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• Cinema: Fábulas para adultosEntrevista Michael J. FoxO Parkinson não me venceO
ator canadense, diagnosticado com a doença há dezoito anos,
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Timothy
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"É sempre complicado
encarar a própria mortalidade,
mas, uma vez que se consegue lidar com
ela, aprendem-se muitas lições" |
Michael J. Fox se tornou um dos atores mais populares
de Hollywood nos anos 80 ao estrelar a trilogia De Volta para o Futuro.
No auge da carreira, em 1991, intrigado com um tremor em um dos dedos da mão,
foi ao médico e recebeu o diagnóstico de Parkinson, doença
degenerativa do sistema nervoso. Hoje, aos 48 anos, Fox se orgulha de ter saído
fortalecido de todas as provações por que passou à medida
que a doença progredia. Embora tenha sido obrigado a abandonar a carreira,
ele avalia que se tornou uma pessoa mais rica do ponto de vista espiritual. Neste
ano, ele voltou a atuar na série de TV Rescue Me, no papel de um
paraplégico. O trabalho acabou lhe rendendo um prêmio Emmy, entregue
em setembro. Também neste ano, Fox lançou sua autobiografia, que
acaba de chegar às livrarias brasileiras com o título Um Otimista
Incorrigível. Ele falou a VEJA.
Sua
carreira no cinema foi interrompida pelo Parkinson. Como a doença afetou
sua vida?
O Parkinson é uma doença curiosa em muitos
aspectos. Por pior que seja, possui uma vantagem: ela acontece de forma gradual.
Costumo usar uma metáfora para explicá-la. Se estamos dirigindo
a 100 quilômetros por hora numa estrada, um ônibus surge de repente
na contramão e não temos tempo de pisar no freio, nossa vida pode
mudar num instante. O paciente de Parkinson está na mesma estrada, só
que grudado ao asfalto. Ele pode ouvir o ônibus chegando, mas, como demora
a aparecer, o paciente tem tempo para refletir sobre o acidente e se preparar
para o pior. Quando fui diagnosticado com Parkinson, ainda era capaz de trabalhar.
Atuei durante toda a década de 90. Esses anos foram essenciais para preparar
meu afastamento, ajustar meus pensamentos e, finalmente, aceitar minha condição
e todas as suas implicações. A natureza da doença tem sido
muito útil no meu caminho para o autoconhecimento e para a aceitação
dos fatos da vida.
Qual foi sua reação
ao receber a notícia de que estava com Parkinson?
Em vez de perguntar
"por que comigo?", questionei a exatidão do diagnóstico.
Achei que os médicos estavam errados. Queria que alguém chegasse
e dissesse que era tudo um engano, que eu poderia continuar minha vida normalmente,
que estaria apto a exercer minhas atividades de sempre.
O
que o ajudou a aceitar o diagnóstico?
Uma ajuda inestimável
veio da leitura de um livro chamado On Death and Dying (Sobre a
Morte e o Morrer), da psiquiatra Elisabeth Ross. A autora descreve os cinco
estágios pelos quais costumam passar os pacientes desenganados: negação,
raiva, negociação, depressão e aceitação. Quanto
mais você entende e aceita sua condição, melhor. Se você
não aceita ou não quer lidar com o problema, só piora. Tudo
mudou quando decidi me debruçar sobre a doença de Parkinson. Falei
com os médicos a respeito do meu quadro, procurei pesquisadores e fiz contato
com outros doentes. Inteirei-me da comunidade da qual passara a fazer parte e
das necessidades de quem sofre de Parkinson. Tudo isso me deu um novo ânimo
e mudou minha atitude diante da doença.
Depois
de anos sem atuar, o senhor participou da série de TV Rescue Me e recebeu
um Emmy pelo trabalho. Como foi receber o prêmio depois de tanto tempo afastado
das telas?
Quando fui convidado para participar do programa, achei que não
conseguiria cumprir a tarefa. Meu papel era o de um paraplégico, um homem
incapaz de fazer qualquer movimento. Justo eu que, por causa do Parkinson, não
consigo parar de me mexer um minuto sequer. Questionei os produtores, porém
eles me queriam mesmo assim. As filmagens foram um desafio, mas tanto eu quanto
as outras pessoas envolvidas no projeto nos divertimos muito. Vivo em Nova York,
e foi como voltar a minha antiga casa em Los Angeles e rever um monte de amigos.
Quando você ganha uma oportunidade dessas, e as pessoas apreciam o seu trabalho,
a sensação é indescritível. Ganhar o prêmio,
é claro, foi emocionante. Gostaria muito de retomar minha carreira, mas
representar se tornou muito cansativo para mim. Dá muito mais trabalho
do que antes.
| "Nem sempre é possível prever as reações físicas que o Parkinson provoca. A doença afeta cada pessoa de forma única. Os corpos reagem de maneiras distintas e os sintomas mudam o tempo todo" |
Como o senhor enfrentou a necessidade de abandonar
a carreira?
Todos nós, constantemente, temos escolhas a fazer.
Podemos nos concentrar em nossas perdas pessoais e passar a existência lamentando-as.
A alternativa a isso é empolgar-nos com os novos caminhos que preenchem
as lacunas criadas por essas perdas. Sinto falta do trabalho, mas minha vida se
tornou recompensadora em outras áreas. Tenho quatro filhos e adoro passar
um longo tempo com eles e com minha esposa. Hoje tenho um cotidiano pleno e rico.
Como
o Parkinson o afetou fisicamente desde que o senhor recebeu o diagnóstico
da doença, há dezoito anos?
Minha esposa sempre brinca
comigo quando digo "não posso mais fazer isso, não posso mais
fazer aquilo". Ela diz que minhas limitações não se devem ao fato de eu ter Parkinson, mas sim à idade que está
chegando. Afinal, já estou beirando os 50 anos. Nem sempre é possível
prever as reações físicas que o Parkinson provoca. A doença
afeta cada pessoa de forma única. Converso
com outros pacientes
e todos tomam medicamentos diferentes. Os corpos reagem de maneiras distintas
e os sintomas mudam o tempo todo. Às vezes, atividades como escrever ou
correr são impossíveis. Em outras ocasiões, posso praticá-las.
É muito difícil planejar o que poderei fazer amanhã ou depois
de amanhã. Tenho de lidar com o imprevisível. Às vezes tenho
cãibras muito fortes, cólicas e não controlo bem a minha
fala. No dia seguinte, eu me sinto bem. Tudo isso ensina o paciente a viver um dia de cada vez.
As limitações físicas
constituem o maior fardo da luta contra o Parkinson?
É
duro suportar as limitações físicas, porque adoro esportes.
Ainda pratico hóquei e golfe, mas não posso jogar tão bem
como antigamente. No início, minha maior dificuldade era lidar com a doença
do ponto de vista emocional. Como fui capaz de compreender e aceitar minha situação,
hoje me sinto muito mais forte nesse sentido. É sempre complicado encarar
a própria mortalidade, mas, uma vez que você consegue lidar com ela,
aprende lições profundas. Querer fazer algo simples e não
conseguir representa uma grande perda. Mas aprendi que, com paciência, o
vazio dessas perdas acaba por ser preenchido. Em cada decepção há
uma oportunidade. Basta saber reconhecer quando essa oportunidade aparece. A recompensa
é sempre maior do que a perda.
Que recompensas a doença
lhe proporcionou?
À medida que minha saúde se deteriora,
minha condição mental e espiritual melhora. Estou muito mais feliz
em relação a certas coisas do que quando era mais jovem. Sou mais
tolerante, tenho mais entusiasmo e compaixão. Uma das minhas grandes recompensas
é a fundação para pesquisa de células-tronco que criei.
Trata-se da segunda maior fundação de pesquisa para Parkinson em
atuação no mundo. Esse projeto, e as possibilidades que ele abre
para a cura de milhões de pessoas, compensa plenamente muitas coisas das
quais tive de abrir mão.
Baseado nas pesquisas com células-tronco
feitas por sua fundação, o senhor acredita que em breve haverá
tratamento para doenças como Parkinson e câncer?
Tenho
certeza de que as células-tronco serão a resposta da medicina para
a cura de várias doenças em um futuro não muito distante.
Infelizmente, estamos vários anos atrasados por causa da posição
conservadora do ex-presidente americano George W. Bush com relação
às pesquisas com células-tronco embrionárias. Nos Estados
Unidos, muitos cientistas deixaram esse campo de pesquisa e migraram para outras
áreas porque não conseguiam quem os financiasse
e não
tinham apoio do governo.
Muitas pessoas que sofrem acidentes
graves ou são acometidas por doenças como o Parkinson procuram ajuda na religião. O senhor é religioso?
Não
pertenço a nenhuma religião específica, mas sinto que há
uma força superior a mim atuando, uma força positiva. O que gosto
na religião é a noção de humildade que ela promove.
Eu aprendi a ser humilde.
Em seu livro, Um Otimista Incorrigível, o senhor relata sua luta contra o alcoolismo. Como conseguiu deixar a bebida?
Meu problema com a bebida piorou muito quando fui diagnosticado
com Parkinson. Quando me deram a notícia, comecei a beber mais ainda. Para
mim, o alcoolismo e o Parkinson têm muito em comum é impossível
ter controle sobre ambos. Foi preciso me render e aceitar que eu não
podia beber moderadamente. Só assim a recuperação se
tornou possível. Com o Parkinson é a
mesma coisa. É
necessário render-se para preparar o futuro.
| "Enquanto minha condição física se deteriora, minha condição mental e espiritual melhora. Estou muito mais tolerante, tenho mais entusiasmo e compaixão do que quando era jovem" |
No
livro, o senhor cita o ciclista Lance Armstrong, que teve câncer, e o ator Christopher Reeve, que ficou tetraplégico, como fontes de inspiração
para conviver com o Parkinson. Por quê?
São duas
pessoas a quem respeito e admiro. De certa forma, em algum ponto da vida, eles
estiveram na mesma situação que eu. De repente, algo terrível
aconteceu a eles. Mesmo assim, encontraram forças para direcionar sua energia
na conscientização do público sobre os seus problemas e na
pesquisa para amenizar o sofrimento das pessoas que passavam por situações
semelhantes. Sinto um respeito especial por Reeve, que teve muita dificuldade
em lidar com as consequências de seu acidente e passou por desafios terríveis
ao ficar tetraplégico. Ele conseguiu mobilizar a opinião pública
para a importância das pesquisas com células-tronco para o tratamento
da lesão de medula espinhal e outras doenças. Lance Armstrong também
me surpreendeu. No Tour de France, em Paris, vi centenas de pessoas com câncer que viajaram o mundo todo só para estar com ele, e pude perceber a
importância que suas tentativas de superação da doença
tinham na vida daquelas pessoas.
O que é mais importante
para aprender a conviver com o Parkinson ou outra doença grave?
O
mais importante é aprender a viver o momento. Tenho uma teoria: imagine
uma pessoa doente ou que sofreu um acidente e vive com medo de que o pior cenário
se materialize. Esse medo se torna uma obsessão que toma conta de sua mente.
Se, por infelicidade, o pior cenário se tornar real, essa pessoa viverá
o mesmo drama duas vezes. Claro que devemos ser realistas e aceitar as circunstâncias,
mas acho que, mesmo diante de uma situação dramática, há
muitos motivos para ter pensamentos positivos. Muito do que aconteceu no ano passado
durante as eleições americanas foi decorrente do otimismo na sua
forma mais pura. Milhões de eleitores que votaram no Partido Democrata
estavam reunidos por acreditar em uma mudança efetiva nos rumos dos Estados
Unidos, de seu povo e do mundo. O presidente Barack Obama chamou esse sentimento
de uma urgência feroz do agora. Sua mensagem dizia que era preciso lidar
com os problemas que estão à frente em vez de se preocupar com o
passado ou ficar com medo do que possa acontecer no futuro.
Como
o senhor se mantém tão otimista?
Tento ver possibilidades
em todas as circunstâncias. Para tudo o que nos é tirado, algo de
grande valor nos é oferecido. Quando estive no México, há
alguns anos, um guia me mostrou uma árvore da qual escorria um líquido
vermelho e disse para não tocá-la de jeito nenhum, pois a substância
poderia causar queimaduras. Um pouco mais à frente, deparamos com
outra árvore, da qual escorria um líquido preto. O fluido,
disse o guia, curava queimaduras. Assim é a vida. Para tudo o que queima,
há algo que cura.