Edição 1843 . 3 de março de 2004

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Governo
Fotos Ana Araujo/Antonio Milena

A crise em torno do ex-assessor que
pedia propina reduz a estatura política
de José Dirceu e, numa prova de sua
ainda vasta importância no governo,
deixa o Planalto paralisado e desorientado,
num estupor do qual está difícil sair


Malu Gaspar

Notícias diárias sobre o governo Lula

Na quinta-feira passada, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, cumpriu uma agenda inusual. Ao lado de três colegas de ministério, embarcou na comitiva presidencial que inaugurou uma etapa de um projeto de urbanização em Belém, no Pará. Desde que assumiu o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já fez seis dezenas de viagens pelo país, mas o ministro José Dirceu participou de apenas três delas, todas realizadas no ano passado. À exceção dessas oportunidades, José Dirceu sempre permanecia em Brasília quando o presidente se ausentava. Tinha boas razões para fazê-lo. Com encargos de um chefe de governo, José Dirceu sempre teve muito o que fazer em Brasília e, além disso, jamais precisou exibir-se ao lado do presidente para encenar poder e prestígio. Como antes, ele segue com muitas tarefas a cumprir na capital. Mas, como nunca, ele agora precisa aparecer ao lado de Lula, no ritual de poder tão comum aos ministros menos cotados. Desde que seu assessor, o ex-subchefe de assuntos parlamentares Waldomiro Diniz, foi pilhado em vídeo pedindo propina para si e para o caixa eleitoral do PT, José Dirceu ficou visivelmente menor do que era.

José Dirceu mantém sua ascendência sobre os colegas de ministério, mas, acuado com o escândalo, tem-se entregado a tarefas que antes evitava. Nos últimos dias, na batalha para evitar que o Senado instalasse uma CPI sobre o caso, o ministro telefonou para parlamentares de pouca expressão com os quais não tinha o hábito de conversar. Em algumas ocasiões, evitou aparecer em público. Na noite da sexta-feira que antecedeu o Carnaval, quando o escândalo estava nas páginas dos jornais havia uma semana, o ministro recusou um convite de Lula para participar da solenidade de assinatura da medida provisória que proibiu o funcionamento das casas de bingo e caça-níqueis do país. Abatido, queria evitar o assédio da imprensa. Desde o início da crise, de acordo com a contabilidade de sua assessoria, já recebeu mais de 500 e-mails, telegramas e cartas de solidariedade, além de infindáveis telefonemas. Nas ligações a que atende, agradece as palavras de solidariedade, mas fala em tom seco. José Dirceu, na verdade, não gosta de receber essas manifestações. "E eu lá preciso de apoio?", reclama ele aos amigos mais próximos, repetindo o mantra oficial de que o escândalo não o envolve diretamente.

 
Fabio Motta/AE

"NADA PARA COMENTAR"
Marcelo Sereno, assessor especial de José Dirceu: "Não há nada para comentar a respeito da entrevista de um ressentido"

Cevado na militância política desde o movimento estudantil, José Dirceu, 57 anos, é uma máquina de fazer política e já provou que tem músculos para resistir a muitas adversidades. O que derrubou seu ânimo e sua energia nessa crise, porém, foi o fato de ser apontado como responsável pelo desgaste público na credibilidade da administração federal. "José Dirceu é um político impessoal", diz um ministro que participou das reuniões mais nervosas da cúpula do governo durante a crise. "Ele não analisa as coisas segundo sua preferência pessoal, mas segundo o que lhe parece ser mais importante para o governo." Por essa característica, tem sido especialmente difícil para José Dirceu lidar com o fato de que sua presença no governo pode ser um elemento complicador. Na semana que antecedeu o Carnaval, o ministro chegou a pedir demissão duas vezes ao presidente Lula, mas sempre sob uma atmosfera de cálculo político. "Ele não pediu demissão em tom de desespero, mas com o cerebralismo de quem imaginava que sua saída pudesse ser a melhor alternativa para o governo", completa o mesmo ministro.

"O Dirceu não saiu porque, na avaliação do núcleo de poder, o custo político para o governo seria ainda maior do que bancar sua permanência", diz um petista de altíssimo coturno. "Se não aparecer fato novo ele fica." Viver sob a tensão do surgimento de um fato novo, o que não é improvável na dinâmica denuncista da política brasileira, obriga José Dirceu a tomar uma posição defensiva. É um golpe duro para um ministro que pairava acima das divergências ministeriais e que, para muitos, tinha um poder autônomo no governo – um poder exercido com tamanho gosto e decisão que parecia não emanar do presidente Lula, mas ter sua própria fonte de vitalidade. Na semana passada, não surgiu um fato novo, mas apareceu mais um elemento complicador no caso. Em entrevista ao repórter de VEJA Ronaldo França, Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública do governo Lula, contou que foi avisado, ainda em 2002, de supostos esquemas de corrupção organizados por Waldomiro Diniz – e levou o fato ao conhecimento do comando do PT no Rio de Janeiro.

Sem identificar o nome de seu informante, Luiz Eduardo Soares conta que, impressionado com a denúncia segundo a qual Diniz estaria ganhando 300.000 reais por mês junto às casas de bingo, resolveu reunir-se com os principais articuladores políticos do PT para tratar do assunto. Na reunião, entre os presentes estava Marcelo Sereno, que na época era representante da direção nacional petista no Estado e hoje trabalha como assessor especial de José Dirceu, em Brasília. No encontro, Soares contou o que sabia e pediu que se investigasse a atuação de Waldomiro Diniz. Nada foi feito. A revelação de Luiz Eduardo Soares tem contornos sérios. Na prática, Soares está dizendo que um atual assessor de José Dirceu (Marcelo Sereno) sabia havia um bom tempo do comportamento irregular de outro assessor de José Dirceu (Waldomiro Diniz), mas nada fez. Mais tarde, os dois assessores viraram colegas, sob o comando de José Dirceu, e tudo seguiu na surdina.

"Não há nada para comentar a respeito da entrevista de um ressentido", manda dizer Marcelo Sereno, referindo-se ao fato de que Soares deixou o governo Lula sob a acusação de nepotismo. Tem mais. Soares ainda conta que, tempos depois de tomar conhecimento da atuação de Waldomiro Diniz, voltou a comentar o assunto, dessa vez num jantar com Antonio Palocci, então coordenador da campanha presidencial de Lula, e Luiz Dulci, atual secretário-geral do Palácio do Planalto. No jantar, Soares diz que nada se falou a respeito de Waldomiro Diniz, mas "surgiu o nome de outro assessor de José Dirceu que também estaria operando em diversas áreas". Soares também não identificou o nome desse "outro assessor". Os ministros Palocci e Dulci não se manifestaram sobre o assunto, mas comentaram com amigos que, no tal jantar, não houve nenhuma discussão sobre esquemas de corrupção – e, se houve, não passou de um comentário lateral qualquer. O Palácio do Planalto estranhou o fato de Luiz Eduardo Soares preservar o nome de seu informante e, ainda, de ter sido secretário de Segurança Pública no governo Lula e, mesmo assim, não ter tomado nenhuma providência sobre o assunto.

O governo ainda desconhece o impacto que as declarações de Luiz Eduardo Soares podem ter, mas, através de pesquisas encomendadas ao Ibope, descobriu que, até agora, a imagem do presidente da República sofreu apenas um pequeno abalo com a denúncia, mas a imagem do governo como um todo saiu mais arranhada. Para a opinião pública, portanto, o escândalo não chegou a comprometer a honestidade pessoal do presidente, mas sangrou a noção de que seu governo é eticamente rigoroso – e, por isso, José Dirceu pediu demissão ao presidente, imaginando que sua saída talvez fosse capaz de recuperar essa crença da população, mas o governo entendeu que o custo seria excessivamente alto. As pesquisas do Ibope, cujos resultados estão mantidos sob sigilo pelo Palácio do Planalto, mostraram ainda que a população recebeu com entusiasmo a decisão do presidente de proibir o funcionamento dos bingos. Neste caso, para os entrevistados, o governo agiu de forma a cortar um mal pela raiz. Em duas semanas, essa foi uma das poucas notícias alentadoras que o governo recebeu.

Parece irônico que o ministro incontrastavelmente mais poderoso do governo tenha protagonizado uma sucessão de ineditismos desastrosos: é o primeiro ministro a habitar o centro da primeira crise de primeira grandeza do governo petista. Na verdade, isso apenas vem reforçar a importância capital de José Dirceu na atual administração. Enquanto os escândalos giravam em torno de Benedita da Silva, que usou dinheiro público para uma viagem religiosa a Buenos Aires, ou sobre as suspeitas a respeito da conduta do ministro dos Transportes, Anderson Adauto, o governo reagia quase que em tom de galhofeira indiferença, convicto de que jamais essas denúncias ganhariam maiores proporções. Agora, porém, a flechada chegou ao coração do governo e provocou um quadro inédito de desorientação e paralisia. Só na semana passada o Planalto começou a dar sinais de que se recuperava do baque, mas, até então, reagira como um boxeador incapaz de orientar-se no ringue ou afastar-se das cordas. "O fato é que ficamos reféns de novos acontecimentos apurados pela imprensa e perdemos a iniciativa", reconhece um graduado assessor do Palácio do Planalto.

Na semana passada, o presidente Lula reuniu-se com cinco ministros, José Dirceu entre eles, para debater uma "agenda positiva", com a qual o governo pretende retomar a iniciativa política e desviar as atenções do caso Waldomiro Diniz. O encontro durou cerca de três horas e, naturalmente, não produziu nenhuma agenda, mas serviu para alinhar uma sucessão de fogos de artifício, um nome adequado aos programas que, barulhentos ou luminosos, têm o potencial de animar a festa e distrair a platéia. Da reunião, saiu o compromisso com a confecção de uma política industrial, numa medida muito mais retórica do que prática. Também se falou em "acelerar" – o verbo do poder por excelência – a reforma sindical e, quem sabe, a reforma política. A cúpula do governo ainda se mostrou otimista quanto à rápida aprovação da Lei de Falências e, no dia seguinte, anunciou-se, na viagem a Belém do Pará, a ampliação de 3,6 milhões para 4,5 milhões do número de famílias beneficiadas pelo programa Bolsa Família, que, segundo o presidente, será "o maior programa social do planeta Terra", com gastos da ordem de 5,3 bilhões de reais neste ano.

 
Celso Junior/AE
Nilton Fukuda/AE
BATALHA POR ATENÇÃO
No Palácio do Planalto, a cúpula do governo reúne-se para tentar montar uma "agenda positiva", capaz de tirar a crise do foco, e nas ruas funcionários das casas de bingo protestam contra a decisão do governo de fechar esses estabelecimentos: a opinião pública, porém, aprovou a idéia

Por ser tão essencial ao funcionamento do governo, a presença de José Dirceu, agora desgastada, terá reflexos na rotina da administração até que a situação possa voltar ao normal. "Por enquanto, o fato é que o José Dirceu e o governo viraram reféns do Jurassic Park", diz um assessor enfronhado na vida palaciana, numa referência irônica aos veteranos senadores José Sarney e Antonio Carlos Magalhães, que contribuíram para desarmar os espíritos e as esquadras de ataque no Senado. Como em política não existe lugar vazio, pois o vácuo é imediatamente preenchido pelo segundo da fila, o governo terá de enfrentar o avanço de seus aliados e, também, dos adversários que, discretamente, ajudaram o governo na crise. O PFL, um dos principais opositores públicos da administração petista, tem doutorado nas manhas desse jogo: na crise, com uma mão os pefelistas oferecem apoio e conforto e, com a outra, cobram a fatura, em geral na forma de poder, influência e cargos. No auge da crise que acabou resultando na cassação de Fernando Collor, os pefelistas fizeram exatamente isso.

Na semana passada, só os amigos mais chegados sustentavam a tese de que José Dirceu terá condições de se recuperar do abalo da crise e voltar a ter a estatura política de antes. Será um caso quase único e desde que não se descubra, como chega a sugerir o depoimento de Luiz Eduardo Soares, que a Casa Civil é um ninho de assessores com condutas heterodoxas. "Um homem que fica casado quatro anos com uma mulher sem revelar sua identidade é um cara forte", afirma um amigo, referindo-se ao período de clandestinidade sob a ditadura militar em que o ministro viveu disfarçado no Paraná. As pesquisas de opinião em poder do Planalto são o único motivo de alívio em torno do caso. Um político que acompanhou as exposições feitas sobre o assunto pelo publicitário Duda Mendonça conta que a crise não contaminou ainda toda a imagem de José Dirceu. A cúpula do governo se agarra a esse sinal de esperança e torce para que, até as eleições municipais, no segundo semestre do ano, a mancha esteja suficientemente esmaecida.

É lamentável que o PT, com sua história e sua tradição tão peculiares no cenário político nacional, se encontre agora enredado em escândalos políticos tão iguais aos de outros partidos que viviam sob sua mira. O governo petista está, na prática, pagando pela escolha de agir, durante a crise, à imagem e semelhança de todos os outros governos. Pela cartilha de sempre, um governo deve abafar as investigações, sepultando qualquer tentativa de CPI, minimizar o impacto das denúncias, criar um cenário atulhado de iniciativas administrativas supostamente inovadoras e recorrer a aliados, e mesmo aos adversários, em busca da sobrevivência. É uma fórmula que quase sempre funciona, mas, no caso do PT, deixará uma marca inconveniente, já que atuou de forma contrária a sua prática e, sobretudo, a seu discurso. Nas pesquisas do Ibope, constatou-se que 75% do eleitorado esperava que o governo apoiasse decididamente a instalação de uma CPI para investigar o assunto a fundo. O presidente Lula chegou a defender a idéia, mas acabou convencido de agir pelo velho formulário. Por isso, o governo faz questão de dizer que a Polícia Federal está empenhadíssima na investigação do caso, embora, passadas duas semanas de sua divulgação, Waldomiro Diniz não tenha ainda sequer prestado depoimento.

Dizer que o compromisso do PT ou do governo com a moralidade administrativa e a ética foi por água abaixo com o caso Waldomiro Diniz não é apenas um exagero – é também uma tolice. Mas não se pode negar que o governo perdeu uma excelente oportunidade para mostrar que suas práticas são distintas e que seu discurso ético, tão azeitado nas lidas da oposição, não era apenas para consumo externo. Incapaz de agir no governo à altura de sua trajetória na oposição, o PT mostrou-se tão desorientado quanto a própria cúpula da administração federal no curso da crise. Tanto que sua única contribuição foi a desastrosa sugestão de realizar uma manifestação nacional de desagravo ao ministro José Dirceu. Era uma idéia tão estapafúrdia, pois só ajudaria a tocar mais gasolina na fogueira, que chegou a ser alvo do deboche dos líderes oposicionistas e foi classificada pela própria cúpula do governo como "bobagem", "equívoco" e "loucura". Como ministro poderoso é ministro que ajuda o governo – e não o que precisa de ajuda –, a situação de Dirceu é incômoda. Vai ser preciso mais do que um mutirão petista para devolver o antes superministro a sua estatura pré-crise.

 

Denúncias serão investigadas

 
Liane Neves
LIGAÇÕES IMPRÓPRIAS
Revelações de José Vicente levaram a uma nova investigação no Ministério Público e a um pedido de CPI

Nesta semana, o ex-diretor-geral da Loteria do Estado do Rio Grande do Sul José Vicente Brizola dará um depoimento ao Ministério Público Estadual. Os promotores querem que faça oficialmente à Justiça as denúncias que revelou a VEJA, na semana passada, nas quais afirmou que o PT do Rio Grande do Sul negociou contribuições para o caixa dois da campanha majoritária do partido com empresários da jogatina. José Vicente afirmou que foi procurado pelo filho da então senadora Emília Fernandes para que ajudasse a arrecadar dinheiro junto aos empresários lotéricos. A própria senadora, que concorria à reeleição, teria afirmado a José Vicente que o dinheiro se destinaria à campanha majoritária do partido, que inclui as candidaturas a governador e senador. As conversas aconteceram depois de uma CPI estadual ter apontado ligações entre esses empresários e a contravenção.

As revelações de José Vicente também ensejaram um pedido de abertura de CPI na Assembléia Legislativa gaúcha. Os deputados esperam ter, até o fim desta semana, as dezenove assinaturas necessárias para iniciar a investigação. Caso aprovada, esta será a segunda CPI sobre o envolvimento do PT com esses empresários. Em 2001, a Assembléia investigou essas mesmas ligações. O caso acabou arquivado pelo Supremo Tribunal Federal, que alegou falta de provas. O depoimento pode ser o elo que faltava. "As denúncias de agora relatam uma prática desvendada no relatório final da CPI", afirma o presidente da Assembléia, deputado Vieira da Cunha, do PDT, relator da comissão parlamentar de inquérito anterior.

Apesar da insistência com que aparecem indícios de ligações suspeitas do PT gaúcho com a contravenção, a direção do partido parece não se importar. Na semana passada, o caminho adotado foi tentar desqualificar a denúncia de José Vicente. O presidente do PT, José Genoíno, afirmou que o ex-diretor-geral da Lotergs estaria ressentido porque não conseguiu um emprego público no governo federal, conforme esperava. Foi uma frase infeliz. Revelações desse tipo são movidas por motivações variadas, o que não as torna menos graves. Fosse assim, não se deveriam levar em consideração as acusações de Nicéa Pitta contra seu ex-marido, então prefeito de São Paulo, Celso Pitta. Os motivos eram passionais e eles não enfraqueceram em nada o coração das denúncias.

 

 
 
 
 
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