O COMEÇO DA VIDA AOS 40

Um número cada vez maior de brasileiras está
adiando para a meia-idade seus planos de ter filhos

Alice Granato

Fotos: Oscar Cabral
Ícone da beleza da mulher brasileira, Luiza Brunet está deslumbrante com uma nascente barriguinha de três meses. Já foi assim, dez anos atrás, quando ela teve Yasmin, sua primeira filha com o empresário Armando Fernandez, 50 anos, que a ajuda a dirigir seus negócios na área de moda. Agora, Luiza está se tornando um símbolo diferente. Mostra como se pode ser uma mãe também perfeita aos 36 anos. Na realidade, ela acha que está ainda melhor. "Sinto-me mais madura, realizada e preparada do que naquela época, quando perdi trabalhos importantes como modelo", diz. Agora, ela conta com uma assessora especial. Yasmin já procura cuidar da mãe e do futuro nenê. "A diferença de idade entre eles será muito boa para todos nós", afirma Luiza.

Uma espécie benéfica de surto vem atingindo algumas das mais belas e conhecidas musas nacionais nos últimos tempos. Há duas semanas, a atriz Marisa Orth, estrela do programa de humor Sai de Baixo, da Rede Globo, deu à luz na maternidade paulista Pro Matre o pequeno João Antônio, seu filho com o produtor de cinema Evandro Pereira. Cristiana Oliveira, grávida de quatro meses, e Tereza Seiblitz, de seis, só devem voltar às novelas no ano 2000. Dez anos depois do nascimento da filha, Yasmin, a hoje empresária Luiza Brunet cultiva uma barriguinha de três meses. Em comum entre elas há o fato de que, aos olhos da medicina, todas já entraram na idade considerada de maior risco para a gravidez. É um risco real, que aumenta de acordo com a idade. Marisa Orth e Cristiana Oliveira têm 35 anos. Luiza Brunet está com 36. Tereza Seiblitz, hoje com 34, terá o filho às vésperas de completar 35. Elas vão juntar-se a outras esdrelas que se tornaram mães em idade até mais adiantada. É o caso de Lilia Cabral, 40 anos, que teve sua primeira e única filha, Giulia, aos 38. Ou de Hortência, a ex-cestinha da Seleção Brasileira de Basquete, que teve João Victor aos 37 anos e Antonio Victor aos 38. Hoje está com 39.

Na década de 50, as mulheres se casavam muito cedo, pelos padrões de hoje, e tinham seus filhos entre 18 e 25 anos. Há vinte anos ainda eram raras as mulheres que engravidavam depois dos 30. Nessa época, ter filhos depois dos 35 significava risco de vida — para a mãe e o bebê. Os próprios médicos desaconselhavam as mulheres a engravidar nessa faixa etária. "Há cinqüenta anos, uma mulher de 40 já era avó", diz a obstetra Maria Augusta de Freitas, da maior maternidade do país, a Santa Joana, de São Paulo, onde se realizam 1.200 partos por mês. Ultimamente, contudo, um número cada vez maior de brasileiras procura retardar ao máximo a gravidez. De acordo com um levantamento da empresa de pesquisa Marplan, há dez anos 57% das mulheres tinham filhos entre 20 e 29 anos. Essa porcentagem caiu neste ano para 44%. Enquanto isso, a proporção das mulheres que têm filhos entre 30 e 44 anos subiu de 31% para 40% (veja quadro acima).

Desde que alcançou o estrelato, como a Magda do programa Sai de Baixo, da Rede Globo, a atriz Marisa Orth, 35 anos, tinha boas razões para pensar que chegara ao auge. "Sempre trabalhei como louca", diz ela. "Só fui pensar em filho dois anos atrás." Há duas semanas, Marisa Orth viveu, aí sim, o melhor momento de sua vida. Ele podia ser lido no brilho do olhar com que ela segurava na maternidade Pro Matre, em São Paulo, o recém-nascido João Antônio, com quase 4 quilos e 52 centímetros. O marido, o produtor de cinema Evandro Pereira, 33 anos, também estava nas alturas. Pela primeira vez, a carreira é secundária na vida de Marisa. Ela só voltará ao trabalho depois da licença, daqui a quatro meses. O lugar de Magda no Sai de Baixo está garantido.

As mães tardias são um fenômeno mundial. Um quarto das mulheres americanas está optando por engravidar com 35 anos ou mais. Exemplos dessa mudança podem ser observados entre as estrelas de Hollywood. Susan Sarandon teve seu primeiro filho com o ator Tim Robbins aos 42 anos. A belíssima Kim Basinger foi mãe pela primeira vez aos 42. Madonna, hoje com 40 anos, deu à luz aos 38. Na última década, a gravidez depois dos 35 anos cresceu 84% nos Estados Unidos. Ela é resultado de uma brutal mudança de comportamento que está redesenhando a família no mundo inteiro — e também no Brasil. "A gravidez tardia, que já era uma tendência forte nos países desenvolvidos, agora se está acentuando entre as brasileiras", diz o obstetra Antonio Fernandes Moron, responsável pelo departamento de medicina fetal da Universidade Federal de São Paulo.

Mais liberdade — Há vários motivos para isso. Um deles é que muitas mulheres passaram a adiar o sonho da maternidade para ter mais liberdade em sua carreira profissional. A formação escolar de uma pessoa com grau universitário exige hoje pelo menos quinze anos de estudo. Isso significa que dificilmente uma mulher está formada antes dos 22 ou 23 anos. Com uma pós-graduação, somam-se mais dois ou três anos. Além de uma boa formação acadêmica, é preciso acumular algum tempo de experiência no mercado de trabalho para consolidar uma carreira profissional bem-sucedida. Tudo isso tem contribuído para empurrar os planos de maternidade para depois dos 30. Ao engravidar e ter filhos mais tarde, as mulheres têm oportunidade, além de se estabilizar profissionalmente, de aproveitar um período da juventude no qual em outros tempos estariam às voltas com fraldas e mamadeiras.

Pode-se dizer que a bancária Selma Martins Vieira, de 36 anos, adiou sua gravidez em nome do amor. Queria, a qualquer custo, encontrar um companheiro que lhe desse mais "equilíbrio emocional". Só conseguiu isso agora. "Antes, eu amava de menos ou de mais", diz ela. Hoje, mantém um relacionamento estável com o namorado, José Luiz Araújo, gerente de sistemas da Quality Four. Ele é o pai de Manoela, que deve nascer quando Selma tiver 37 anos está grávida de quatro meses. O casal ainda vive separado, mas já planeja morar junto. "Não queria colocar um filho no mundo para tapar um buraco emocional", diz ela. "Agora estou pronta e independente, aconteça o que acontecer."

Nos últimos vinte anos, mais que dobrou a participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro. Entre os trabalhadores com idade de 20 a 25 anos, a participação das mulheres saltou de 16% para 38%, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea. Na faixa entre 25 e 30 anos, o aumento foi ainda mais expressivo: de 21% para 45%. Isso significa que hoje para cada homem trabalhando nessa idade há uma mulher no mercado de trabalho. Num mundo cada vez mais competitivo, em que é preciso preparar-se bem e trabalhar muito, é natural que as mulheres estejam adiando os planos de maternidade. "No começo da minha carreira, eu não pensava em engravidar", conta a atriz Tereza Seiblitz. "Estava tão envolvida com o trabalho que não cabia um bebê na minha vida." Agora, suas prioridades mudaram. "Hoje sei que, se perder um ou outro trabalho, vão aparecer outros em seguida", diz ela. A situação financeira de Tereza também melhorou: ela acaba de comprar o apartamento onde antes morava de aluguel, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro.

As mulheres agora querem aproveitar mais a vida. Antigamente, sua rotina era criar filhos e cuidar da casa dos 20 aos 45 anos. A partir daí, nada mais havia a esperar. Quarentona, tornava-se uma peça de museu, enfrentando monotonamente — às vezes depressivamente — os trinta ou quarenta anos de virtual inutilidade que a levariam à reta final. Hoje, entre os 20 e os 40 anos, a mulher quer firmar-se como profissional fora de casa, ganhar independência, ter tempo para o romance, as viagens, o sonho — sem as responsabilidades de uma dona de casa com uma penca de crianças. Ter filhos mais tarde pode ser também compensador do ponto de vista afetivo. Mulheres mais maduras geralmente encaram a maternidade com mais serenidade. Uma razão é que não precisam sentir-se roubadas em anos de conquista profissional e de satisfações pessoais em decorrência da chegada prematura dos filhos. Nem todas terão esse tipo de conflito psicológico com a maternidade, mas muitas mulheres na casa dos 35, 37 anos costumam dizer que dificilmente ficariam tão em paz consigo próprias e com as crianças se tivessem dado à luz aos 22 anos.

A atriz Lilia Cabral, 40 anos, sempre soube que não seria mãe cedo. Queria antes se firmar na carreira, ter prestígio e credibilidade, e também poder se sustentar. Quando desejou um filho, demorou a engravidar. Isso já havia acontecido com sua mãe, que só a teve aos 40 anos. Lilia engravidou somente aos 38, depois de perder três bebês. Giulia, sua filha com o economista Iwan Figueiredo, com quem a atriz se casou no civil há um mês, tem agora 1 ano e 9 meses. "Minha mãe faleceu quando eu tinha 30 anos, antes de ver meu sucesso", diz Lilia. "Minha recompensa é ver que Giulia me acompanha na TV e, embora ainda não entenda direito o que faço, se diverte bastante."

Tecnicamente, uma mulher de 40 anos enfrenta no parto os mesmos riscos de uma de 20. O que aumenta de forma exponencial é o risco de o bebê ter algum tipo de malformação congênita. A probabilidade de ter um filho com síndrome de Down, que causa retardamento mental e deformidades físicas, é de um em 1.667 aos 20 anos. Aos 35, essa probabilidade aumenta: um em cada 385 bebês nascidos de mães nessa idade tem síndrome de Down. Aos 40, a proporção passa a ser de um em 106. O motivo é que, ao contrário do que ocorre com os homens, cujos espermatozóides são sempre renovados, as mulheres produzem óvulos uma só vez — e, com a idade, eles vão envelhecendo. Essa circunstância biológica aumenta a possibilidade de problemas genéticos na reprodução acima dos 30, 35 anos.

Em 55% dos casos em que o bebê terá algum defeito físico, a própria natureza se encarrega de abortá-lo antes de completada a gestação. Nos outros 45% dos casos, pode-se recorrer ao aborto induzido. O fato é que, no Brasil, a lei proíbe o aborto, mesmo quando se constatam problemas de malformação no feto. Ainda assim, um grande número de mulheres tem obtido autorização para abortar recorrendo a juízes que fazem uma interpretação mais benevolente da lei. "O ideal seria livrar as mulheres do constrangimento de pedir uma autorização judicial nesses casos", afirma o obstetra Antonio Moron, que tem tese de doutorado sobre o assunto. "A lei que permite a interrupção da gravidez com problemas, sem interferência judicial, já foi aprovada até em países mais conservadores."

A promotora de eventos carioca Ana Beatriz D'Orey, de 36 anos, diz que fez uma promessa a si mesma. "Coloquei na cabeça que só iria engravidar no dia em que recebesse um telefonema de uma amiga fazendo um convite para uma viagem e pudesse recusar sem me sentir mal", diz ela. Casada com o empresário Luiz Guilherme D'Orey, de 38 anos, mãe de Luiz Felipe, de 5 anos, e de Joaquim Pedro, de apenas 5 meses, ela sempre foi aventureira. "Bibi", como é conhecida, tinha medo de ter filhos e depois culpá-los por perder oportunidades. Descobriu que podia ser mãe e não perder nada. Na sexta-feira passada, deixou o pequeno Joaquim Pedro com a mãe e a babá para fazer compras de Natal em Nova York.

Embora os riscos de uma gravidez tardia ainda sejam grandes, nos últimos tempos melhorou muito a capacidade da medicina de monitorar o desenvolvimento do feto com exames mais modernos, eficazes e baratos. É uma segurança e tanto para as mulheres que adiam seus planos de gravidez para a meia-idade. Acaba de chegar ao Brasil o Papp-a, um exame de sangue capaz de detectar anomalias em 80% dos fetos já a partir de nove semanas de gestação. Custa apenas 50 reais e não oferece nenhum risco. Os principais exames ainda são a biópsia de vilocorial e a amniocentese, cujo custo caiu de 1.500 para 450 reais nos últimos doze anos. Na biópsia, feita por volta da décima semana de gestação, retira-se com uma agulha uma amostra microscópica da placenta. No exame de amniocentese, realizado a partir da 13ª semana de gestação, é analisada uma pequena parte do líquido que envolve o feto dentro do útero. Nos dois casos, é possível saber com 100% de segurança se o feto tem determinada anomalia cromossômica. No Brasil, alguns convênios médicos já cobrem esses tipos de exame. "A procura por eles aumentou, a concorrência cresceu e os preços baixaram", diz o radiologista Alberto Eiger, um dos primeiros a trazer os exames para o país.

Segurança emocional — Além de dar mais liberdade às mulheres e contribuir para carreiras bem-sucedidas, ter filhos mais tarde oferece outras vantagens. Na primeira vez que engravidou, a atriz Cristiana Oliveira engordou 38 quilos. Foi resultado da falta de planejamento e da ansiedade pela chegada do primeiro filho. Agora, toma todos os cuidados necessários para manter a forma. Na prática, o fato de as mães mais maduras cuidarem melhor do corpo e prevenirem-se contra doenças contribui para que os filhos sejam mais saudáveis e bem-cuidados. Mães que tiveram o primeiro filho ainda novas e outro depois dos 35 dizem que a segunda experiência costuma ser bem mais tranqüila. "Na primeira febre do meu primeiro filho, eu e meu marido passamos a noite ajoelhados no quarto dele, achando que não ia sobreviver", conta a promotora de eventos Ana Beatriz D'Orey, de 36 anos, mãe de um menino de 5 anos e de outro de apenas 5 meses. "Meu segundo filho está com uma febrinha hoje e amanhã vou a Nova York fazer compras de Natal. Vou tranqüila porque sei que ele ficará bem com a avó e a babá."

A atriz Luiza Tomé, de 35 anos, acostumou-se com a imagem de musa sensual que ela mesma construiu em sua carreira. Agora, contudo, está se habituando a não ser mais a estrela dentro de casa. Lá, reina um novo astro: Bruno, de 8 meses, louro, boca carnuda, olhos azuis. "Ele é lindo, lindo, lindo de morrer", diz ela. Luiza vive com o marido, o empresário Adriano Facchini, de 33 anos, o "grande amor" por quem ela diz ter esperado toda a vida, numa mansão no bairro do Morumbi, em São Paulo. Há porta-retratos da família em todos os cantos. A atriz chega a desmarcar compromissos para acompanhar de perto todos os passos do bebê. Podem ser coisas simples, como recentemente, quando Bruno experimentou comer peixe pela primeira vez. Torceu o nariz.

As crianças também ganham muito com a maior segurança emocional e afetiva dos pais. "Nessa altura, os pais têm uma disponibilidade para os filhos que não teriam no início da vida", diz a psicóloga clínica Ângela Massi, que trabalha há 25 anos com pais e crianças. "Como eles têm emocionalmente mais quilômetros rodados, podem passar aos filhos mais tranqüilidade e segurança." Não são raros os pais que, até involuntariamente, transferem aos filhos a responsabilidade por não ter realizado o que gostariam na juventude. Isso raramente acontece com pais e mães mais maduros. "Se eu tivesse parado de jogar basquete para ter meus filhos mais cedo, poderia agora estar colocando sobre eles a culpa de algum fracasso", diz a ex-rainha do basquete Hortência, que se casou aos 29 anos, com o empresário José Victor Oliva, mas só teve o primeiro filho aos 37. "Antes de engravidar, eu queria ser campeã do mundo. Tive meus filhos na hora certa, quando me sentia completa na profissão e com um casamento sólido."

Autonomia financeira — Os pais na meia-idade geralmente não estão mais naquela fase em que têm de fazer despesas básicas na vida de um casal, como juntar dinheiro para financiar a casa própria, pagar o consórcio do primeiro carro ou comprar os móveis a prestação. Já conquistaram boa autonomia financeira para dar aos filhos melhores escolas e mais oportunidades de lazer e conforto material. É na fase madura que a conta bancária costuma estar mais folgada e a vida conjugal estabilizada. Para os filhos que estão chegando é, portanto, um bom negócio. "Acho importante meus filhos terem nascido em uma época em que posso oferecer a eles mais qualidade de vida e bons estudos", afirma Ana Beatriz D'Orey.

Outro fator que contribui para a gravidez tardia é o segundo casamento, cada vez mais comum nas famílias brasileiras. Assim, mulheres que se separaram sem ter filhos do primeiro marido se vêem na condição de poder engravidar do novo parceiro. É o caso da atriz Lilia Cabral. No primeiro casamento, com o cineasta João Henrique Jardim, ela não teve filhos. Agora, tem uma filha de 1 ano e 9 meses com o segundo marido, o economista Iwan Figueiredo, com quem se casou formalmente no civil há um mês. É também mais freqüente que mulheres com filhos do primeiro casamento decidam ter outros com o novo marido. É o caso da professora universitária Rosângela Aquino Accioly, de 41 anos. Com uma filha de 16 anos do primeiro casamento, Rosângela engravidou de novo aos 40 e hoje tem Pedro, de 1 ano. "A experiência me fez rejuvenescer muito, é maravilhosa", diz ela. Aconteceu o mesmo com a atriz Cristiana Oliveira. Mãe de Rafaella, uma adolescente de 12 anos, ela está esperando um filho do gerente comercial Marcos Sampaio, com quem vive há quase cinco anos. "Infelizmente, minha primeira filha sofreu com a minha inexperiência", lamenta. "Nasceu em uma época que eu era uma jovem aventureira." O segundo filho chegará em uma fase estável, em que a atriz terá não só uma mas duas casas, em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. "Não há nada que eu queira mais agora do que curtir meus filhos e meu marido", afirma Cristiana. "Estou mais família do que nunca."

A professora universitária Rosângela Accioly, de 41 anos, tem uma dupla experiência com a maternidade. Sua filha Roberta, de 16 anos, é madrinha e escolheu o nome do irmão menor, Pedro, de 1 ano. Rosângela casou-se pela segunda vez há cinco anos. O marido, o economis-ta Guilherme Arruda Accioly, de 39 anos, que ainda não tinha sido pai, fez campanha para que ela engravidasse. Não foi fácil. Depois de perder um bebê, Rosângela achava que não iria mais conseguir, até que finalmente veio a boa notícia. Ter um filho aos 40 fez com que a professora se sentisse uma menina.

Retardar a gravidez é mais comum entre famílias de maior renda e instrução. Um levantamento feito em 1996 pela Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil, uma organização não governamental voltada para a saúde reprodutiva, mostrou que, em média, as mulheres das regiões Norte e Nordeste, onde se concentra a população mais pobre, têm filhos bem mais cedo que as que vivem no Rio, onde a renda e a qualidade de vida são melhores. Muda também de acordo com o grau de instrução. Mulheres com 2º grau completo têm filhos cinco anos mais tarde que as analfabetas. Isso significa que o planejamento dos filhos é também um indicador importante de desenvolvimento. "Ter esperado tantos anos para engravidar me fez ser uma mãe muito mais completa", acredita a atriz Luiza Tomé, mãe do pequeno Bruno, de 8 meses. "Nosso filho chegou no momento ideal para mim e meu marido. E iluminou nossa vida em todos os sentidos."

É impossível entender a mudança de comportamento na família resultante da gravidez na meia-idade sem observar a curva de crescimento da expectativa de vida. Esse é um dos feitos mais extraordinários na humanidade neste século. No passado, antes dos antibióticos, das vacinas e dos cuidados com saneamento e higiene, a vida era uma corrida contra o tempo. A expectativa média de vida da população até o começo da Revolução Industrial, no século XVIII, não passava dos 40 anos. Alexandre, o Grande, rei da Macedônia no século IV a.C., morreu aos 33 anos. Luís XIII, rei da França entre 1610 e 1643, morreu aos 42. Mozart, um dos maiores compositores de todos os tempos, aos 35 anos. Schubert, outro grande compositor, aos 31. Até meados do século passado, metade das crianças morria antes dos 5 anos, vítimas de moléstias infecciosas, como tifo, varíola, diarréia, tuberculose ou mesmo gripe — doenças cujo controle e cura hoje são banais para a medicina. A mortalidade infantil era altíssima e não poupava pobres ou ricos, plebeus ou nobres. No final do século XVII, a rainha da Grã-Bretanha Anne Stuart ficou grávida dezoito vezes e apenas cinco filhos seus chegaram a nascer. Destes, só um sobreviveu à infância, mas morreu antes de assumir o trono. Foi o fim da dinastia dos Stuart na Inglaterra. Um século mais tarde, Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos e autor da Declaração de Independência Americana, teve sete filhos legítimos. Apenas dois sobreviveram. Sua mulher, Martha, é também um bom exemplo da curta duração da vida naquele período: morreu aos 34 anos. Depois da morte de Martha, Jefferson teve outros filhos ilegítimos, com uma escrava.

Numa época em que a maioria dos seres humanos vivia na ignorância e na pobreza, uma das principais estratégias de sobrevivência e perpetuação da espécie consistia em ter uma grande prole e o mais cedo possível. Ter bastantes filhos era uma forma de assegurar que pelo menos alguns deles sobreviveriam à mortalidade infantil. Tê-los mais cedo era fundamental para que fossem educados e alimentados antes que os pais morressem. Neste século, graças aos avanços da medicina na prevenção e na cura das doenças, a expectativa de vida quase dobrou. Hoje vivem-se, em média, 68 anos nos países desenvolvidos. No Brasil, setenta anos. São essas mudanças que estão favorecendo a maternidade tardia. Atualmente, uma mulher pode ter um filho aos 35 ou 40 — e ainda restarão outros quarenta para orientá-lo e educá-lo até bem depois de atingida a fase adulta.




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