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O verdadeiro agosto
pode ser novembro
O mês que
finda é sério candidato ao título de
mais cruel dos meses na política brasileira
Abril é o mais
cruel dos meses. O verso, do poeta T.S. Eliot, é tão
batido que exige se peça perdão por citá-lo. Vá lá:
comece-se com um pedido de perdão. Mas o verso vem ao
caso quando se especula, como se especulará nesta
página, sobre o hábito de conferir aos meses qualidades
de caráter, como se fossem gente. Atribuir crueldade a
um mês é coisa de poeta. Ou de astrólogo. Ou de
comentarista político. Esta última categoria estatuiu
que, no Brasil, o mais cruel dos meses é agosto. Será
mesmo? Há evidências de que novembro, mês que agora
chega ao fim, seja no mínimo concorrente forte ao
prestígio sinistro de agosto. Se não, façamos um
rápido retrospecto dos sobressaltos na História
brasileira nesse mês.
Doze de novembro de
1823. Nesse dia, pouco mais de um ano depois da
Independência, a tropa cercou o velho edifício colonial
da Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro, que sediava
nossa primeira Assembléia Constituinte. À frente da
tropa vinha o imperador dom Pedro I, com um ramo de
cafeeiro, um dos símbolos de seu poder, no chapéu
e adeus, Constituinte. O imperador, ainda mais
devastador no exercício da chefia do Estado do que no
livre curso que dava aos impulsos da libido, disse que
tinha convocado a Assembléia "a fim de salvar o
Brasil dos perigos que lhe estavam iminentes". Como
falhara nessa missão, estava dissolvida. Fim de
conversa. A aurora da democracia brasileira, encarnada na
Constituinte, mudava-se em aurora do arbítrio.
Quinze de novembro
de 1889. Tropas nas ruas do Rio de Janeiro outra vez.
Agora, tinham à frente um velho marechal doente,
arrancado da cama para a ocasião. O passeio é pelo
Campo de Santana, bom lugar para garbosas marchas a
cavalo. O povo, para citar outra frase batida do
jornalista Aristides Lobo , assistiu àquilo
"bestializado, sem saber o que significava, julgando
tratar-se de uma parada". A patuscada do Campo de
Santana mandou para o exílio a família real e passou
para a História com o pomposo nome de
"Proclamação da República".
Dez de novembro de
1937. À noite, pelo rádio, ouve-se aquela voz tão
familiar. "O homem de Estado, quando as
circunstâncias impõem uma decisão excepcional, (...)
não pode fugir ao dever de tomá-la." O tom era
grave. "Nos períodos de crise como o que
atravessamos, a democracia de partidos, em lugar de
oferecer segura oportunidade de crescimento e de
progresso, (...) subverte a hierarquia, ameaça a unidade
da pátria e põe em perigo a existência da nação,
extremando as competições e acendendo o facho da
discórdia civil." A voz era de Getúlio Vargas, que
bem ou mal, nos últimos três anos, fora presidente
constitucional. Agora, passava a ditador. Começava o
chamado Estado Novo.
O leitor quer mais?
Tem mais. Foi em novembro que o mesmo Getúlio, sete anos
antes, vitoriosa a Revolução de 30, fechou o Congresso
e decretou a intervenção nos Estados. E foi em novembro
de 1954 que o general Lott desferiu seu duplo golpe
no dia 11 para depor o presidente interino Carlos
Luz, presidente da Câmara dos Deputados, e no dia 21
para impedir que o presidente titular, Café Filho,
licenciado para tratamento de saúde, voltasse ao cargo.
Nas duas vezes seguiu-se o figurino de tropa na rua e
ocupação de prédios públicos e estações de rádio.
Lott limpava o país de conspiradores, segundo
justificou, para garantir a posse do presidente eleito,
Juscelino Kubitschek. O movimento foi o único, dos aqui
listados, a adotar um rótulo que honrava o mês de
novembro. Passou para a História como a
"novembrada".
Agosto deve sua
fama ao suicídio de um presidente (Getúlio Vargas,
1954) e à renúncia de outro (Jânio Quadros, 1961).
Apresenta uma trágica densidade, mas novembro também
merece alguma consideração. O que tem acontecido nesse
mês são abalos institucionais. Neste ano não chegamos
a tanto, mas novembro não deixou de ser amargo: o
governo Fernando Henrique Cardoso sofreu sua hora de
humilhação. Formalizou um acordo com o FMI, em primeiro
lugar, o que, se já não caracteriza uma vil renúncia
à soberania, significa sempre a admissão de que o
país, pelas próprias pernas, não vai mais. Viu-se
alvejado por um dossiê difamatório, em seguida, sem que
a reação aos caluniadores, ou pelo menos, na
ignorância destes, aos que tentaram espalhar a calúnia,
tenha sido à altura da ofensa. O marechal Deodoro,
comandante de outro novembro, uma vez desafiou seu
próprio ministro do Exército, Benjamin Constant, para
um duelo. Naquele tempo, questões de honra não saíam
tão barato. Enfim, o episódio das fitas resultou na
perda de um punhado de auxiliares, sob a pressão de um
senador histriônico, no questionamento das
privatizações e numa brigalhada entre supostos aliados.
O governo chega ao fim de novembro diminuído. Em
novembro do ano passado, sofria as conseqüências da
crise asiática. O verdadeiro agosto, na política
brasileira, pode ser novembro. E ao atual presidente, que
quis porque quis a reeleição, ainda restam quatro
novembros.

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