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Religião
Cruci-ficção
Mel Gibson transforma a Paixão de Cristo
num espetáculo de brutalidade e deturpação

Isabela
Boscov
Divulgação
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| Jim
Caviezel, com Gibson: Jesus retalhado pelos soldados romanos
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Desde
que Mel Gibson anunciou que iria dirigir um filme sobre as últimas
doze horas de vida de Jesus, o projeto esteve cercado de polêmica
pelos rumores de que o calvário seria mostrado de
maneira sangrenta e de que o roteiro continha alusões anti-semitas,
e pelas credenciais religiosas de Gibson, que pertence a uma seita
católica tradicionalista e ultraconservadora. A Paixão
de Cristo estreou nos Estados Unidos na quarta-feira
mesmo dia em que VEJA assistiu ao filme e confirmou todas
essas suspeitas.
O
dado mais insidioso na produção é que ela se
baseia nos Evangelhos, mas extrai deles só o que lhe interessa,
e colore aquilo que é apenas mencionado nas escrituras com
tintas fortíssimas. Um exemplo está na cena em que
uma turba furiosa, liderada pelo sumo sacerdote judeu Caifás,
pede repetidas vezes a um incrédulo Pôncio Pilatos
que execute Jesus. Um longo e bárbaro açoitamento
não apazigua a multidão. Nem todos os evangelistas
registram ter havido esse castigo e nenhum deles fala sobre sua
violência ou duração. Gibson, numa interpretação
sem respaldo na tradição cristã, mostra Jesus
sendo retalhado pelos soldados romanos. Na seqüência,
o governador romano Pilatos lava as mãos e cede à
pressão, mandando o Nazareno para a cruz. O que Jesus diz
a Pilatos é: "Quem a ti me entregou tem maior pecado". Essa
frase, em que Jesus relativiza a culpa de Pilatos, só aparece
no Evangelho de João, o mais místico e peculiar dos
quatro. Para os historiadores, as fontes mais fidedignas são
os escritos de Mateus, Marcos e Lucas. Na prática, A Paixão
de Cristo devolve aos judeus a culpa pela morte de Jesus
depois de décadas de esforços da Igreja Católica,
no espírito do Concílio Vaticano II, de erradicar
o anti-semitismo de sua doutrina.
Numa
entrevista à TV americana, Gibson disse que seu filme tinha
de ser chocante para que o espectador se desse conta da enormidade
do sacrifício de Jesus. Mas refutou as acusações
de que A Paixão de Cristo alimenta o anti-semitismo.
"Ser anti-semita é pecado, e portanto eu não o sou",
disse à rede ABC, usando uma tangente para desmentir aquilo
que seu filme mostra não só os sacerdotes,
mas também a massa de judeus, usando de artimanhas e de violência
para obter a execução de Jesus. Hutton Gibson, pai
de Mel, pertence à mesma seita que ele e é bem menos
evasivo sobre suas crenças. Há poucos dias, Hutton
pôs em dúvida a veracidade, ou ao menos as dimensões,
do holocausto durante a II Guerra Mundial.
Em
mais uma atitude desastrada, o que prova a falta de comando na Igreja,
o Vaticano se manifestou por meio do arcebispo John Foley, presidente
do Conselho Pontifício para as Comunicações
Sociais. Ele disse que não vê elementos anti-semitas
em A Paixão de Cristo. Parafraseando Jesus, Foley
não sabe o que faz. O que se depreende do filme é,
além da visão fundamentalista e anti-semita, o desejo
de catequizar por meio do sadismo já que, numa interpretação
literal e restrita, a cada vez que pecamos devolvemos Cristo ao
calvário. Não por coincidência, os segmentos
que mais têm trabalhado pelo filme são os evangélicos
que têm na conversão sua missão. Nos Estados
Unidos, seitas alugaram ou até compraram cinemas para exibir
A Paixão de Cristo.
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