Televisão
Os
narcisistas vão à roça
O comportamento
da turma de A Fazenda, da Record, comprova:
ninguém se ama mais
que os participantes dos reality shows

Marcelo Marthe
Ao
ser indicado para o paredão (ou, no caso, a roça) de A Fazenda, na quarta-feira passada, o ator Igor Cotrim apresentou suas razões
para ser salvo da eliminação no reality show da Record: "Minha
presença está divertindo o povo brasileiro". O rapaz tem um
currículo exemplar de celebridade de segunda linha sua maior glória
foi um papel pequeno no seriadinho da dupla Sandy & Junior, extinto lá
se vão seis anos. De divertido, também não tem nada: os colegas
o indicaram ao paredão por sua chatice. Essa absoluta ausência de
autocrítica é previsível: o narcisismo é uma marca
dos participantes de reality shows. No livro The Mirror Effect (O Efeito
do Espelho), publicado neste ano nos Estados Unidos, o psicólogo americano
Drew Pinsky confirmou, com base em testes de personalidade aplicados a centenas
de celebridades, que elas se amam mais que a média da população
e a categoria que suplanta todas as demais em narcisismo é a dos
participantes de reality shows.
Em apenas quinze dias, a
segunda edição de A Fazenda ofereceu um vasto inventário
dos traços psicológicos do narcisismo. A dançarina Adriana
Bombom deu um show de exibicionismo. Ao ter a parte de cima do biquíni
arrancada por uma colega, não teve pudor em correr do banheiro até
a piscina cobrindo os seios com as mãos. Noutro episódio, deixou-se
flagrar sem calcinha, obrigando a produção a recorrer a uma pudorosa
tarja preta para esconder o que não deve ser visto pelas crianças
na sala. As cenas irritaram seu ex, o pagodeiro Dudu Nobre, que não gostou
de ver a mãe de suas duas filhas virar a "peladona do curral".
A Record, aliás, vem se esmerando em explorar a nudez. Santa ironia: nas
pregações do programa Fala que Eu Te Escuto, os bispos da
Igreja Universal sempre condenaram os excessos do Big Brother Brasil, da
concorrente Globo.
De mãos dadas com o exibicionismo,
vem a vaidade extremada. A loira Sheila Mello retoca a maquiagem a toda hora e
procura exibir um tchan literário: surge em cena lendo o romance A Descoberta
do Mundo, de Clarice Lispector. A Fazenda ilustra ainda outro traço:
narcisistas se acham superiores aos demais mortais. Mandão e intolerante
a críticas, o modelo Caco Ricci ficou possesso ao ser chamado de turrão
pelo cantor (não menos convencido) Mauricio Manieri. Numa tendência
que já se tornou clássica nos narcisistas autoritários em
reality shows, Ricci vem clamando para si o status de macho alfa da fazendola.
Até agora, está mais para "macho alfafa", na definição
do desafeto Cotrim.
"Não se faz um programa assim
sem pessoas apaixonadas pela própria imagem", diz Rodrigo Carelli,
diretor de A Fazenda. Mesmo depois da eliminação,
o pessoal não baixa a crista. A bandeirinha Ana Paula Oliveira tomou cartão
vermelho logo na primeira semana. Mas, do alto de sua mísera experiência
em cena, se julga credenciada para virar apresentadora de TV. "Meus dotes
como artista e mulher iluminada ficaram evidentes", diz ultrapassando,
definitivamente, a linha do impedimento. Torcedores do Botafogo se mobilizaram
para votar contra a bandeirinha, que há dois anos esteve no centro de lances
polêmicos que tiraram o clube carioca da final da Copa do Brasil. No futuro,
a moça já vislumbra o sucesso na política: "Como representante
do povo, eu faria do mundo um lugar melhor". O povo que acompanha A Fazenda não parece concordar.
Fotos Divulgação
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