Lya Luft
A
praga moderna
"O que somos mesmo, neste
período pós-moderno
de que algumas pessoas tanto se orgulham, é
estressados"

Nossas pestes que também as temos
podem ser menos tenebrosas do que as medievais, que nos faziam apodrecer
em vida. Mas, mesmo mais higiênicas, destroem. E se multiplicam, na medida
em que se multiplica o nosso stress. Ou melhor: o stress é uma das modernas
pragas. Quanto mais naturebas estamos, mais longe da mãe natureza, que
por sua vez reclama e esperneia: tsunamis, tempestades, derretimento de geleiras,
clima destrambelhado. Ser natural passou a não ser natural. Ser natural
está em grave crise.
O bom mesmo é ser virtual
mas isso é assunto para outra coluna, ou várias. Porque,
se de um lado somos cada vez mais cibernéticos e virtuais, de outro cultivamos
amores vampirescos, paixões por lobisomens, e somos fãs de simpáticos
bruxos em revoadas de vassouras. Mudaram, os nossos ídolos. Não
sei se para pior, mas certamente para bem interessantes. Pois nosso lado contraditório
é que nos torna interessantes, em consultórios de psiquiatras, em
textos de ficcionistas. Também na vida cotidiana aquela velhíssima
voz do instinto, voz das nossas entranhas, deixou de funcionar. Ou funciona mal.
Desafina, resmunga, rosna. A gente não escuta muita coisa quando, por acaso
ou num esforço heroico, consegue parar, calar a boca, as aflições
e a barulheira ao redor.
O que somos mesmo, neste período
pós-moderno de que algumas pessoas tanto se orgulham, é estressados.
Não tem doença em que algum médico ou psiquiatra não
sentencie, depois de recitar os enigmáticos termos médicos: "E
tem também o stress". Para alguns, ele é, aliás, a raiz
de todos os males. Eu digo que é filho da nossa agitação
obsessivo-compulsiva. Quanto mais compromissados, mais estressados: é inevitável,
pois as duas coisas andam juntas, gêmeas siamesas da desgraça. Porque
a gente trabalha demais, se cobra demais e nos cobram demais, porque a gente não
tem hora, não tem tempo, não tem graça. Outro dia alguém
me disse: "Dona, eu não tenho nem o tempo de uma risada". Aquilo
ficou em mim, faquinha cravada no peito.
Um dos nossos mais
detestáveis clichês é: "Não tenho tempo".
O que antes era coisa de maridos e de pais mortos de cansaço e sem cabeça
nem para lembrar data de aniversário dos filhos (ou da mãe deles),
agora também é privilégio de mulher. De eficientes faxineiras
a competentíssimas executivas, passamos de nervosas a estressadas, stress
daqueles de fazer cair cabelo aos tufos.
Não sei se
calvície feminina vai ser um dos preços dessa nossa entrada a todo
o vapor no mercado de trabalho pois ainda temos a casa, o marido, os filhos,
a creche, o pediatra, o ortodontista, a aula de dança ou de judô
dos meninos, de inglês ou de mandarim (que acho o máximo, "meu
filhinho de 6 anos estuda mandarim") , mas a verdade é que o
stress nos domina. É nosso novo amante, novo rival da família e
da curtição de todas as boas coisas da vida.
Que
pena. Houve uma época em que a gente resolvia, meio às escondidas,
dar uma descansadinha: 4 da tarde, a gente deitada no sofá por dez
minutos, pernas pra cima... e eis que, no umbral da porta, mãos na cintura
ou dedo em riste, lá apareciam nossa mãe, avós, tias, dizendo
com olhos arregalados: "Como??? Quatro da tarde e você aí, de
pernas pra cima, sem fazer nada?".
Era preciso alguma
energia para espantar os tais fantasmas. Neste momento, porém, eles nem
precisam agir: todos nós, homens e mulheres, botamos nos ombros cruzes
de vários tamanhos, com prego ou sem prego, com ou sem coroa de espinhos.
São tantos os monstros, deveres, trânsito, supermercado, dívidas
e pressões, que loucura das loucuras começamos a esquecer
nossos bebês no carro. Saímos para trabalhar e, quando voltamos,
horas depois, lá está a tragédia das tragédias, o
fim da nossa vida: a criança, vítima não do calor, dos vidros
fechados, mas do nosso stress. Começo a ficar com medo, não do destino,
eterno culpado, não da vida nem dos deuses, mas disso que, robotizados,
estamos fazendo a nós mesmos.
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