Babá química

Ritalina, o calmante para crianças, vira
solução fácil para indisciplina infantil

Foto: Egberto Nogueira
Agressividade, bagunça e falta de atenção em sala
de aula: problemas antigos às vezes são doença


"Remédios como esse são perigosos e exigem cautela. Muitas vezes o diagnóstico da hiperatividade é malfeito."
Mauro Muszkat, neurologista da Universidade Federal de São Paulo

Anote aí. Depois do Prozac para a depressão e do Viagra para a impotência, agora a droga da vez é um poderoso calmante para crianças. Trata-se do Ritalin, que no Brasil recebeu o nome de Ritalina. No ano passado, o remédio fabricado pelo laboratório Novartis foi ministrado a 2 milhões de americanos, cifra suficiente para colocá-lo na galeria dos mais vendidos. Usada no tratamento do transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, um distúrbio psiquiátrico que deixa as crianças agitadas e com dificuldade de concentração, a Ritalina teve meio milhão de prescrições em 1995, apenas para crianças entre 3 e 6 anos. A explosão de consumo já deixou de ser tema de conversa apenas de psiquiatras infantis. Professores, pais, pedagogos e médicos reuniram-se há duas semanas num congresso em Bethesda, Maryland, para dimensionar as vantagens e desvantagens da prescrição em massa da Ritalina. Chegaram à conclusão de que a droga está sendo usada em crianças absolutamente normais, que não precisariam do remédio. Pior: essa superexposição ao medicamento tem efeitos colaterais ainda em grande parte desconhecidos, sem falar de dores de cabeça, perda do apetite e insônia.

O calmante virou uma das tantas festas químicas que de vez em quando tomam conta dos Estados Unidos porque tem efeito comprovado sobre os fedelhos endiabrados. Ao contrário de outras novidades, criadas e desenvolvidas nos anos 90, a Ritalina parece ser daquelas drogas que tiveram de esperar décadas para arrumar um espaço no mercado. Velha de quase cinqüenta anos, a Ritalina não colava numa época em que os pais e professores exerciam domínio irrestrito, um olhar de repreensão bastando para pôr a criança no prumo. Hoje, prefere-se indicar a Ritalina a enfrentar o desgaste de reprimir um bagunceiro. Todos aqueles alunos que não prestam atenção no que a professora fala, todos os que conversam durante as aulas e não conseguem ficar quietos em suas cadeiras são candidatos em potencial ao uso do remédio. É mais fácil tratar o menino como doente do que assumir que um adulto — no caso, o professor — não consegue controlá-lo. "Não adianta ministrar o remédio e falhar na hora de ensinar", aponta Stephen Hinshaw, do programa de treinamento de psicologia clínica da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

E a Ritalina funciona mesmo. Foi assim com um paciente do psiquiatra Haim Grunspun, professor de psiquiatria infantil da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O menino, de 9 anos, era um terror. Derrubava objetos de cima dos móveis. Ameaçava botar fogo na casa. Corria atrás do irmão mais novo, algumas vezes com um martelo na mão. Durante um ano, submeteu-se a tratamento duro, que envolveu a ajuda de um psicólogo, de um psicopedagogo e da própria família. O psicólogo vinha com aquelas brincadeirinhas que eles chamam de "ludoterapia". A psicopedagoga ensinava truques para decorar trechos das matérias escolares. A família foi orientada a ressaltar as qualidades do menino, para não prejudicar sua auto-estima. Não adiantou. Então, entrou o psiquiatra, com a Ritalina. O tratamento incluía duas pílulas por dia. No primeiro mês, o menino já estava mais tranqüilo. Depois de tomar a droga durante dois anos, livrou-se da hiperatividade.

O chato é que qualquer manobra do tipo "sossega leão" tem seu preço. Os riscos da Ritalina até poderiam valer a pena, uma vez constatado o fracasso de outros recursos. Isso vale para qualquer remédio. O que preocupa os especialistas nos Estados Unidos é que a Ritalina hoje é a saída mais fácil. A revista Time da semana passada contém o depoimento de uma mulher que conta que o médico receitou o calmante para seu filho, de 5 anos, com base apenas num relatório escolar e numa consulta de quinze minutos. Não é casual que os professores tenham um papel tão importante nas prescrições. É na sala de aula que os distúrbios da hiperatividade ficam mais evidentes, já que a dificuldade de concentração, com os conseqüentes prejuízos no desempenho escolar, são os principais sintomas do problema. Ninguém se importa se a criança não prestar atenção ao que faz em casa. Mas qualquer pai se sente desconfortável quando o boletim do filho mostra que ele não consegue acompanhar as aulas.

O debate americano já coloca os psiquiatras brasileiros em estado de alerta e por uma razão muito simples. O Brasil sempre acaba jogando goela abaixo todos os modismos lançados pela indústria farmacêutica. Estima-se que cerca de 2.000 crianças brasileiras com mais de 7 anos tomem Ritalina. É pouco e em parte porque a legislação brasileira trata a comercialização da droga com o mesmo rigor que dedica a remédios como os derivados de morfina. Mas, aos poucos, está crescendo (veja quadro ao lado). O excesso de cuidado parece ser o caminho que cada vez mais americanos estão preferindo. Teoricamente, crianças com déficit de atenção e hiperativas têm comportamentos muito semelhantes aos de meros encapetados. A inteligência é normal, apresentam dificuldades de convivência e concentração. Poucos médicos — imagine pais e professores — sabem diferenciar a criança levada de outra, hiperativa. "Como os critérios são subjetivos e os sintomas são parecidos com vários outros quadros, muitas vezes o diagnóstico é malfeito. Por isso, só médicos especializados devem poder prescrever o remédio. O Brasil está no caminho certo", comemora o neurologista Mauro Muszkat, da Universidade Federal de São Paulo.

Funciona. Não se sabe por quê

Foto: Carlos Edegard

Apesar de a Ritalina ser usada há quase meio século nos Estados Unidos, sabe-se pouco sobre como ela ajuda no tratamento das crianças que têm transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (ADHD). No córtex cerebral de uma criança hiperativa, o fluxo de substâncias químicas como a dopamina e a norepinephrina — que garantem a atividade motora, intelectual e sensitiva — fica prejudicado. Não se sabe por quê. A Ritalina aumenta o poder de concentração da criança porque estimula o fluxo dessas substâncias. E não se descobriu como. Em meio a tantas dúvidas, especialistas do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos fazem alguns alertas:

Reações positivas ao remédio não significam que o usuário sofra de ADHD. A Ritalina ajuda a aumentar a atenção de qualquer criança.

A droga funciona a curto prazo. Mas não se sabe como ficam o desenvolvimento acadêmico e o comportamento social da criança em tratamentos por longos períodos.

Apesar de a prescrição da Ritalina ser permitida para usuários com menos de 5 anos, não há evidências de que a aplicação da droga seja segura em crianças muito novas.

Estudos preliminares sugerem que cérebros de crianças hiperativas são diferentes. Os especialistas não sabem se é uma simples variação ou um defeito bioquímico.

A Ritalina não aumenta o QI. Também não faz a criança aprender mais, ou mais rápido.

Bruno Paes Manso




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line