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Carta
ao leitor
A
civilização do campo
François Calil
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| Pesquisa
agrícola no Brasil: capital intensivo e conhecimento
produzem riqueza |
Uma
das verdades menos compreendidas pelos governantes é também
uma das mais cabalmente demonstradas pela história: produzir
riqueza é um desafio muito maior do que distribuí-la.
Produzir exige investimentos de longo prazo em educação
e pesquisa. Requer o estabelecimento de instituições
políticas sólidas e de regras que permitam aos mercados
funcionar sem sobressaltos que não os decorrentes dos riscos
próprios do empreendedorismo econômico. O distributivismo
puro e simples, sem a contrapartida sólida que torne possível
a recriação permanente da riqueza, acaba no aprofundamento
da infelicidade econômica que ele procurou debelar.
Uma
reportagem desta edição de VEJA mostra como dois cenários
contrastantes convivem no campo brasileiro. De um lado, há
um Brasil agrário que cria riqueza investindo em conhecimento,
abrindo mercados internos e desbravando as fronteiras do comércio
exterior. É o Brasil das safras de grãos, que, ano
após ano, supera seus próprios picos de produtividade.
Nele uma civilização se desenvolve em equilíbrio
e com razoável conforto nas cidades que rodeiam os grandes
pólos agropecuários. A área plantada de grãos
no Brasil fica em torno de 40 milhões de hectares. Na última
colheita, produziram-se 120 milhões de toneladas, com um
superávit no setor de 23 bilhões de dólares.
De
outro lado, existe o Brasil da estagnação, formado
por contingentes de pessoas desesperançadas e de boa-fé
atraídas por falsas promessas de melhoria de vida no campo
feitas por ativistas políticos. A reportagem revela que nos
últimos trinta anos sucessivos governos brasileiros distribuíram
glebas a 600.000 famílias. Somadas,
elas chegam a 30 milhões de hectares, tamanho aproximado,
portanto, ao da área plantada de grãos. Os resultados
são bem diferentes. Os programas de assentamento consumiram
24 bilhões de reais, com benefícios quase sempre desproporcionais
ao esforço e ao dinheiro despendidos. Muitas famílias
vivem ali em condições piores do que antes de ser
recrutadas. A reportagem de VEJA mostra que nos países de
agricultura desenvolvida os dois modelos são complementares
e funcionam bem, desde que orientados para o mercado, e não
para inflar bandeiras políticas radicais.
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