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A sombra do ditador
Problema
do governo chileno aumenta com
decisão inglesa que nega imunidade a Pinochet
Jaime
Klintowitz, de Santiago
O Chile passou por
mudanças notáveis a partir do início dos anos 80.
Modernizou a economia e se transformou num quase-tigre
sul-americano. Também substituiu um ditador de farda por
um governo democraticamente eleito, o que lhe permitiu
ser readmitido entre os países com respeitabilidade
internacional. Ainda assim, sabia-se que essa realidade
sorridente dependia dos arranjos feitos com um homem
notoriamente difícil, o próprio ex-ditador Augusto
Pinochet. No poder durante quase dezessete anos, depois
comandante do Exército e desde março, quando despiu a
farda, dono de uma cadeira vitalícia no Senado, ele
paira como uma sombra sobre os destinos do país. A
maioria dos chilenos estava conformada com a idéia de
que seria preciso aguardar que o tempo tomasse conta do
general arrogante, que aceitou entregar o poder quando a
maioria lhe disse não, mas o destino quis que o enredo
fosse outro. Pinochet viajou a Londres para um tratamento
de saúde e, enquanto estava internado numa clínica, um
promotor espanhol pediu sua extradição a Madri para que
fosse julgado por crimes contra a humanidade. Na
quarta-feira passada, a Câmara dos Lordes da Inglaterra
decidiu que Pinochet não tem direito à imunidade
diplomática, mesmo sendo senador no Chile. Isso abre
caminho para a extradição e para uma confusão
monumental nas relações entre os países.
Um ex-ditador
chileno preso em Londres e levado a julgamento num
tribunal espanhol com base em crimes cometidos em seu
próprio país? O governo chileno, o próprio general e,
a bem da verdade, o restante do mundo foram todos pegos
de surpresa. Para começar, é inédita essa tentativa de
julgar um ex-governante fora da jurisdição em que
cometeu os crimes de que é acusado. Essa transgressão
das normas estabelecidas até hoje no direito
internacional subverte a tradição e permite pensar que
dezenas de presidentes e primeiros-ministros teriam de
pôr um fim a suas viagens ao exterior, a começar pelos
dirigentes da China, a ditadura mais eficiente em todo o
mundo na violação dos direitos humanos. A Espanha, que
agora pede a extradição de Pinochet, não julgou sequer
os acusados de violar direitos humanos durante a ditadura
de Francisco Franco. Numa primeira etapa, a Inglaterra
reconheceu o direito de Pinochet à imunidade
diplomática, na qualidade de chefe de Estado quando os
crimes foram cometidos. A controvérsia foi levada então
à comissão jurídica da Câmara dos Lordes, um grupo de
cinco juízes que constitui a mais alta instância de
apelação da Inglaterra. Por 3 votos a 2, eles tomaram a
decisão de tirar o escudo imunitário do general
chileno.
Humilhação
Nesta quarta-feira, Pinochet precisará
entregar-se à custódia de um tribunal comum, o primeiro
passo do julgamento do processo de extradição, que pode
prolongar-se por um ano. Tremenda humilhação. O
general, que completou 83 anos exatamente no dia da
decisão e se recupera de uma cirurgia na coluna, caiu em
depressão e está sendo assistido por um psiquiatra. O
governo chileno, que contava com uma sentença favorável
ao ex-ditador, caiu das nuvens e tenta reagir. O
chanceler José Miguel Insunza, um cacique socialista que
foi perseguido durante o governo Pinochet, tomou no dia
seguinte o avião para Londres, com a missão de mover
montanhas para trazer de volta para casa, são e salvo,
seu antigo algoz.
Insunza agora tenta
convencer o governo do primeiro-ministro Tony Blair a
aceitar uma argumentação política: a prisão do
ex-ditador põe em risco a transição democrática no
Chile. Melhor seria libertá-lo por motivos humanitários
e expulsá-lo do país. O abacaxi precisa ser descascado
pelo ministro do Interior da Inglaterra, Jack Straw, que
na quinta-feira pediu ao tribunal um prazo maior, adiando
a agonia para meados de dezembro.
Roendo as
unhas Os argumentos de Insunza, apesar
dos compreensíveis exageros, ancoram-se na realidade
política chilena. O presidente Eduardo Frei, que não
morre de amores por Pinochet, teve de prometer ao Chile
que tudo fará para conseguir a libertação do general.
"A decisão da Câmara dos Lordes não é o fim de
nada", garantiu no pronunciamento em que exortou os
chilenos à calma. Frei também convocou,
excepcionalmente, o Conselho de Segurança Nacional para
pedir aos generais paciência, moderação e, sobretudo,
que contenham a soldadesca nos quartéis. Corre que, a
portas fechadas, o comandante do Exército, Ricardo
Izurieta o oficial pragmático que está
despolitizando a Força com a transferência de centenas
de oficiais para a reserva , exigiu o envio a
Londres de uma comissão de figurões e quer que o
governo chileno ameace romper relações diplomáticas
com a Inglaterra. A inquietação nos quartéis vai muito
além da lealdade ao ex-ditador. Se Pinochet for
condenado, quem poderá assegurar a centenas de coronéis
com as mãos sujas de sangue que poderão fazer turismo
no exterior sem o risco de ir parar no xadrez?
A transição
chilena é o resultado de um complicadíssimo processo
envolvendo todos os grupos com algum poder de barganha. O
preço pago pelos adversários do regime militar foi
abrir mão de punir as violações dos direitos humanos.
O golpe chileno que derrubou o presidente socialista
Salvador Allende em 1973 é um produto típico daquele
período. Na América Latina desenvolvia-se um processo
de agitação política crescente, no qual ganhava cada
vez mais adeptos a idéia de substituir os regimes
democráticos e altamente imperfeitos da região por
sistemas socialistas de governo, a exemplo de Cuba, que
aderira ao marxismo desde 1959. Em muitos países
latino-americanos havia terrorismo urbano e guerrilha nas
zonas rurais. No Chile, o processo se expandira até a
cúpula do governo, com a eleição do marxista Salvador
Allende para a Presidência da República. O golpe no
Chile seguiu os moldes clássicos das ditaduras:
Congresso fechado, partidos políticos proibidos,
opositores presos e torturados. A conta dos mortos bateu
em mais de 3.000 pessoas, das quais 1.200 ainda são
consideradas desaparecidas. Agora, os cadáveres
esquecidos debaixo do tapete, em nome da pacificação
nacional, ressurgiram em Madri e em Londres para tirar o
sono dos chilenos.
Há mais de meio
século o eleitorado chileno se divide em partes iguais
entre esquerda, centro e direita. O presidente Frei,
democrata-cristão, governa em coalizão de centro
esquerda com os socialistas. A situação poderia
inverter-se no próximo ano. Pela primeira vez desde
Allende, um candidato presidencial esquerdista, o
advogado Ricardo Lagos, lidera as pesquisas e rói
as unhas de ansiedade, prevendo como a direita pode
explorar o episódio Pinochet contra ele. Antes da crise
atual, os dois partidos de direita esforçavam-se para
demonstrar vida independente da vontade do general.
Agora, chegaram a falar em desobediência civil e boicote
ao Congresso. "Libertado pela Câmara dos Lordes,
Pinochet voltaria humilhado e enfraquecido", pondera
Ricardo Nuñez, presidente do Partido Socialista.
"Preso, voltou a ser o centro dos acontecimentos,
reabrindo as velhas feridas, com conseqüências
imprevisíveis sobre o tecido social chileno."
Orgulho
nacional A alta ansiedade que tomou de
assalto os gabinetes políticos na semana passada não
encontrou correspondência nas ruas. Os chilenos
assistiram à decisão dos juízes ingleses pela
televisão e só uns poucos foram comemorar ou protestar.
Manifestações discretas para os padrões locais. A
polícia computou apenas 150 detidos, contra 274 no dia
em que a seleção chilena passou para a segunda fase da
Copa do Mundo. Pesquisas realizadas no calor dos
acontecimentos mostram que, se apenas um terço dos
chilenos tem uma visão favorável de Pinochet, dois em
cada três querem vê-lo de volta ao país. Trata-se,
sobretudo, de orgulho nacional ferido. A popularidade do
velho tirano com seu público cativo, no entanto, é
impressionante. Ela se explica em parte pelas más
lembranças da anarquia pré-revolucionária no governo
Allende. A elite empresarial credita ao general não
apenas a prosperidade econômica mas também sua própria
existência. A eventual implantação de um regime
socialista no Chile teria varrido essa gente toda para o
exílio, como aconteceu na Cuba de Fidel Castro, de onde
saíram 20% da população com destino a Miami e
vizinhanças. E quando Pinochet pôs os tanques na rua
temia-se exatamente isso: que o Chile fosse tornar-se uma
nova Cuba. Pioneiro, por experiência e erro, nas
reformas liberais que depois se tornariam praxe no
continente, Pinochet legou a seus sucessores um país no
caminho da prosperidade. Uma nação que cresce a taxas
anuais de 6% a 7% durante quinze anos acaba distribuindo
riquezas por toda a sociedade (1,5 milhão de chilenos,
10% da população, deixaram de ser pobres nesta
década).
Os empresários
carecem de apetite para confusões diplomáticas e não
querem ver uma década de prosperidade abalada por
confusão interna e teme-se um confronto desse
tipo, no bojo do qual os militares poderiam ter idéias
de voltar ao palco. O Chile não precisaria dessa
preocupação a mais. A crise asiática fez cair as
exportações, e o crescimento do PIB neste ano ficou
perto de zero. O bafafá em torno da prisão de Pinochet
já fez subir a taxa de risco que os chilenos pagam por
empréstimos no exterior. A aura de vencedor estava tão
incorporada à psique do general que ele teimou em ir
tratar a saúde na Inglaterra, país pelo qual expressou
enorme admiração por causa do "respeito às
regras". O erro de avaliação ficou evidente. Se a
crise encerra uma lição prática é a de que, na
próxima vez em que um ditador forçar o governo civil a
lhe conceder anistia, é melhor que ele fique em casa.
Alerta
para os malvados
A vida de
ditadores e ex-ditadores do mundo todo ficou um
pouco mais desconfortável. A partir de agora,
terão de pensar duas vezes antes de saborear os
frutos do poder, passado ou presente, em viagens
a centros estrangeiros de consumo e badalação.
O caso Pinochet abre precedentes jurídicos até
o momento impensáveis. Tanto que pegou de
calças curtas um chefe de Estado em exercício,
o presidente do Congo, Laurent Kabila, em sua
primeira excursão européia. Recebido até pelo
papa João Paulo II no Vaticano, ele teve de
pedir garantias de imunidade diplomática ao
governo da Bélgica, etapa seguinte da viagem.
Organizações de defesa dos direitos humanos
haviam apresentado três pedidos de abertura de
processo contra Kabila pelos abusos cometidos
durante a guerra que o levou ao poder e pelas
atrocidades praticadas atualmente. O cerco
judiciário se repetiu na França.
Ao negar o
apelo de Pinochet, os juízes da Câmara dos
Lordes estabeleceram que ex-chefes de Estado não
podem recorrer ao argumento da imunidade para se
eximir de processo por acusações de tortura e
genocídio, tal como tipificados na Convenção
de Genebra. "É quase desnecessário dizer
que o ato de torturar seus próprios cidadãos ou
estrangeiros não deve ser visto pelas leis
internacionais como função de um chefe de
Estado", resumiu, com sutileza britânica,
Donald Nicholls, o lorde que deu o primeiro voto
contra Pinochet na quarta-feira passada. Não é
impossível, agora, uma fieira de processos
contra o haitiano Jean-Claude Duvalier, exilado
na França, o ugandense Idi Amin Dada, na Arábia
Saudita, ou até o paraguaio Alfredo Stroessner,
no Brasil. Pode-se também imaginar Margaret
Thatcher no banco dos réus por abusos cometidos
pelas forças britânicas na Irlanda do Norte,
uma porção de chineses respondendo pelo
massacre na Praça da Paz Celestial ou, num
futuro próximo, Bill Clinton processado por
mandar bombardear uma fábrica de remédios no
Sudão? Dificilmente. Primeiro, como o próprio
caso Pinochet demonstra, tais processos passam,
também, por filtros políticos. Segundo, porque
o direito internacional pode estar entrando numa
fase inédita, mas quem tem capacidade de
projeção de força ainda dita regras.
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