PUBLICIDADE

Home  »  Revistas  »  Edição 2141 / 2 de dezembro de 2009


Índice    Seções    Panorama    Brasil    Internacional    Economia    Geral    Guia    Artes e Espetáculos    ver capa
Cinema

Esta noite vou tirar o seu sossego

Pouco acontece em Atividade Paranormal, e quase nada se vê.
E é por isso mesmo que esse filme baratíssimo dá tanto medo


Isabela Boscov

Divulgação
FRUTO DA IMAGINAÇÃO
Katie e Micah, que usam seus próprios nomes no filme, tentam entender o que, afinal, está acontecendo em sua casa: um lance de mestre concebido por um programador de videogames e rodado por 15 000 dólares


Não é por acaso que Atividade Paranormal (Paranormal Activity, Estados Unidos, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira, se tornou em coisa de dois meses de exibição o filme de maior rentabilidade da história: 107 milhões de dólares em ingressos nos Estados Unidos, contra 15 000 dólares gastos na produção (para quem não quer fazer a conta, isso representa um retorno de mais de 7 000 vezes sobre o investimento). Ocasionalmente, a bilheteria reflete não só os esforços do departamento de marketing dos estúdios, como também as qualidades reais de um filme. Que, aqui, começam na originalidade e culminam no poder de provocar um medo tão intenso que chega a ser nauseante; aquele medo que é uma emoção palpável e coletiva na sala de cinema e depois, em casa, quando se apaga a luz para dormir, ressurge como um arrepio persistente. O criador dessa experiência rara é Oren Peli, um programador de videogames israelense de 39 anos que há vinte se radicou nos Estados Unidos. Durante alguns dias de 2006, contudo, Peli foi cineasta - e agora, com dois projetos já em andamento, um deles uma continuação de Atividade Paranormal, não há muita dúvida de que essa é que será sua nova profissão. Em 2006, Peli se mudara com a namorada (hoje ex-namorada) para uma casa em San Diego, na Califórnia. A casa produzia alguns ruídos inexplicáveis e acontecimentos estranhos, como portas que apareciam abertas quando deveriam estar fechadas. Em entrevista a VEJA, Peli afirmou que é um sujeito racional e não acredita no sobrenatural - "o que não significa que essas coisas não me deixem apavorado", emendou, entregando-se.

Apavorado e também instigado. Peli levantou 11.000 dólares de sua poupança e pagou 500, por cabeça, a seus dois atores principais, Katie Featherston e Micah Sloat, para que eles interpretassem um jovem casal que se muda para uma casa em San Diego (a do próprio diretor serviu de locação) na qual coisas esquisitas acontecem. Katie está angustiada; Micah, que se acha muito esperto, compra uma câmera de vídeo para registrar tudo o que se passa ali todas as horas do dia - e da noite. Boa parte de Atividade Paranormal consiste de imagens lavadas, sem muita definição (como na foto que ilustra esta reportagem), do casal dormindo em seu quarto. Às vezes, vê-se um sinal de algo que não deveria estar ali. Outras vezes, nada. A dúvida corrói a resistência da plateia. Sem nenhum treinamento formal em cinema, Peli revela-se um mestre na manipulação dessa insegurança, bem como no domínio do crescendo a que o horror deve obedecer: os eventos na casa vão escalar, sim, mas sem que nada seja efetivamente mostrado. Os efeitos especiais são mínimos e discretíssimos. O diretor abre uma porta - e o espectador é que imagina o que está além dela, à medida que seu repertório pessoal do medo assoma à consciência.

Atividade Paranormal nem sequer tem créditos. Os atores - Katie, em particular, é excelente - usam seus próprios nomes e, à maneira de A Bruxa de Blair, os 86 minutos de projeção são tratados como registros "reais", hoje em posse da polícia de San Diego. Blair é evidentemente uma inspiração para o filme. Mas Peli demonstra ter assistido com perspicácia também a O Exorcista, Os Outros e O Bebê de Rosemary, entre tantos clássicos da sugestão psicológica. Outro cineasta que se projetou com filmes notáveis pela combinação de eficácia e simplicidade (por exemplo, Encurralado e Tubarão) reconheceu o talento do que viu. Apesar do sucesso em pequenos festivais e convenções, Atividade Paranormal vinha tendo enorme dificuldade em obter um distribuidor. Até que uma cópia caiu nas mãos de Steven Spielberg, que tentou vê-la à noite em sua casa, ficou com medo demais e teve de continuar a sessão na manhã seguinte, com o sol entrando na sala. Spielberg fez uma campanha acirrada para que o trabalho de Peli fosse lançado comercialmente, e não usado como base para uma versão com nomes mais conhecidos e produção mais luxuosa (o que, com certeza, destruiria todo o impacto do filme). Apenas sugeriu ao novato que tornasse a cena final mais contundente. E, para que ela pudesse ser refeita, ajudou-o a levantar 4.000 dólares adicionais.

Que Spielberg seja capaz de identificar um fenômeno pop em potencial não chega a ser espantoso. Mais surpreendente é que um novato entenda exatamente onde acertou. O próximo filme de Peli será Área 51 - segundo o folclore, a base no deserto de Nevada em que o governo americano guarda as evidências de visitas alienígenas à Terra. É só isso, o que já se sabe, que o diretor aceita dizer sobre o projeto. E, como em Atividade Paranormal, o pouquinho que ele mostra já está se revelando mais do que suficiente para atiçar a curiosidade.

 


Trailer

Video

EDIÇÃO DA SEMANA
ACERVO DIGITAL
PUBLICIDADE



Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados