Roberto Pompeu de Toledo
Os kebabs da discórdia
"Na
Rússia, como nos regimes autoritários em geral,
o patriotismo,
esse conhecido último refúgio dos canalhas,
é invocado para
a promoção dos interesses do poder"
Assim como o Custódio,
Aleksander Vanin deu-se mal quando a política bateu de frente com a tabuleta
de seu estabelecimento comercial. O Custódio, protagonista de um famoso
episódio do Esaú e Jacó, de Machado de Assis, era
dono de uma casa, na Rua do Catete, chamada Confeitaria do Império. Aí
veio a proclamação da República e
que fazer, para evitar
a sanha dos novos donos do poder? Mudar a tabuleta para Confeitaria da República
era a solução mais óbvia, mas e se sobreviesse outra reviravolta?
Ia ficar a mudá-la toda hora, com prejuí-zo da identificação
do estabelecimento e perda do dinheiro investido nas tabuletas? O russo Aleksander
Vanin é dono de um restaurante especializado em kebabs na Leningrad Prospect,
no coração de Moscou. O restaurante fica em frente do Hotel Soviético,
velho de mais de cinquenta anos, muito conhecido dos moscovitas e dos homens de
negócios estrangeiros, e, por isso, por ficar bem do outro lado da rua,
ganhou o apelido de "Antissoviético". Vanin gostou do apelido
e três meses atrás o oficializou, inaugurando sobre a porta do restaurante
um colorido letreiro com o nome "Antissoviético".
Incauto
Vanin. Seu letreiro, tão inocente na aparência quanto a tabuleta
do Custódio, transformou-se, nas semanas seguintes, no epicentro de um
terremoto político. A Associação dos Veteranos de Guerra
exigiu da prefeitura de Moscou providências contra um nome que fazia pouco
dos heróis da Grande Guerra Patriótica, como é conhecida
no país a parte que lhe coube na II Guerra Mundial, e do passado soviético
em geral. Em resposta, o jornalista Alexander Podrabinek, combativo dissidente
do antigo regime, acusou a Associação dos Veteranos, na qual se
escondem servidores de vários tipos do período comunista, inclusive
carcereiros dos famigerados gulags, de pintar a União Soviética
como "um lugar de astronautas e safras agrícolas recordes", esquecendo-se
das "centenas de milhares de assassinatos" e dos "milhões
de torturados". Próxima a se pôr em campo, a Nashi (Nós),
um grupo juvenil que conta com as bênçãos do governo e tem
por método o uso da violência e da intimidação, cercou
a casa de Podrabinek e passou a exigir, nada menos, que ele fosse expulso do país.
Tudo isso, e muito mais como abaixo-assinado de intelectuais em favor de
Podrabinek e reação da Nashi "denunciando" que grande
parte dos signatários eram judeus , por causa do nome de um restaurante.
Ou
melhor: por causa das proporções que certas miudezas são
capazes de assumir, quando desencadeadas no momento certo e em terreno propício.
Na Rússia de hoje, um governo autoritário alia-se às sombras
do passado para justificar-se na história. Uma estação de
metrô recentemente reformada tem agora a adorná-la, em grandes letras,
uma linha do antigo Hino Nacional: "Stalin nos educou para ser leais
à nação, ele nos inspira no trabalho e nos grandes feitos".
O patriotismo, esse conhecido último refúgio dos canalhas, é
invocado para a promoção dos interesses do poder. Com a Associação
dos Veteranos de um lado e a Nashi de outro, ou seja, a velha-guarda atacando
por um flanco e a mocidade aloprada pelo outro, configura-se um movimento de pinça
agudo o bastante para fechar-se ao mesmo tempo tanto sobre um restaurante de kebabs
quanto sobre um jornalista dissidente. O jornalista, depois de semanas de seguidos
constrangimentos e ameaças físicas, intensos a ponto de o governo
francês lhe ter oferecido asilo, foi deixado em paz. Quanto ao letreiro
do restaurante
Vanin perdeu. Teve de renunciar à
lustrosa placa que anunciava o kebab como "Antissoviético", por
pressão da prefeitura de Moscou. O Custódio de Machado de Assis
recebeu de seu mentor, o Conselheiro Aires, a sugestão de adotar o nome
"Confeitaria do Governo", para escapar da dicotomia entre Império
e República. Rejeitou-a. A um governo sempre corresponde uma oposição,
argumentou, e a oposição poderia implicar com ele. O episódio
termina com o angustiado comerciante indeciso entre duas outras sugestões:
a de emendar a palavra "império" da tabuleta com a expressão
"da lei", de modo a se tornar o judicioso proprietário de uma
"Confeitaria do Império da Lei", e a de socorrer-se do próprio
nome e contentar-se com uma mais modesta "Confeitaria do Custódio".
Vanin fez pior. Tirou o "anti" do letreiro e ficou com o "Soviético".
Os kebabs ganharam significado oposto ao anterior. E a Leningrad Prospect ficou
com um Hotel Soviético de um lado e um Restaurante Soviético do
outro, uma solução bem a gosto do regime.
|