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Congresso
Agora
o problema é seu
Quando
os senadores se afastam
do cargo, as surpresas aparecem

Monica
Weinberg
Alan Marques/Folha Imagem
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Sérgio Lima/Folha Imagem
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| Amir
Lando (à esq.) foi nomeado ministro e deixou o
cargo para Calixto (à dir.), que foi impedido
de assumir devido a condenação |
Até
meados da década de 40, quando a cadeira de um senador ficava
vaga, o governo era obrigado a convocar uma nova eleição
para preencher o posto. Como o sistema era considerado muito trabalhoso
e caro, criou-se a figura do suplente. Um problema foi resolvido,
mas criou-se outro, que vez por outra ressurge no cenário
político. Foi o que aconteceu recentemente, quando o senador
Amir Lando, do PMDB de Rondônia, foi indicado para ocupar
o cargo de ministro da Previdência. Assim que a nomeação
foi confirmada pelo Diário Oficial, seu primeiro suplente,
o empresário Mário Calixto, foi convocado para tomar
posse no cargo de senador. Ele assumiu, mas apenas dez dias depois
foi destituído. O Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia
informou que ele tinha os direitos políticos suspensos por
causa de condenação criminal. Sobre ele pendiam 140
acusações ainda não apuradas. Foi chamado para
ocupar a vaga o segundo suplente, o médico Elifas Paulo da
Silva. O eleitorado recebeu mais uma surpresa quando os jornais
divulgaram que em sua ficha há dezessete acusações
na Justiça. Ele conseguiu assumir o posto porque não
foi condenado em nenhuma delas. O episódio deixou no ar uma
série de dúvidas a respeito do sistema eleitoral em
vigor.
Beto Barata/Folha Imagem
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| Saturnino
(foto) e Miranda: acordos e financiamento de campanha
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Era
de supor, pelo menos, que Lando soubesse um pouco mais da vida de
seus colegas de chapa. Afinal, foi ele quem pediu os votos e fez
promessas aos eleitores de seu Estado. No entanto, ele diz que nem
sequer participou da escolha dos nomes. Afirma que coube a seu partido,
o PMDB, fazer as indicações. "Na política,
não escolhemos os companheiros, os adversários nem
os suplentes", diz o atual ministro da Previdência. O caso
de Lando não é isolado. Empresário influente
em seu Estado, Calixto conseguiu o posto de primeiro suplente numa
costura partidária concluída apenas quatro dias antes
de encerrado o prazo permitido pela Justiça Eleitoral. O
médico Elifas surgiu como segundo suplente em razão
de ter representação política no interior do
Estado. Essa prática produz uma situação curiosa.
No momento de escolher os suplentes, os partidos tratam do assunto
como uma questão de ordem interna. Depois da eleição,
quando eles são chamados a assumir, todos os responsáveis
saem de cena e o problema fica com o eleitor. Dos 81 senadores atuais,
dez são suplentes que chegaram ao Parlamento sem ter passado
pelo crivo dos eleitores.
Os
suplentes que assumiram o posto deixado por Lando também
não sentem constrangimentos. Calixto diz que não só
ficou surpreso com a quantidade de processos contra ele, número
que veio à tona na imprensa depois da posse no Senado, como
não sabia que havia sido julgado culpado num deles. Ele foi
condenado porque seu jornal não deu o direito de resposta
a um opositor político no prazo que havia sido determinado
por lei. No caso mais complicado, ele é acusado de participar
de uma quadrilha que teria desviado dinheiro na Assembléia
Legislativa de seu Estado. O empresário se defende. "São
perseguições políticas, processos movidos por
pessoas que se sentiram ofendidas pelo que apareceu escrito em meus
jornais ou processos por impostos atrasados que eu já paguei",
diz. O médico Elifas Paulo, que atualmente ocupa a vaga de
senador no lugar de Lando, também não tem reparos
a fazer em sua conduta. Segundo ele, as acusações
que pesam contra ele são improcedentes. "Minha estréia
política foi um trauma. A onça pegou o Calixto e me
devorou também", diz.
Os
políticos que disputam o Senado usam as vagas de suplente
de várias formas. Alguns as guardam para parentes, outros
as reservam para os financiadores da campanha. Empresário
paulista que acumulou fortuna na Zona Franca de Manaus, Gilberto
Miranda (PMDB) passou anos no Senado sem nunca ter recebido um voto.
Ele colocava dinheiro na campanha de políticos bons de voto
que logo renunciavam em benefício mútuo. Em seu mandato
mais longo, permaneceu sete anos como senador na vaga deixada por
Amazonino Mendes, que assumiu a prefeitura de Manaus. Foi quase
um mandato inteiro. Também há casos em que a suplência
foi usada em barganhas políticas. O senador Saturnino Braga
(PT), do Rio de Janeiro, colocou na mesa de negociação
uma parte de seu mandato com o suplente de sua chapa, Carlos Lupi
(PDT). Segundo o acordo, Braga exerceria apenas a metade do mandato
e cederia o restante a Lupi. Porém o trato foi rompido. Braga
nunca deixou o Senado e seu suplente denunciou o caso. A suplência
também já alçou ao Congresso ilustres desconhecidos
da cena política, como o mestre-de-obras João França
Alves, que deixou o ramo de reformas em Roraima e virou senador
depois que o dono da vaga, Hélio Campos, faleceu com apenas
dois meses de mandato. Alves havia entrado na chapa por falta de
quadros no minúsculo partido a que pertencia Campos, o PMN.
O
Congresso discute uma ampla reforma do sistema político brasileiro.
A suplência para o cargo de senador não entrou na discussão,
porque qualquer mudança depende de uma reforma na Constituição.
Por enquanto, decidiu-se alterar apenas os dispositivos que não
envolvem mudanças constitucionais. Para o futuro, uma das
idéias é obrigar todos os candidatos da chapa que
disputa o Senado a pedir votos. É o mínimo que se
pode fazer para que os eleitores não se sintam vítimas
de embustes.
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