist. Essa parte
do cérebro é chamada de reptiliana
por ter começado a se desenvolver há cerca
de 65 milhões de anos, muito antes que os mamíferos
se propagassem sobre o planeta. Essa região neuronal
está associada a nosso sistema de "recompensa".
Young explica que, sem ele, os seres vivos poderiam
se esquecer de comer, beber e fazer sexo, o que obviamente
traria péssimos resultados para a sobrevivência
das espécies. A razão pela qual sempre
nos lembramos de fazer essas coisas é que elas
nos proporcionam prazer e queremos voltar a esse prazer
em todas as oportunidades possíveis.
Os mecanismos bioquímicos envolvidos nessas operações
são, claro, incrivelmente complexos e estão
longe de ser desvendados em sua totalidade. Também
variam não só de espécie para espécie,
mas de indivíduo para indivíduo. Isso
sem falar nos fatores culturais imponderáveis
que agem sobre o ser humano. Mas, de forma geral, o
sexo libera no organismo fartas quantidades de uma substância
neurotransmissora chamada dopamina e aí
sentimos prazer. No nosso caso, outras substâncias
têm também papel preponderante na química
da paixão, como a oxitocina e a vasopressina.
Entre outras coisas, a oxitocina nos ajuda a identificar
características individuais de um parceiro de
forma que também elas se tornem fontes de prazer.
Mulheres que acabam de dar à luz têm seu
organismo inundado pela oxitocina. Ela ajuda a promover
a formação dos laços de ternura
entre mãe e filho. De certa forma, pode-se dizer
que a oxitocina é ainda o hormônio do instinto
maternal. Talvez atue com o mesmo poder agregador na
união que se forma entre os parceiros sexuais.
Esse coquetel químico, acredita-se, é
o que nos faz sentir tomados por uma energia extraordinária,
uma motivação quase obsessiva em obter
a recompensa desejada, e sentimentos de elação
ou tragédia conforme nos julguemos mais próximos
ou mais distantes dessa recompensa. Flechados por esse
Cupido neuroquímico, enfim, comportamo-nos todos
mais ou menos como a Scarlett O'Hara de ...E o Vento
Levou: somos incapazes de tirar Rhett Butler da
cabeça, não aceitamos "não" como
resposta e movemos montanhas, se necessário,
para estar nos braços dele mais uma vez.
A pesquisadora Helen Fisher, da universidade americana
Rutgers, acaba de lançar um livro Why
We Love: the Nature and Chemistry of Romantic Love,
ou Por que Amamos: a Natureza e a Química do
Amor Romântico que ilumina consideravelmente
esse cenário. Helen acredita que o amor ocorre
em três diferentes essências: desejo, amor
romântico e ligação duradoura. Elas
se manifestariam conforme o efeito pretendido por nossa
natureza respectivamente, o sexo, a formação
de pares ou a criação da prole. Apesar
de compartilharem alguns mecanismos, essas essências
são produzidas por sistemas independentes entre
si. É aí que mora o problema: mesmo sendo
independentes, elas freqüentemente trabalham nas
mais variadas combinações. Pode-se sentir,
simultaneamente, uma ligação profunda
com um parceiro estável, paixão por uma
segunda pessoa e desejo sexual por uma terceira
ou quarta, ou quantas forem. Em sociedade, esses impulsos
costumam ganhar o nome de traição e promiscuidade,
fonte de infindáveis dores de cabeça e,
em caso de descuido, de filhos inesperados. Por isso
mesmo eles são simultâneos. Conclui Helen
Fisher: "Não fomos construídos para ser
felizes, mas para nos reproduzir".
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