Edição 1843 . 3 de março de 2004

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Carta ao leitor
A civilização do campo


François Calil
Pesquisa agrícola no Brasil: capital intensivo e conhecimento produzem riqueza

Uma das verdades menos compreendidas pelos governantes é também uma das mais cabalmente demonstradas pela história: produzir riqueza é um desafio muito maior do que distribuí-la. Produzir exige investimentos de longo prazo em educação e pesquisa. Requer o estabelecimento de instituições políticas sólidas e de regras que permitam aos mercados funcionar sem sobressaltos que não os decorrentes dos riscos próprios do empreendedorismo econômico. O distributivismo puro e simples, sem a contrapartida sólida que torne possível a recriação permanente da riqueza, acaba no aprofundamento da infelicidade econômica que ele procurou debelar.

Uma reportagem desta edição de VEJA mostra como dois cenários contrastantes convivem no campo brasileiro. De um lado, há um Brasil agrário que cria riqueza investindo em conhecimento, abrindo mercados internos e desbravando as fronteiras do comércio exterior. É o Brasil das safras de grãos, que, ano após ano, supera seus próprios picos de produtividade. Nele uma civilização se desenvolve em equilíbrio e com razoável conforto nas cidades que rodeiam os grandes pólos agropecuários. A área plantada de grãos no Brasil fica em torno de 40 milhões de hectares. Na última colheita, produziram-se 120 milhões de toneladas, com um superávit no setor de 23 bilhões de dólares.

De outro lado, existe o Brasil da estagnação, formado por contingentes de pessoas desesperançadas e de boa-fé atraídas por falsas promessas de melhoria de vida no campo feitas por ativistas políticos. A reportagem revela que nos últimos trinta anos sucessivos governos brasileiros distribuíram glebas a 600.000 famílias. Somadas, elas chegam a 30 milhões de hectares, tamanho aproximado, portanto, ao da área plantada de grãos. Os resultados são bem diferentes. Os programas de assentamento consumiram 24 bilhões de reais, com benefícios quase sempre desproporcionais ao esforço e ao dinheiro despendidos. Muitas famílias vivem ali em condições piores do que antes de ser recrutadas. A reportagem de VEJA mostra que nos países de agricultura desenvolvida os dois modelos são complementares e funcionam bem, desde que orientados para o mercado, e não para inflar bandeiras políticas radicais.

 
 
 
 
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