Livre adaptação

O loft, moradia sem paredes entre ambientes,
ganha adeptos (e divisórias) no Brasil

Quarto no mezanino,
cozinha e sala abertas:
espaço bacana, mas
bife só na casa da mãe

A idéia nasceu em Nova York, entre artistas e intelectuais com conta bancária magra. Por uma pechincha, alugava-se uma fábrica ou galpão abandonado e, sem erguer uma única parede interna, instalava-se ali um loft, tipo de moradia onde todos os ambientes são ajeitados no mesmo espaço amplo, ornado por pé-direito altíssimo, com fios, canos e tijolos aparentes. Ficou tão charmoso que, com a revitalização de bairros deteriorados, o loft virou jeito de morar chique e moderno para jovens profissionais cheios de dinheiro (e de preferência sem filhos). No Brasil, um público similar começa a buscar essa opção devassada de viver. Mas, claro, com as adaptações, além das paredes, que a cultura nacional impõe. Loft à brasileira tem lavabo fechado — quem vive sem ele? Tem área de serviço e dependências de empregada — quem vive sem ela? Mais portas e paredes. "O que caracteriza nosso loft não é o espaço aberto, é o mínimo de fechamento", resume José Luís Monteis, empreiteiro que está construindo um prédio de apartamentos "com conceito de loft" perto de São Paulo.

O sobrado que Neka
transformou em loft,
com banheira de ofurô
na sala: "Comunhão total"
  Foto: Claudio Rossi

"Procuro integrar ao máximo os ambientes, mas em geral me pedem, por exemplo, o quarto mais preservado. Nesses casos, uso vidro jateado", conforma-se o arquiteto Eser Seabra, que já instalou três lofts em Brasília. "O brasileiro se sente atraidíssimo pelo loft, mas depois cai na real e lembra que receberá visitas", explica o construtor paulista Otávio Zarvos, que está erguendo três edifícios do gênero. A própria iniciativa de construir prédios de lofts não tem nada a ver com a idéia original. "O problema é que, no Brasil, galpão e armazém abandonado são coisa de periferia ou de áreas decadentes, onde ninguém quer morar", diz a arquiteta paulista Layde Tuono. A saída é comprar um apartamento novinho que se encaixe no apregoado "conceito", ou então pôr abaixo as paredes de um dúplex ou de uma casa.

Inconvenientes — Com reforma radical, o apresentador Luciano Huck, 27 anos, imprimiu a tal alma de loft em seu "apartamento padrão de três quartos". Mas fez questão de portas de correr até o teto na sala de TV e no quarto. Morar num loft 100% legítimo, de fato, exige hábitos assépticos. "Comer bife, por exemplo, só na casa da mãe", brinca a arquiteta Brunete Fraccaroli, com a experiência de quem já decorou oito em São Paulo. Há outros inconvenientes. A banqueteira Neka Menna Barreto, 38 anos, demoliu o máximo suportável das paredes de seu sobrado paulistano de 240 metros quadrados, que agora tem até uma charmosa banheira de ofurô ao lado do sofá, e está nas nuvens. "Morar num loft é a comunhão total", enaltece. "Que é bonito, é", confirma sua empregada, Elaine Celis. "Só que, enquanto ela não acorda, não posso arrumar a cozinha, passar aspirador, adiantar o almoço, nada."




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