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Home  »  Revistas  »  Edição 2141 / 2 de dezembro de 2009


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Esporte

A pantera voltou - e gritando

Feng Li/Getty Images
O MUNDO DE MARIA
"Vida de esportista é assim: no fim de cada dia, você está morto"


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Ela tem corpo de modelo, espírito de vencedora e usa umas roupinhas... bem, basta ver o público masculino subitamente conquistado para o tênis acompanhando, em transe, os gritinhos de Maria Sharapova. Derrubada por uma coisa chamada manguito rotador - não pensem bobagem, é o grupo de músculos do ombro -, ela passou nove meses de molho. Depois de uma cirurgia e do período de recuperação, as intermináveis pernas de pantera e todo o elegante resto voltaram às quadras em maio. Aos 22 anos, 1,88 metro e 59 quilos, Masha, seu apelido russo, além de bela tem genuíno talento: em 2005, chegou a ser a número 1 do tênis mundial. Hoje é a 14ª, mas quer recuperar a hegemonia e está dando um duro danado. Rainha dos contratos publicitários, pela beleza e pelo bom comportamento - não dá escândalo, não joga a raquete no chão, não xinga os juízes -, ela virá no dia 5 a São Paulo, onde vai jogar como parte de uma campanha promocional. Falou à repórter Juliana Linhares, ainda ofegante, no intervalo de um treino, mas com o autocontrole habitual.

Você parece impressionantemente calma para um ramo, o dos atletas de elite, que costuma produzir gente muito desequilibrada. Você se considera normal?
Acho muito importante controlar as emoções durante o jogo. Já ver meus adversários transtornados do outro lado da rede me dá confiança. A maioria dos grandes campeões em todos os esportes mantém essa calma interior quando está competindo.

Qual é a origem da força psíquica que faz um grande atleta?
Trabalho duro e dedicação. Quem treina pesado ganha confiança de que pode e merece ganhar.

Qual o momento numa partida de tênis em que você sente uma euforia absoluta?
Simplesmente adoro competir. Jogo tênis por causa disso: pela emoção de competir. Adoro a batalha entre duas pessoas que é travada na quadra. Mas não há nada melhor no mundo do que apertar a mão da minha adversária quando ganho e ver a torcida toda aplaudindo meu esforço.

É duro ser Sharapova?
Eu treino seis dias por semana, durante cinco horas. Quatro delas são dedicadas ao tênis e uma à ginástica. Pode parecer muito, mas é a rotina de qualquer atleta.

Nessa vida completamente ocupada pelo esporte você consegue ter amigos?
Pouquíssimos. Dá para contar nos dedos de uma mão os amigos de verdade. Levo uma vida bem solitária.

Não dá vontade de sair, ir a festas, beber?
Meu esquema de vida é muito exigente. Desde os 7 anos viajo pelo mundo inteiro durante dez meses por ano, trabalho com gente estranha o tempo todo, tenho de me adaptar a lugares novos em poucos dias. Quando volto para casa, só quero ficar quietinha e ver a minha família e os amigos. Eu me sinto muito mais velha do que sou.

Como você se concentra antes dos jogos?
Não tenho nenhuma técnica especial. Procuro esvaziar a cabeça e ficar focada no jogo. Tento me acalmar pensando em quanto treinei e dizendo para mim mesma que me esforcei o máximo que podia para estar ali. Saber que eu me preparei no limite do meu corpo me acalma.

Você faz regime?
Não, de verdade, mesmo. Se tem uma coisa de que eu gosto nesta vida é comida. Como de tudo, inclusive chocolate. Quando a temporada acaba, gosto de tomar vinho com os amigos. Mas é claro que dou preferência a alimentação leve.

Como muitos atletas, você também convive com a dor?
Faz parte da vida de qualquer atleta. Acordar e não sentir nada é sinal de que alguma coisa está errada. Antes da operação no ombro, eu sentia dores horríveis. Era uma epopeia diária cuidar para que diminuíssem. A vida de esportista é assim: no fim de cada dia, você está morto.

Muitos atletas são filhos de pais tremendamente exigentes que desde a infância os obrigam a superar limites. Você passou por isso?
Nunca. Meus pais se sacrificaram muito para que eu chegasse aonde estou. Comecei a jogar com 4 anos, incentivada por eles, que adoravam tênis. Quando tinha 6 anos, Martina Navratilova me viu num torneio em Moscou e disse a meu pai que eu tinha talento. Dois anos depois, eu e ele nos mudamos para os Estados Unidos, para que pudesse fazer escola de tênis. Minha mãe continuou na Rússia para acabar a faculdade e conseguir o visto. Só dois anos depois é que ela veio morar conosco na Flórida. Meu pai largou uma carreira sólida na construção civil na Rússia e trabalhou em muitos subempregos para nos sustentar.

A adaptação foi difícil?
Nem tanto. Aprendi inglês em quatro meses. Quando você é criança, não percebe direito as dificuldades à sua volta. Eu só achava o máximo poder jogar tênis o dia inteiro.

Não dá mesmo para controlar os gritinhos durante os jogos?
Nem pensar. Grito desde que comecei a jogar, e isso faz parte do meu estilo. Para alguns tenistas, o grito é uma técnica de respiração, um jeito de soltar o ar. Para mim, não é nada disso. Nem sei direito por que grito.

Quem faz as suas tão comentadas roupas?
Nos últimos anos, a marca que me patrocina destacou um estilista para trabalhar nos meus uniformes. Mas sou eu que crio os modelos. Desenho aquilo de que gosto e mando para ele. Meus desenhos são horríveis, mas ele sempre entende. Presto muita atenção nas cores da quadra em que vou jogar e escolho tons que não briguem com elas. Quando o jogo é importante, passo horas pensando numa roupa em que as pessoas reparem, que torne a partida ainda mais especial. Também gosto de usar joias quando jogo. E, antes que você pergunte, não, elas não me atrapalham em nada.

Como é o seu guarda-roupa? Enorme?
Não, sou muito seletiva. Não sou do tipo que não repete roupa. Mas sou louca por sapatos. Estou até desenhando alguns para uma marca americana. Tem sido uma delícia.

Você pensa no que vai fazer quando parar de jogar?
Devo trabalhar com moda. Adoro o processo de criação das roupas, o trabalho com diferentes tecidos. Mas antes quero voltar a ser a número 1 no tênis.

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