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Entrevista:
Patrick Guerriero
"Bush nos traiu"
Líder
dos homossexuais republicanos diz
que o presidente dos EUA quer transformar
os gays em cidadãos de segunda classe

Gabriela Carelli
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AP

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"A
maioria dos americanos é contra o casamento gay,
mas não quer pôr o dedo na Constituição
por um motivo como esse"
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Desde
que ingressou no Partido Republicano, há dez anos, o americano
Patrick Guerriero só coleciona vitórias. Foi três
vezes deputado no Estado de Massachusetts e duas vezes prefeito
de Melrose, cidade próxima a Boston. Também foi assessor
especial de quatro governadores. Atualmente, na condição
de diretor executivo do Log Cabin Republicans organização
conservadora que representa quase 1 milhão de homossexuais
em 46 Estados americanos , ele é o gay mais importante
do partido de George W. Bush. Desde a semana passada, Guerriero
é também um dos mais agressivos críticos do
presidente dos Estados Unidos. O motivo da divergência é
a proposta feita por Bush de adicionar à Constituição
uma emenda que proíba o casamento gay. Guerriero diz que
Bush está desesperado, perdeu a decência ao dispor
da vida dos homossexuais para tentar ganhar alguns votos e corre
sérios riscos de ser derrotado nas eleições
de novembro. Filho de um casal de imigrantes italianos, formado
em ciências políticas pela Universidade Católica
da América em Washington e católico praticante, Guerriero
até cogita votar na oposição nas eleições
presidenciais. Aos 35 anos, ele concedeu a seguinte entrevista a
VEJA.
Veja
O presidente George W. Bush já tinha deixado claro
havia bastante tempo que se opunha ao casamento gay. Por que só
agora o senhor decidiu romper com ele?
Guerriero Por duas razões. A primeira é
que não se trata apenas de uma proibição, e
sim de pura discriminação. O texto de emenda constitucional
proposto por Bush não se limita a proibir o casamento gay
de véu e grinalda e a cassar o direito de cada Estado de
decidir livremente sobre o assunto. Também não reconhece
a união civil e nenhum tipo de relação homossexual.
Isso impediria que os gays que vivem juntos viessem a desfrutar
qualquer um dos direitos do casal heterossexual: criar filhos, receber
herança do parceiro, ter acesso à previdência
social. Os gays seriam transformados em cidadãos de segunda
classe. Se uma emenda dessa é aprovada, pode prejudicar os
gays americanos por gerações.
Veja
Qual a segunda razão?
Guerriero Bush está mexendo num vespeiro. A Constituição
dos Estados Unidos é um dos bens mais preciosos dos americanos,
reconhecida por defender os direitos civis. Nunca foi aprovada uma
emenda para denegrir ou diminuir os direitos de um grupo. A maioria
dos americanos é contra o casamento gay, mas uma maioria
esmagadora é contra pôr o dedo na Constituição
por um motivo como esse. É uma atitude desesperada de um
presidente desesperado para se reeleger. Bush, na verdade, está
transformando o jogo político numa guerra cultural para dividir
o país e desviar debates. Isso não só é
perigoso como ultrapassa a linha da decência.
Veja
Mas, se a maioria dos americanos é contra o casamento
gay, não se trata de uma boa jogada eleitoral para Bush?
Guerriero Ele vai se dar mal por várias razões.
Nós, gays republicanos, estamos desapontados, nos sentimos
traídos. O grupo o apoiou em todas as iniciativas da Casa
Branca, da guerra contra o terror aos assuntos econômicos.
Sempre estivemos a seu lado. Agora, Bush está fazendo exatamente
o contrário do que prometeu no início da campanha
de 2000. Na época, ele se comportou como um republicano cheio
de compaixão. Onde está a compaixão em tirar
a felicidade e os direitos de pessoas que pagam impostos, cumprem
leis? Não há compaixão em usar a vida pessoal
de cidadãos como peça de uma campanha eleitoral. Nem
faz parte dos princípios conservadores mudar à toa
a Constituição.
Veja
O senhor acredita que o voto dos homossexuais faça
diferença nas eleições americanas?
Guerriero Tenho certeza. Os gays republicanos são
o maior grupo organizado do partido. Note que não seríamos
apenas nós que votaríamos contra a reeleição.
Estariam no mesmo barco os gays democratas, os gays sem partido,
todas as pessoas que não agüentam mais tanta intolerância
de Bush. Quem não é gay também está
cansado. O povo está farto da imprudência de políticos
que pensam em reescrever o documento mais valioso deste país,
que é a Constituição. Exceto aqueles de extrema
direita, os heterossexuais americanos não estão preocupados
com os gays, e sim com os outros problemas que os afligem. Falta
de emprego, instabilidade econômica, soldados que morrem no
Iraque, terrorismo. Não adianta se esconder atrás
da fraqueza dos outros. As pesquisas mostram que, como na eleição
passada, a disputa é acirrada. Cada voto vale ouro. Bush
entrou num cassino e resolveu apostar.
Veja
O senhor já sabe como votarão os gays republicanos?
Guerriero Boa parte do quase 1 milhão de gays
que integram nossa instituição já decidiu votar
nos democratas, outros 30% não vão votar e o restante
espera para ver se apóia ou não o presidente. Um bom
exemplo do poder das minorias ocorreu com o próprio George
Bush pai, em 1992. No desespero, ele decidiu apostar na guerra cultural
contra gays e lésbicas. Perdeu as eleições.
Foi justamente quando os gays republicanos decidiram formar os Log
Cabin Republicans para garantir seus direitos e evitar manobras
políticas desse tipo.
Veja
O que determina seu voto, o fato de ser homossexual ou
suas opiniões políticas?
Guerriero Durante toda a minha vida tentei pesar as duas
coisas. Mas não neste caso. A idéia de que eu possa
ser visto como uma pessoa inferior pela Constituição
é um acinte. Além disso, como político, tenho
de pensar nos outros na hora de decidir meu voto. Penso não
apenas em mim, mas nas famílias americanas, sejam gays ou
heterossexuais. Meu voto pode mudar a vida de milhões de
pessoas.
Veja
O senhor pensa em votar no candidato democrata, o senador
John Kerry?
Guerriero Eu não concordo com o senador John
Kerry em muitos assuntos. Ele defende a união civil entre
homossexuais, mas votou contra o casamento gay em 1996. Vou esperar
para ver. Em poucos dias iremos lançar um documento contra
Bush. Tudo vai depender do que está por vir.
Veja
O presidente Bush argumenta que o casamento é a
instituição mais importante da civilização
e que não pode ser desviado de sua rota cultural, religiosa
e natural sem prejudicar a sociedade. O que é o casamento,
na sua opinião?
Guerriero Há dois tipos de casamento. O primeiro
é o religioso, calcado na procriação. O outro
é o civil, que permite a duas pessoas que se amam comportar-se
como seres humanos. Ficar ao lado do parceiro no hospital, deixar
a ele uma pensão. É isso que defendo. Não estamos
mais na Idade da Pedra. Casamento não é só
uma forma de procriação. O casamento evoluiu, a sociedade
também. Casar é uma forma de duas pessoas expressarem
amor. Os problemas da América e do mundo são infidelidade,
divórcio, crianças abandonadas. Não adianta
blasfemar contra os gays. Pelo amor de Deus, já está
na hora de mudar o discurso!
Veja
Muitas pessoas acham pouco saudável que uma criança
seja criada por um casal gay. O que o senhor pensa a respeito?
Guerriero O que é uma família? Duas pessoas
que procriaram, trabalham 24 horas por dia e deixam o filho com
a babá? Há muitas assim, como há muitos gays
que cuidam melhor de suas crianças que um homem e uma mulher.
Hoje, nos Estados Unidos, há mais de 1 milhão de crianças
sendo criadas por gays e lésbicas. Imagine se estivessem
em creches. Elas precisam, mais do que tudo, de amor e apoio. E
há gays dispostos a lhes dar isso.
Veja
Qual a diferença entre ser gay republicano e gay
democrata?
Guerriero Nós, republicanos, acreditamos em impostos
mais baixos, num governo mais centrado. Os democratas são
favoráveis à maior quantidade de programas sociais,
por exemplo. São questões políticas. Mas há
uma diferença básica no que diz respeito aos republicanos.
A maioria de nós é religiosa, defende a família.
Defendemos a moral dentro do homossexualismo. Muitos gays se tornaram
republicanos exatamente porque hoje há uma quantidade muito
maior de famílias homossexuais. O que procuram é a
estabilidade que nós, conservadores, defendemos. Nosso grupo
dobrou em tamanho desde os atentados terroristas. É uma questão
de valores.
Veja
Os valores morais conservadores não repudiam o
homossexualismo?
Guerriero Muitas pessoas dizem que eu vivo minha
vida em contradição. Sou republicano no Estado menos
republicano dos Estados Unidos, Massachusetts, conhecido por seus
políticos democratas, como John Kennedy e, agora, John Kerry.
Outras não entendem como posso ser gay e pertencer ao partido
mais conservador do país. Ser católico praticante
causa ainda mais espanto. A questão é que eu acho
que se pode acreditar em instituições sem aceitá-las
integralmente. É possível mudá-las participando
do dia-a-dia dessas organizações. Não adianta
fazer como muitos por aí e esbravejar do lado de fora. Estou
no Partido Republicano porque concordo com alguns pontos de seu
programa. Não sou contra o aborto, por exemplo. Muitos de
meus colegas são. Luto pelo direito das mulheres de escolher
ter ou não filhos. Estou convencido de que a seção
gay republicana é a instituição que mais luta
pelos direitos civis, tanto dos homossexuais quanto dos heterossexuais.
Estamos na mesma agremiação que a extrema direita
para fazê-la calar quando necessário. Quanto mais próximo
do inimigo, mais dura e eficaz é a luta. Batemos de frente
com pessoas que não aceitam a Igreja separada do Estado,
que não acham conveniente usar camisinha. Os democratas estão
longe dessa gente. O mesmo acontece com a Igreja Católica.
Veja
O que há de errado com a Igreja, na sua opinião?
Guerriero Muita coisa. A Igreja deveria reconhecer que
todos são filhos de Deus, o que não ocorre. A linguagem
usada pela Igreja Católica faz com que algumas pessoas se
sintam bastardas, como se não fossem filhos do mesmo Deus.
É triste quando a Igreja é usada para levar certas
pessoas a não se sentirem verdadeiros seres humanos. Eu vou
à igreja sempre que posso. Viajo pelo país e freqüento
a paróquia mais próxima. A religião é
uma forma de acalentar as pessoas. Não é porque muitos
católicos são contra o homossexualismo que vou abandonar
meus princípios, vou esquecer minha educação
religiosa. Rezo ave-maria e pai-nosso quando tenho medo. Acredito
nisso.
Veja
Ser gay influenciou sua carreira?
Guerriero Minha orientação sexual nunca
atrapalhou minha vida. Também não melhorou. Não
me tornei político por causa disso, mas para melhorar a vida
das pessoas. O problema é que, ao admitir ser gay, você
ganha um rótulo e parece que sua vida tem obrigatoriamente
de girar em torno disso. A comunidade que me elegeu me julgou por
meu caráter, minhas credenciais e posições.
Nunca se importou com minha orientação sexual. Fui
reeleito com 80% dos votos para prefeito. Não é possível
que 80% da população de minha cidade, Melrose, seja
gay.
Veja
O senhor sofre alguma discriminação por
ser gay?
Guerriero Como muitas pessoas, eu tive dificuldades no
início. Muito jovem, eu já sabia que tinha algo diferente.
Mas naquele momento não fazia idéia do que era ser
homossexual. Minha geração não dispunha de
todas as informações na TV como a de hoje. Também
não havia pessoas que a representassem de forma digna, não
se falava no assunto com tanta transparência quanto atualmente.
Assumi minha homossexualidade na faculdade. Também não
houve problemas. Fiz parte do time de futebol americano. E nenhum
dos jogadores ousou me desrespeitar. Posso dizer que sou um dos
gays mais sortudos dos Estados Unidos. Tive muito apoio dos meus
pais, da minha cidade. Por sorte não nasci no grotão
americano, onde tudo teria sido bem mais difícil.
Veja
O senhor acredita ser um modelo para os jovens gays?
Guerriero Se um garoto de 15 anos não aceita
que é diferente dos colegas, se está lutando contra
sua orientação sexual, ter um modelo a seguir faz
muita diferença. Uma coisa é ligar a TV e ver os gays
estereotipados, uma espécie de caricatura do que é
ser gay. Outra é ver alguém bem-sucedido ocupando
um alto cargo no governo, bem-vestido, falando da mesma forma que
qualquer pessoa. Isso, mais do que ter o apoio dos pais ou dos colegas,
vai ajudá-lo a desenvolver o senso de dignidade. Eu me considero
um bom exemplo e espero ter ajudado muitos adolescentes a encontrar
o caminho certo.
Veja
O senhor é casado?
Guerriero Já tive relacionamentos estáveis
e sempre cogitei a idéia de me casar. Estou solteiro agora.
Mas nada me impede de encontrar a pessoa com quem eu quero dividir
minha vida. E não vai ser meu partido que vai me atrapalhar.
Veja
O senhor teve uma carreira meteórica. Nunca perdeu
uma eleição. Como se sente agora?
Guerriero Estou empenhado na batalha mais difícil
de minha carreira. É um momento de reflexão pessoal,
de olhar para dentro de mim mesmo e questionar por que eu me comprometi
com determinados grupos, até que ponto valeu a pena. Mas
eu continuo disposto a falar o que penso. É a primeira vez
que bato de frente dessa forma com meu partido. Infelizmente, é
necessário. Estamos vivendo o período mais negro da
política americana desde que iniciei minha carreira.
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