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Os dias dos desesperados
No Haiti, o mesmo drama se repete sem parar:
a comida não chega e, se chega, não dá para
todos

Vilma Gryzinksi
Jewel Samad/AFP
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Cada um faz o que
pode e, nas condições indizíveis do Haiti pós-terremoto, a divisão de trabalho era mais ou menos assim: o governo, praticamente reduzido a pó, cuidava da remoção dos corpos e as organizações
internacionais se encarregavam de todo o resto. Nenhuma das partes estava fazendo
exatamente um bom trabalho. É verdade que, quase três semanas depois
da hecatombe, a maioria dos cadáveres de acesso relativamente fácil havia sido tirada das ruínas de Porto Príncipe
uns 170 000, segundo a contabilidade de impossível verificação
do presidente René Préval. Mas muitos não tiveram nem a pouca
dignidade das covas coletivas. Eram simplesmente jogados em lugares descampados
na periferia da capital devastada. Para os vivos, as condições de subsistência continuavam desesperadoras. Nem todo o esforço
mundial de ajuda conseguia vencer o oceano de necessidades e as ilhas de desorganização.
O Programa Mundial de Alimentos, da ONU, disse que nunca enfrentou tantos problemas
na assistência a vítimas de uma calamidade e que só
estava conseguindo colocar alguma coisa no estômago de um quarto dos
2 milhões de necessitados. A distribuição de comida ainda
era aleatória e seguia o mesmo roteiro: começava com filas e acabava
em caos. Em frente ao palácio presidencial, nas ruas ocupadas por desabrigados
e transformadas em passarela de exibicionismos dos que estão lá
para ajudar, e querem que o mundo inteiro veja, tropas uruguaias tiveram
de conter os mais exaltados. Depois, desistiram. No dia seguinte, militares brasileiros
recorreram a sprays de gás quando a comida acabou. Um repórter relatou
os gritos da multidão: "Estamos com fome. Não aguentamos
mais".
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