Som sem idade

Madurões descobrem que ainda é
tempo de aprender um instrumento

Celso Masson

Luis Fernando Verissimo
e seu sax: "Só falta
apresentar-me num circo"
Foto: Edison Yara  

A idéia de que música é algo que se aprende na infância não é de todo falsa. Boa parte dos instrumentistas profissionais que você conhece, bem como daqueles amigos que abafam nas festinhas "debulhando" ao piano ou ao violão, aprenderam as primeiras notas por volta dos 5 anos de idade. Apesar disso, um número cada vez maior de adultos está deixando a vergonha de lado e dando os primeiros passos em vários instrumentos musicais. Isso ocorre porque nos dias de hoje há um número razoável de escolas e professores especializados em dar aulas para marmanjos. A Somusica, em Ipanema, Rio de Janeiro, tem mais alunos iniciantes acima de 30 anos do que crianças e adolescentes. A Music Center, em São Paulo, criou a Faculdade Livre da Idade Adulta, voltada para esse público. Seus alunos são pessoas que descobriram que a música pode ser um poderoso aliado para enfrentar as tensões da vida moderna. "Tocar é tão relaxante quanto sair para dançar", avalia o engenheiro eletrônico Celso Correa, de 29 anos, que tem aulas de bateria há dois meses.

Toda vez que o time do Corinthians se concentra para um jogo, o meia Edílson espanta a expectativa da partida tirando seu cavaquinho do estojo e puxando um pagode. Semanalmente, o arquiteto paulista Ricardo Julião, de 52 anos, acorda mais cedo, senta-se diante do piano e executa composições de Schumann e Chopin. A cada mês, o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo reúne-se com os cinco amigos que formam com ele o grupo Jazz 6, todos músicos de primeira, e entoa com seu sax alto melodias de Charlie Parker e Gerry Mulligan. Para conquistar esse prazer, eles tiveram de superar alguns obstáculos. O primeiro diz respeito ao desenvolvimento psicomotor. Como têm muito mais agilidade manual que o adulto, a criança e o adolescente evoluem com maior rapidez na técnica do instrumento. Para compensar essa limitação, os marmanjos precisam demonstrar enorme força de vontade e praticar em dobro. Julião, que começou a tocar com 42 anos, é um exemplo dessa perseverança. "Vou catando milho na pauta e fico repetindo aquilo no teclado até decorar", diz, satisfeito por conseguir dar conta de um repertório romântico, considerado difícil até para pianistas escolados.

O arquiteto Ricardo Julião estuda piano desde 1988: preguiça em ler partituras e habilidade para tocar peças de Chopin e Schumann
  Foto: Claudio Rossi

A ansiedade por bons resultados também costuma ser maior em quem já ultrapassou o Cabo da Boa Esperança. "Mesmo que não esteja se preparando para ser um concertista, o aluno mais velho tem dificuldade em lidar com suas limitações", diz Dora França, professora de piano há vinte anos. Baseada em sua experiência, ela afirma que não raro o aprendiz ameaça desistir quando percebe que empacou em determinado ponto. "É nessa hora que o professor deve enfatizar aspectos em que o aluno mostra alguma aptidão", ensina Hermelino Neder, compositor e educador. Uma estratégia para estimular os desanimados é recorrer a clássicos do cancioneiro popular, que, pelo fato de estar presentes na memória, facilitam o entendimento de conceitos complicados para um amador, tais como os de pulso e ritmo.

Aborrecidos e demorados, os métodos tradicionais são grande empecilho para os músicos tardios. Isso ocorre principalmente no piano, instrumento com séculos de tradição. Os professores, no entanto, estão cada vez mais pragmáticos. Eles chegaram à conclusão de que é necessário moldar suas aulas às características dos alunos. Afinal de contas, um candidato a diletante não quer passar a vida executando escalas, ainda que elas sejam importantes no processo de aprendizagem. Para o aluno iniciante, é bem mais gratificante aprender logo a tocar uma canção, mesmo que boba, do que ficar repetindo uma série de notas que não fazem sentido. "Estudo há um ano. Não sei ler partituras, mas aprendi a tirar canções a partir das cifras que saem em revistas especializadas", jacta-se Edílson, que já está ensinando um colega de profissão, Marcelinho Carioca, a tocar cavaquinho.

Edílson, do Corinthians: recorrendo ao cavaquinho para relaxar antes dos jogos
Foto: Claudio Rossi  

Circo — Assim como tenistas de fim de semana adoram exibir raquetes de última geração, como se isso melhorasse seu jogo, é comum que um amador caia na tentação de comprar instrumentos dignos de astros pop ou de estrelas da música erudita. Bobagem. Um diletante não precisa, nem deve, comprar de imediato um equipamento de nível profissional. Professores e escolas de música têm por norma indicar bons modelos para estudantes, em geral mais baratos (veja algumas sugestões nos quadros). Um exemplo de como um instrumento simples pode servir para o gasto é dado por Luis Fernando Verissimo. Ele retomou o saxofone, do qual tivera noções na adolescência, por volta dos 35 anos. Ficou cerca de vinte anos praticando em um instrumento de segunda linha. Só recentemente decidiu investir em uma marca do primeiro time, a francesa Selmer. "Chovem convites para eu tocar aqui e ali. Só falta agora me apresentar num circo", brinca Verissimo.




Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line