Esporte
A
pantera voltou - e gritando
Feng Li/Getty Images
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O
MUNDO DE MARIA
"Vida de esportista é assim: no fim de cada dia,
você está morto" |
Ela tem corpo de modelo, espírito
de vencedora e usa umas roupinhas... bem, basta ver o público masculino
subitamente conquistado para o tênis acompanhando, em transe, os gritinhos
de Maria Sharapova. Derrubada por uma coisa chamada manguito rotador - não
pensem bobagem, é o grupo de músculos do ombro -, ela passou
nove meses de molho. Depois de uma cirurgia e do período de recuperação,
as intermináveis pernas de pantera e todo o elegante resto voltaram às
quadras em maio. Aos 22 anos, 1,88 metro e 59 quilos, Masha, seu apelido russo,
além de bela tem genuíno talento: em 2005, chegou a ser a número
1 do tênis mundial. Hoje é a 14ª, mas quer recuperar a hegemonia
e está dando um duro danado. Rainha dos contratos publicitários,
pela beleza e pelo bom comportamento - não dá escândalo,
não joga a raquete no chão, não xinga os juízes -,
ela virá no dia 5 a São Paulo, onde vai jogar como parte de uma
campanha promocional. Falou à repórter Juliana Linhares, ainda ofegante,
no intervalo de um treino, mas com o autocontrole habitual.
Você
parece impressionantemente calma para um ramo, o dos atletas de elite, que costuma
produzir gente muito desequilibrada. Você se considera normal?
Acho muito
importante controlar as emoções durante o jogo. Já ver meus
adversários transtornados do outro lado da rede me dá confiança.
A maioria dos grandes campeões em todos os esportes mantém essa
calma interior quando está competindo.
Qual é
a origem da força psíquica que faz um grande atleta?
Trabalho duro
e dedicação. Quem treina pesado ganha confiança de que pode
e merece ganhar.
Qual o momento numa partida de tênis
em que você sente uma euforia absoluta?
Simplesmente adoro competir. Jogo
tênis por causa disso: pela emoção de competir. Adoro a batalha
entre duas pessoas que é travada na quadra. Mas não há nada
melhor no mundo do que apertar a mão da minha adversária quando
ganho e ver a torcida toda aplaudindo meu esforço.
É duro ser Sharapova?
Eu treino seis dias por semana,
durante cinco horas. Quatro delas são dedicadas ao tênis e uma à
ginástica. Pode parecer muito, mas é a rotina de qualquer atleta.
Nessa
vida completamente ocupada pelo esporte você consegue ter amigos?
Pouquíssimos.
Dá para contar nos dedos de uma mão os amigos de verdade. Levo uma
vida bem solitária.
Não dá vontade de
sair, ir a festas, beber?
Meu esquema de vida é muito exigente. Desde os
7 anos viajo pelo mundo inteiro durante dez meses por ano, trabalho com gente
estranha o tempo todo, tenho de me adaptar a lugares novos em poucos dias. Quando
volto para casa, só quero ficar quietinha e ver a minha família
e os amigos. Eu me sinto muito mais velha do que sou.
Como
você se concentra antes dos jogos?
Não tenho nenhuma técnica
especial. Procuro esvaziar a cabeça e ficar focada no jogo. Tento me acalmar
pensando em quanto treinei e dizendo para mim mesma que me esforcei o máximo
que podia para estar ali. Saber que eu me preparei no limite do meu corpo me acalma.
Você faz regime?
Não, de verdade, mesmo. Se tem
uma coisa de que eu gosto nesta vida é comida. Como de tudo, inclusive
chocolate. Quando a temporada acaba, gosto de tomar vinho com os amigos. Mas é
claro que dou preferência a alimentação leve.
Como
muitos atletas, você também convive com a dor?
Faz parte da vida
de qualquer atleta. Acordar e não sentir nada é sinal de que alguma
coisa está errada. Antes da operação no ombro, eu sentia
dores horríveis. Era uma epopeia diária cuidar para que diminuíssem.
A vida de esportista é assim: no fim de cada dia, você está
morto.
Muitos atletas são filhos de pais tremendamente
exigentes que desde a infância os obrigam a superar limites. Você
passou por isso?
Nunca. Meus pais se sacrificaram muito para que eu chegasse aonde
estou. Comecei a jogar com 4 anos, incentivada por eles, que adoravam tênis.
Quando tinha 6 anos, Martina Navratilova me viu num torneio em Moscou e disse
a meu pai que eu tinha talento. Dois anos depois, eu e ele nos mudamos para os
Estados Unidos, para que pudesse fazer escola de tênis. Minha mãe
continuou na Rússia para acabar a faculdade e conseguir o visto. Só
dois anos depois é que ela veio morar conosco na Flórida. Meu pai
largou uma carreira sólida na construção civil na Rússia
e trabalhou em muitos subempregos para nos sustentar.
A adaptação
foi difícil?
Nem tanto. Aprendi inglês em quatro meses. Quando você
é criança, não percebe direito as dificuldades à sua
volta. Eu só achava o máximo poder jogar tênis o dia inteiro.
Não dá mesmo para controlar os gritinhos durante
os jogos?
Nem pensar. Grito desde que comecei a jogar, e isso faz parte do meu
estilo. Para alguns tenistas, o grito é uma técnica de respiração,
um jeito de soltar o ar. Para mim, não é nada disso. Nem sei direito
por que grito.
Quem faz as suas tão comentadas roupas?
Nos últimos anos, a marca que me patrocina destacou um estilista para trabalhar
nos meus uniformes. Mas sou eu que crio os modelos. Desenho aquilo de que gosto
e mando para ele. Meus desenhos são horríveis, mas ele sempre entende.
Presto muita atenção nas cores da quadra em que vou jogar e escolho
tons que não briguem com elas. Quando o jogo é importante, passo
horas pensando numa roupa em que as pessoas reparem, que torne a partida ainda
mais especial. Também gosto de usar joias quando jogo. E, antes que você
pergunte, não, elas não me atrapalham em nada.
Como
é o seu guarda-roupa? Enorme?
Não, sou muito seletiva. Não
sou do tipo que não repete roupa. Mas sou louca por sapatos. Estou até
desenhando alguns para uma marca americana. Tem sido uma delícia.
Você
pensa no que vai fazer quando parar de jogar?
Devo trabalhar com moda. Adoro o
processo de criação das roupas, o trabalho com diferentes tecidos.
Mas antes quero voltar a ser a número 1 no tênis.
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