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Home  »  Revistas  »  Edição 2141 / 2 de dezembro de 2009


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Comportamento

O turismo da bondade

Jovens adeptos do intercâmbio voluntário viajam pelo mundo
para trabalhar em instituições filantrópicas e, segundo eles,
buscar o crescimento pessoal


Carolina Romanini

Arquivo Pessoal
Amiga dos felinos
Raissa na África do Sul, onde cuidou de guepardos
num parque nacional: "A experiência foi muito útil
na faculdade"


No mundo inteiro, o intercâmbio estudantil é uma maneira tradicional de os jovens viajarem para o exterior para aprender um segundo idioma e entrar em contato com outras culturas. Agora, uma variante desse tipo de programa vem se popularizando, inclusive no Brasil – o intercâmbio voluntário. Ele consiste em viajar para outro país não apenas para estudar, mas para engajar-se em atividades filantrópicas ou auxiliar entidades de preservação ambiental. Segundo os estudantes, essa é uma forma de se sentir útil, ajudar o próximo ou colaborar para a saúde do planeta, obtendo como recompensa o crescimento pessoal. De quebra, o voluntariado enriquece o currículo. Nos Estados Unidos e em vários países da Europa, muitas escolas de ensino médio e faculdades exigem que o aluno, para receber o diploma, tenha cumprido um mínimo de horas de trabalho voluntário. Exercer esse trabalho em outro país é mais enriquecedor e divertido. As agências de intercâmbio brasileiras informam que a procura por programas desse tipo cresceu três vezes nos últimos dois anos.

Há duas formas de fazer intercâmbio voluntário. A primeira delas é hospedar-se na casa de uma família e dividir o dia entre o estudo e o voluntariado. Nesse caso, ao contratar o programa por uma agência, pagam-se cerca de 200 dólares por semana. A segunda maneira é hospedar-se na própria instituição em que se trabalha. A maioria das instituições cobra uma taxa para cobrir despesas de hospedagem e alimentação. Muitos governos oferecem bolsa aos alunos interessados em fazer trabalho voluntário em outros países. No caso da Alemanha, a maior quantidade de bolsas desse tipo tem como destino o Brasil. Depois de fazer voluntariado na Dinamarca, cuidando de crianças órfãs, o alemão Maximilian Georgi, de 21 anos, decidiu que gostaria de dar continuidade à experiência, mas num local no qual as pessoas vivessem uma realidade diversa da sua. Escolheu o Brasil, e há três meses trabalha com crianças carentes em Porto Alegre, com um grupo de dezenove colegas, também alemães. "O fato de essas crianças viverem em uma sociedade completamente diferente é muito especial para mim. É um choque de realidade", conta ele. Veronika Rieck, de 19 anos, faz parte do grupo. Com o trabalho no Brasil, ela busca encontrar respostas para o seu futuro. "Saí da Alemanha sem saber que faculdade cursar. Agora sei que quero fazer economia ou turismo", diz Veronika.

Uma pesquisa realizada em abril deste ano por um grupo de agências de turismo americanas e europeias mostrou que o Brasil é o segundo destino favorito para fazer intercâmbio voluntário. O primeiro lugar coube ao Peru, eleito por apresentar os programas mais baratos e, segundo os estudantes, pela peculiaridade de manter vivas as tradições indígenas. A mesma pesquisa revela que as principais expectativas dos adeptos do intercâmbio voluntário são: contribuir para o sucesso do projeto com o qual vão trabalhar (38%), buscar o desenvolvimento pessoal (23%) e viver uma experiência diferente (21%).

A estudante de veterinária paulista Raissa Seabra Bittencourt, de 18 anos, procurou um programa de voluntariado que a ajudasse na profissão que escolheu. Em julho passado, ela foi para a África do Sul trabalhar em um parque nacional daquele país que abriga animais selvagens. Chegou a cuidar de guepardos e outros felinos acidentados. "Notei grande diferença na minha bagagem quando retornei à faculdade", diz Raissa. A gaúcha Carolina Feix Vidal, de 23 anos, viajou para a Nova Zelândia em 2007. Dividiu sua estada de um ano entre dois projetos: no primeiro, trabalhava com adultos portadores de deficiência mental. No segundo, atuava com crianças que sofriam de hiperatividade, tinham histórico de agressão doméstica ou de abuso sexual. "O intercâmbio voluntário serviu para que eu conhecesse novas realidades. Tive de aprender a contar somente comigo", diz Carolina. O intercâmbio voluntário alia as vantagens de um programa convencional desse tipo com boas lições de vida.

Fotos Liane Neves
Choque de realidade
O alemão Maximilian, com crianças carentes de Porto Alegre (à esq.),
e sua colega de intercâmbio Veronika: em busca de outras culturas

 

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