Edição 1843 . 3 de março de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Religião
Cruci-ficção

Mel Gibson transforma a Paixão de Cristo
num espetáculo de brutalidade e deturpação


Isabela Boscov

 
Divulgação
Jim Caviezel, com Gibson: Jesus retalhado pelos soldados romanos

Trailer de A Paixão de Cristo

Desde que Mel Gibson anunciou que iria dirigir um filme sobre as últimas doze horas de vida de Jesus, o projeto esteve cercado de polêmica – pelos rumores de que o calvário seria mostrado de maneira sangrenta e de que o roteiro continha alusões anti-semitas, e pelas credenciais religiosas de Gibson, que pertence a uma seita católica tradicionalista e ultraconservadora. A Paixão de Cristo estreou nos Estados Unidos na quarta-feira – mesmo dia em que VEJA assistiu ao filme – e confirmou todas essas suspeitas.

O dado mais insidioso na produção é que ela se baseia nos Evangelhos, mas extrai deles só o que lhe interessa, e colore aquilo que é apenas mencionado nas escrituras com tintas fortíssimas. Um exemplo está na cena em que uma turba furiosa, liderada pelo sumo sacerdote judeu Caifás, pede repetidas vezes a um incrédulo Pôncio Pilatos que execute Jesus. Um longo e bárbaro açoitamento não apazigua a multidão. Nem todos os evangelistas registram ter havido esse castigo e nenhum deles fala sobre sua violência ou duração. Gibson, numa interpretação sem respaldo na tradição cristã, mostra Jesus sendo retalhado pelos soldados romanos. Na seqüência, o governador romano Pilatos lava as mãos e cede à pressão, mandando o Nazareno para a cruz. O que Jesus diz a Pilatos é: "Quem a ti me entregou tem maior pecado". Essa frase, em que Jesus relativiza a culpa de Pilatos, só aparece no Evangelho de João, o mais místico e peculiar dos quatro. Para os historiadores, as fontes mais fidedignas são os escritos de Mateus, Marcos e Lucas. Na prática, A Paixão de Cristo devolve aos judeus a culpa pela morte de Jesus – depois de décadas de esforços da Igreja Católica, no espírito do Concílio Vaticano II, de erradicar o anti-semitismo de sua doutrina.

Numa entrevista à TV americana, Gibson disse que seu filme tinha de ser chocante para que o espectador se desse conta da enormidade do sacrifício de Jesus. Mas refutou as acusações de que A Paixão de Cristo alimenta o anti-semitismo. "Ser anti-semita é pecado, e portanto eu não o sou", disse à rede ABC, usando uma tangente para desmentir aquilo que seu filme mostra – não só os sacerdotes, mas também a massa de judeus, usando de artimanhas e de violência para obter a execução de Jesus. Hutton Gibson, pai de Mel, pertence à mesma seita que ele e é bem menos evasivo sobre suas crenças. Há poucos dias, Hutton pôs em dúvida a veracidade, ou ao menos as dimensões, do holocausto durante a II Guerra Mundial.

Em mais uma atitude desastrada, o que prova a falta de comando na Igreja, o Vaticano se manifestou por meio do arcebispo John Foley, presidente do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais. Ele disse que não vê elementos anti-semitas em A Paixão de Cristo. Parafraseando Jesus, Foley não sabe o que faz. O que se depreende do filme é, além da visão fundamentalista e anti-semita, o desejo de catequizar por meio do sadismo – já que, numa interpretação literal e restrita, a cada vez que pecamos devolvemos Cristo ao calvário. Não por coincidência, os segmentos que mais têm trabalhado pelo filme são os evangélicos que têm na conversão sua missão. Nos Estados Unidos, seitas alugaram ou até compraram cinemas para exibir A Paixão de Cristo.

 
 
 
 
topo voltar