Sócrates ou Mengele?

Kevorkian injeta venenos em um homem doente.
Recoloca-se a dúvida: filósofo herético ou
serial killer com diploma médico?

Eduardo Junqueira

Primeiro o doutor Jack Kevorkian pediu que Thomas Youk, de 52 anos, fizesse um movimento afirmativo com a cabeça. Ele acenou com dificuldade e balbuciou: "Sim" — foi sua última palavra. Depois, Thomas Youk assinou uma declaração formal dizendo que não desejava mais viver. Foi então que o doutor Kevorkian iniciou o ritual. Com uma seringa hipodérmica na mão esquerda, o médico injetou alguns mililitros do hipnótico Saconal na corrente sanguínea de Thomas Youk. O homem caiu em sono profundo depois de poucos segundos. A cabeça despencada sobre o peito, ele não percebeu quando o doutor Kevorkian descarregou uma segunda seringa, cheia de relaxante muscular. Objetivo: paralisar o funcionamento dos pulmões do paciente. Por fim, Kevorkian aplicou-lhe uma dose altíssima de cloreto de potássio. O coração parou de bater. Thomas Youk ficou imóvel, a boca entreaberta, num esgar patético. O silêncio tomou conta da sala. Ele estava morto.

A cerimônia protagonizada pelo doutor Jack Kevorkian, mais conhecido como Doutor Morte, foi transmitida pela rede de televisão CBS para todos os Estados Unidos na semana passada. Foi o próprio Kevorkian quem filmou tudo com uma câmara amadora, em setembro último. Como cenário, uma casa comum nos arredores de Detroit, Estado de Michigan. Kevorkian decidiu tornar pública a gravação porque queria, de novo, os holofotes das televisões e os flashes dos jornais sobre si e sobre a causa que abraçou ainda no início da década de 60 — o direito de morrer em paz.

A isca funcionou. Na semana passada, a promotoria do condado de Oakland acusou-o de homicídio. É o primeiro passo para um julgamento que poderá até condenar Kevorkian à prisão perpétua. Como se trata de um processo demorado, durante um bom tempo ainda Kevorkian se manterá no centro da arena. Polemista furioso, ele já adiantou: "Se eu for condenado, farei greve de fome até morrer". De novo, o doutor que reclama para si a paternidade intelectual da morte de 130 pessoas está nas conversas, nas bocas, nos bares e telejornais.

Paraíso — Mas agora o médico foi longe demais, mesmo para aqueles que sempre viram nele uma espécie de Sócrates redivivo, filósofo brilhante a defender com coragem uma ampliação dos limites da vida e da morte. Ficou mais fácil a tarefa dos adversários de Kevorkian, aqueles que não conseguem enxergar na figura longilínea de cabelos brancos e sorriso misterioso nada além de uma versão fim-de-século de um assassino nos moldes de Josef Mengele, o carrasco de Auschwitz. Desta vez é diferente porque foi o próprio doutor Kevorkian quem introduziu as agulhas e injetou os venenos no organismo de Thomas Youk. Em todas as demais histórias que protagonizou, Kevorkian foi "apenas" o idealizador da operação.

"Apenas", porque até a semana passada se sabia somente que Kevorkian era um apologista do que tecnicamente se chama de "suicídio assistido". É assim desde 1989, quando ele criou a primeira máquina para praticar uma morte rápida, indolor e limpa, graças a doses altíssimas de anestésicos que dão a suas vítimas uma sensação não muito distante daquilo que a cultura cristã fez crer ser o prazer da chegada ao paraíso. Em seguida, doses gigantescas de relaxantes musculares e soluções de potássio interrompem o funcionamento do sistema cardiorrespiratório. Sem dor alguma. Kevorkian levou seu invento tão a sério que batizou um dos aparelhos de Tanatron, palavra originária do grego e que significa máquina da morte. O equipamento deixava o médico em uma posição mais confortável porque eram os pacientes que abriam a válvula para deixar escoar os medicamentos mortais.

Por suas próprias características, esse método acabava não se destinando a pacientes terminais clássicos, aqueles que vegetam sobre um leito hospitalar, apartados do mundo real e submetidos a todo tipo de dores e humilhações. Os candidatos que Kevorkian ajudava a morrer eram portadores de doenças tidas como incuráveis, mas em sua grande maioria estavam conscientes e longe — muito longe — de um estado terminal. Muitos tinham câncer, cujo tratamento tem resultados mais promissores a cada dia, e mal de Alzheimer, que provoca degeneração progressiva do sistema nervoso. Lenta, na maioria dos casos, dando espaço até para uns momentos de felicidade. Um sem-número de pacientes de Kevorkian sofria de depressão em graus diversos — doença passível de tratamento, com resultados animadores. Todos esses dados já seriam perturbadores. Pode alguém, ainda mais um médico, desistir assim de salvar vidas humanas ainda viáveis? Há mais argumentos contrários. Às vezes, descambam para roteiro de filme de terror.

Em fevereiro de 1993 o médico assistiu o suicídio de Hugh Gale, de 70 anos. Segundo um relatório atribuído ao próprio Kevorkian, Gale sofria de enfisema pulmonar e, aparentemente, desistiu de morrer na reta final. Cerca de um minuto depois de ter recebido a máscara pela qual inalaria monóxido de carbono, um gás fatal, Gale teria entrado em desespero pedindo para que o objeto fosse retirado. A máscara foi substituída por outra, de oxigênio. Pouco tempo depois ele recebeu a máscara mortal novamente e abriu a válvula que permitia a entrada do gás letal. Segundos depois Gale ficou agitado e sua respiração tornou-se ofegante. Ele implorou para que lhe tirassem a máscara, mas imediatamente perdeu a consciência. O pedido não foi atendido e seus batimentos cardíacos cessaram três minutos mais tarde. Na época, o advogado de Kevorkian disse que o relatório era na verdade um rascunho incorreto. A Justiça não levou o caso adiante. Em outro episódio, o corpo de uma mulher que se enfiou na máquina da morte de Kevorkian por causa de um diagnóstico de esclerose múltipla revelou-se absolutamente normal na autópsia realizada após a morte. Kevorkian alegou que só um tipo especial de exame poderia oferecer um diagnóstico confiável.

A morte do católico Thomas Youk inaugurou um novo capítulo na biografia macabra de Kevorkian. Pela primeira vez, o médico não apenas ajudou um paciente a dar cabo da vida, como ele mesmo operou os instrumentos de morte. Kevorkian diz que o prognóstico, nome que os médicos dão ao futuro, era o pior possível no caso de Thomas Youk. Portador da síndrome de Lou Gehrig, uma doença genética incurável que provoca a destruição progressiva do sistema nervoso, Thomas Youk perderia seus movimentos no decorrer dos meses que se sucederiam à manifestação da doença. Sua debilidade muscular seria tamanha que ele poderia morrer sufocado com a própria saliva, já que não teria como tossir. O tempo condicional, tão presente nas frases acima, é opressivo. E isso porque Thomas Youk mantinha boa parte de sua atividade intelectual — foi inclusive capaz de falar, sorrir e assinar o próprio nome durante a gravação de seu último vídeo. Thomas Youk não corria mais riscos de morte iminente do que qualquer pessoa que esteja lendo este texto. Por fim, a doença que o acometia é a mesma que ataca há anos o físico inglês Stephen Hawking. Grave, gravíssima. Mas que não impediu Hawking de seguir lutando. Já condenado à atrofia progressiva, o físico de Cambridge elaborou a teoria dos buracos negros, e foi além. Terminou um casamento estável para viver a paixão cultivada por sua enfermeira.

Horrorizante — A Constituição americana permite que cada Estado exerça sua autonomia para tipificar, ou não, a eutanásia como crime. Segundo uma lei aprovada no Estado de Michigan em setembro deste ano, a prática é ilegal, cabendo punição com cinco anos de detenção ou pagamento de multa de 10.000 dólares. Foi esta lei que Kevorkian quis afrontar, indo muito além da própria eutanásia. A respeitada Associação Médica Americana, que congrega 300.000 profissionais, tachou o ato de Kevorkian de "horrorizante". "Sua atitude configura um crime e uma violação da ética médica", avaliou a entidade em nota oficial.

A história de vida de Kevorkian, ateu convicto e avesso à paternidade, talvez ajude a explicar tanto horror. Sua mãe morreu de câncer. O médico viveu intimamente o terror da devastação provocada pelos estados terminais. "A opção do meu irmão pela eutanásia é mais moral do que todo o medicamento que aplicaram em nossa mãe. O corpo dela ficou todo preto e azul por causa das marcas das agulhas", desafia Margo Janus, irmã de Kevorkian. A mãe do Doutor permaneceu em coma por um longo período e chegou a pesar 31 quilos. Os filhos não foram atendidos quando pediram para que as máquinas fossem desligadas. "O médico nos dizia que tinha obrigação de mantê-la viva", diz Margo.

Da vasta experiência acumulada desde então com cadáveres ou pré-cadáveres — Kevorkian nunca teve um trabalho regular no tratamento para salvar pacientes —, o Doutor extrai inspiração para a pintura. Depois de ter aposentado os pincéis por trinta anos, ele resolveu retomar o hobby. Surgiu com telas grotescas. Cabeças cortadas, seres mutilados, sangue em profusão. Na década de 60, o médico saiu-se com uma proposta repugnante sobre a execução por injeção letal de criminosos condenados à morte. Kevorkian queria que os delinqüentes fossem anestesiados como se estivessem prestes a se submeter a uma cirurgia. Eles então seriam alvo de todo o tipo de experiências vedadas em seres humanos. Retirada de órgãos, exame de tecidos, exploração do cérebro. Se ainda estivessem vivos depois da dissecação em nome da ciência, receberiam uma droga letal. É fácil dizer que Mengele também fazia isso. Mais difícil é lembrar que o fisiologista belga Andreas Vesalius, em plena renascença, fundou a medicina moderna dissecando cadáveres supliciados de bandidos. Hoje, todos agradecem, ninguém faz muxoxo. É isso o que perturba nesses desbravadores. Eles levam tudo até o limite da náusea.




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