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Home  »  Revistas  »  Edição 2150 / 3 de fevereiro de 2010


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Os dias dos desesperados

No Haiti, o mesmo drama se repete sem parar:
a comida não chega e, se chega, não dá para todos


Vilma Gryzinksi

Jewel Samad/AFP

Cada um faz o que pode e, nas condições indizíveis do Haiti pós-terremoto, a divisão de trabalho era mais ou menos assim: o governo, praticamente reduzido a pó, cuidava da remoção dos corpos e as organizações internacionais se encarregavam de todo o resto. Nenhuma das partes estava fazendo exatamente um bom trabalho. É verdade que, quase três semanas depois da hecatombe, a maioria dos cadáveres de acesso relativamente fácil havia sido tirada das ruínas de Porto Príncipe – uns 170 000, segundo a contabilidade de impossível verificação do presidente René Préval. Mas muitos não tiveram nem a pouca dignidade das covas coletivas. Eram simplesmente jogados em lugares descampados na periferia da capital devastada. Para os vivos, as condições de subsistência continuavam desesperadoras. Nem todo o esforço mundial de ajuda conseguia vencer o oceano de necessidades e as ilhas de desorganização. O Programa Mundial de Alimentos, da ONU, disse que nunca enfrentou tantos problemas na assistência a vítimas de uma calamidade – e que só estava conseguindo colocar alguma coisa no estômago de um quarto dos 2 milhões de necessitados. A distribuição de comida ainda era aleatória e seguia o mesmo roteiro: começava com filas e acabava em caos. Em frente ao palácio presidencial, nas ruas ocupadas por desabrigados e transformadas em passarela de exibicionismos dos que estão lá para ajudar, e querem que o mundo inteiro veja, tropas uruguaias tiveram de conter os mais exaltados. Depois, desistiram. No dia seguinte, militares brasileiros recorreram a sprays de gás quando a comida acabou. Um repórter relatou os gritos da multidão: "Estamos com fome. Não aguentamos mais".
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