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Em
foco: Gustavo Franco
Dez anos da URV-real
"Dez
anos depois do lançamento da
nova moeda, a lição que se pode tirar
é abandonar a
postura de opor-se a uma medida apenas para
não colocar azeitona na empada alheia"
Quando
esta VEJA começar a chegar às bancas no sábado,
28 de fevereiro de 2004, estaremos completando dez anos da publicação
da Medida Provisória nº 434 (assinada na véspera,
dia 27), que introduziu a URV unidade real de valor ,
uma formidável inovação, uma segunda
moeda nacional, porém virtual, ou seja, "para servir exclusivamente
como padrão de valor monetário" (artigo 1º).
Ilustração Ale Setti
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A inflação beirava os 40% mensais, mas, em vista do
modo como foi construída, a URV era uma moeda estável,
superior às outras em circulação ou em uso
para indexar contratos, e por isso naturalmente as substituiu. Teve
início, assim, uma reação química em
cadeia, uma metamorfose espontânea nas relações
econômicas que trouxe a inflação no Brasil para
níveis internacionais no início de 1997 sem sustos,
confiscos nem recessão.
E
pouca gente lembra que, na partida, em seu artigo 2º, a MP
434 determinava que, quando a URV fosse emitida em forma de cédulas
e moedas, e assim passasse a circular fisicamente, e não
apenas na esfera dos contratos, teria seu nome mudado para real.
A
URV, portanto, era o real, que nasceu naquele momento, e
quatro meses depois, em 1º de julho, teve a sua maioridade,
ou a sua graduação bem-sucedida como a única
moeda nacional, pois nesse momento o cruzeiro real seria extinto,
tal como previsto na MP 434, e as novas cédulas e moedas
do real colocadas em circulação.
Faz
sentido, portanto, celebrar o 28 de fevereiro, tanto quanto o 1º
de julho. Ambas as datas são marcos fundamentais da redenção
de um dos nossos mais maltratados símbolos nacionais: a moeda.
Nem de longe a bandeira e o hino, e mesmo a Presidência, foram
tão enxovalhados.
A
temporada de balanços, revisões e cadernos especiais
começa agora, chegando ao clímax em 1º de julho.
Porém, à diferença de outros aniversários
no Plano Real, talvez possamos celebrar o fato de que faz dez anos
que temos uma moeda digna desse nome sem que isso se transforme
em evento político ou partidário, contra ou a favor.
Após dez anos, podíamos estipular que ficam prescritos
os dividendos políticos e também as críticas
peçonhentas e artificiais que, inclusive, não combinam
propriamente com o que vem fazendo o PT no governo. E assim podemos
olhar com orgulho para o nosso passado, celebrar uma conquista maravilhosa,
que é de todos, sem oportunismo nem recalques.
Nos
primeiros anos do real não tínhamos a cultura política
dos "temas suprapartidários", coisa que os países
do norte aprenderam durante as guerras mundiais. Aqui, a despeito
de estarmos vivendo uma hiperinflação, uma "urgência
nacional" inequívoca, a oposição fazia o possível
e o impossível, no Legislativo, na imprensa, nos bastidores
e nos tribunais, para atrapalhar a estabilização.
Era como se o país estivesse em guerra e a oposição
votasse contra as verbas para as Forças Armadas.
Uma
das lições que poderíamos tirar, dez anos depois,
e num momento em que o governo precisa da ajuda da oposição,
é a de que o primeiro capítulo da reforma política
deveria ser o abandono da cultura do "não colocar azeitona
na empada alheia mesmo quando for para o bem do país". Essa
lógica apenas diminui a política e os políticos.
A
passagem do tempo e a alternância no poder serviram para demonstrar
que os programas do governo e da oposição são
muito semelhantes, com imensas áreas de superposição,
e portanto existem muitos temas "suprapartidários". Nestes,
o país poderia caminhar mais depressa, pois os governos podem
começar onde pararam os anteriores sem que se tente desfazer
ou reinventar o passado.
Sim,
os progressos da "era FHC" (estabilização, responsabilidade
fiscal, privatização, abertura, saneamento do sistema
bancário, reconhecimento de esqueletos etc.) tiveram raízes
em governos anteriores, e os de agora apenas se tornam possíveis
porque as encrencas precedentes puderam ser ultrapassadas. O noticiário
escandaloso não deve ocultar o fato de que os progressos
têm sido cumulativos, o crescimento está sendo construído
e a democracia funciona para resolver problemas econômicos,
embora pudesse funcionar mais rápido sem aquele problema
da azeitona.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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