Comportamento
A dose certa de ciúme
Fernanda
Preto
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Sentimento inato
Para a psiquiatra Donatella
Marazziti, quando se ama, ninguém está imune ao ciúme |
A psiquiatra
italiana Donatella Marazziti dedicou os últimos catorze anos de seu trabalho
a estudar os aspectos bioquímicos e psicológicos relacionados aos
sentimentos mais universais. Começou por investigar os mecanismos cerebrais
relacionados à paixão e ao amor. Dessa linha de estudos resultou
a publicação de A Natureza do Amor, best-seller na Itália e lançado no Brasil em 2007. Recentemente, Donatella esteve
no país para participar do Congresso Brasileiro de Psiquiatria e lançar
seu último livro: ...E Viveram Ciumentos & Felizes para Sempre (Casa
Editorial Luminara). Nele, a psiquiatra, de 52 anos, defende a ideia de
que o ciúme é um sentimento inato, com um papel importantíssimo
na preservação das relações amorosas e do qual ninguém
escapa. Em entrevista à repórter Naiara Magalhães, ela faz
a distinção entre o ciúme normal e o patológico, estabelece
os cinco perfis mais comuns de ciumentos e diz qual é a melhor arma contra
o medo do abandono: "Não perco tempo pensando na possível traição
do meu marido. Invisto minha energia cuidando dele!".
Em
seu livro ...E Viveram Ciumentos & Felizes para Sempre, a senhora defende
a ideia de que o ciúme cumpre um papel importante na manutenção
da relação. Que papel é esse?
O ciúme funciona
como um detector de ameaças, de que algo de errado está acontecendo
na relação. Se as pessoas souberem interpretar as mensagens que
o ciúme manda, poderão usá-lo em benefício do namoro
ou do casamento. Na Itália, costumamos citar o verso de um tango: "Amor
quer dizer ciúme".
É comum ouvirmos histórias
de relações que são desfeitas por causa do ciúme de
um dos parceiros ou até dos dois.
Certa vez, um escritor italiano
comparou o ciúme à pimenta usada para temperar a comida. É
algo que pode dar mais sabor às relações, mas não
deve ser excessivo. Do contrário, ninguém quer experimentar.
E
como saber se o ciúme é ou não excessivo?
Essa é uma
questão crucial não só para os ciumentos, como também
para os psicólogos e psiquiatras que estudam o assunto. Há casos
em que a patologia fica evidente. Mas às vezes é difícil
definir a fronteira entre o normal e o patológico. Para mim, um dos critérios
básicos nessa diferenciação é o tempo que o ciúme
ocupa na vida de uma pessoa. O ciúme é normal quando dura pouco.
Qual é o limite? Eu trabalho com o parâmetro de até uma hora
por dia. Outro indicativo de que o ciúme é normal é que ele
desaparece quando o parceiro assegura que não há motivo para senti-lo.
No fim, não altera a vida do ciumento nem a de seu parceiro, apesar de
causar sofrimento enquanto dura.
Como algo que implica sofrimento
pode fazer bem?
Se a pessoa se pergunta "o que me faz sentir ciúme?",
ela pode usar a reflexão que surge desse questionamento para melhorar a
relação. É inevitável que o medo de ser traído
e de a relação acabar cause dor. Mas, quando a pessoa se debruça
sobre esses medos, em geral acaba por valorizar mais o parceiro. Podemos comparar
o ciúme à dor física: é ruim senti-la, mas ela tem
um papel vital para evitar que nos arrisquemos em experiências demasiadamente
perigosas. Quem não sente dor pode morrer precocemente por se expor a riscos
muito altos. A dor, assim, promove nossa evolução. Por outro lado,
quem sente dores terríveis sofre demais e vive menos. O ciúme funciona
de maneira semelhante: na medida certa, protege; em excesso, mata a relação.
O
que caracteriza o excesso de ciúme?
Vasculhar a bolsa ou a carteira do
parceiro, checar as mensagens do celular ou ligar para todos os amigos do marido
ou da mulher cada vez que ele ou ela não atende ao telefone, por exemplo,
não são comportamentos bons para o relacionamento, embora possam
estar presentes em quadros de ciúme ainda considerados relativamente normais.
São atitudes ruins porque colocam o foco no terceiro elemento da suposta
traição, e não no parceiro, o que compromete a relação
saudável.
Se bisbilhotar o computador e o celular do
parceiro pode ser considerado até certo ponto normal, o que indica que
o ciúme passou do limite e se tornou doentio?
Quando a pessoa restringe
a vida do parceiro à relação do casal, provavelmente o ciúme
já virou patológico. Primeiro, o ciumento consegue um jeito de o
parceiro não ir mais à happy hour com os colegas do trabalho, depois
o convence a não ir mais a encontros com os amigos de faculdade e, quando
o parceiro se dá conta, já não pode cumprir atividades rotineiras,
como ir ao supermercado ou ao banco, sem que isso não implique ser controlado.
O namorado ou o marido, ou a namorada ou a mulher, passam a viver praticamente
encarcerados na relação a dois. Mesmo querendo agradar ao ciumento,
ao fazer tais concessões a pessoa que é alvo do ciúme sofre
por ter abandonado sua vida social e por ter abdicado de vínculos afetivos
importantes. O ciumento, por sua vez, nunca estará plenamente satisfeito
com a situação que ele próprio criou qualquer esboço
de vontade por parte do outro de retomar a vida vai causar-lhe ainda mais apreensão. O ciúme doentio não dá um momento de tranquilidade nem
ao ciumento nem ao parceiro dele. Nunca está satisfeito.
Se
sentir ciúme é inevitável, o que é possível
fazer para amenizar o sofrimento que ele causa?
Duas atitudes são fundamentais
para a pessoa lidar bem com o ciúme e torná-lo menos sofrido.
A primeira é parar para refletir sempre que o ciúme aparecer.
É preciso tentar entender a origem do sentimento. Você sente ciúme
porque já foi traído e tem medo de que a experiência ruim
do passado se repita? O problema está em você ou em seu parceiro?
O ciúme foi desencadeado por sua insegurança? Seu parceiro fez alguma
coisa que ameaçou de fato a relação? A segunda coisa é
falar com o parceiro sobre o ciúme que você sente. Se o problema
for tratado sem histeria (ou seja, nunca no auge de uma crise e sempre depois
de restaurada a calma), esse tipo de conversa poderá ter um grande benefício
para o casal. O parceiro concordará em evitar alguns comportamentos que
não lhe são indispensáveis, mas fazem o outro sofrer.
Alguém
está imune ao ciúme?
Quando se ama, não. Todo mundo sente,
já sentiu ou sentirá ciúme do amado. Muitas pessoas podem
até achar que não têm ciúme, mas elas estão
enganadas. O ciúme normal é um sentimento efêmero: emerge
e vai embora. É isso que faz com que muita gente se diga imune a ele. Quando
uma pessoa vem a mim e diz "doutora, eu não sou ciumento", proponho
o seguinte exercício: peço a ela que pense em seu parceiro conversando
com um homem ou uma mulher atraente. Em seguida, peço que imagine que os
dois estão se beijando. Vamos assim, num crescendo, até o ciúme
emergir. E eu garanto: ele sempre aparece.
Qual
é o peso dos fatores culturais no modo como as pessoas costumam manifestar
o ciúme?
Os componentes culturais têm influência, sem dúvida.
Mas, para mim, o papel mais decisivo cabe à biologia: o ciúme é
um sentimento inato. E há vários indícios disso. Um deles
é o fato de que o ciúme está presente nas mais diferentes
culturas, dos Estados Unidos à China. Ao longo da história, algumas
sociedades tentaram evitar o ciúme, mas, por mais esforços que tenham
feito, não conseguiram. Comunidades americanas fundadas no século
XIX, como a dos mórmons e a dos oneidas, baseadas na poligamia e no amor
livre, não conseguiram abafar o sentimento. Há o caso célebre
de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Eles optaram por um casamento aberto,
mas não evitaram o ciúme e o sofrimento trazido por ele. O ciúme
é um sentimento exclusivamente humano um sentimento complexo, que
envolve áreas cerebrais e processos mentais que não estão
desenvolvidos nos animais.
É comum vermos relações
desgastadas, em que o homem e a mulher não demonstram mais amor um pelo
outro mas continuam a apresentar comportamentos típicos dos ciumentos.
Nesses casos, é provável que o homem ou a mulher considere o parceiro
apenas objeto de sua posse. Esse tipo de comportamento tem pouco (ou nada) a ver
com o amor e, portanto, tem pouco (ou nada) a ver com o ciúme normal.
No ciúme patológico, a vaidade e a possessão assumem
um papel maior. Repito: o foco do ciúme normal é o parceiro que
o enciumado tanto ama e teme perder. O foco do sentimento patológico
é o próprio ciumento.
As pessoas com baixa autoestima
estão mais vulneráveis às crises de ciúme?
O ciúme
não tem a ver com falta de autoconfiança, necessariamente. Há
vários traços de personalidade que podem favorecer seu aparecimento.
Num estudo com 500 pessoas que realizei com meu grupo de pesquisa, foram identificados
cinco tipos de ciúme que podem variar na escala da normalidade: o ciúme
depressivo, que realmente está relacionado à baixa autoestima, mas
também o obsessivo, o paranoide, o hipersensível e o ansioso.
O
que caracteriza cada um desses tipos de ciúme?
O ciúme depressivo
acomete pessoas que sempre consideram seus parceiros melhores do que elas. Para
essas, é óbvio que, se ainda não foram, um dia serão
traídas. O ciumento do tipo depressivo não costuma tomar muitas
atitudes com relação a seu sentimento. Geralmente sofre sozinho,
calado. É o que chamamos de ciúme "Charlie Brown", em
referência àquele personagem dos quadrinhos. A marca do ciúme
obsessivo são os questionamentos e comportamentos repetitivos. Os ciumentos
dessa categoria vasculham reiteradamente as coisas do parceiro, checam os bolsos
e as mensagens no celular à procura de indícios de traição.
Ligam o tempo todo para ele e perguntam: "Você me ama?". E também
sempre questionam a si mesmos: "Ele me ama? Ele me trai?". São
consumidos pela dúvida constante. É o ciúme que rotulamos
"Hamlet". Já o ciúme paranoide é típico
do sujeito que tem um grau maior de certeza de que o parceiro o trai. Ele fantasia
a traição valendo-se de indícios que só são
significativos para ele. São pessoas muito rígidas no seu modo de
pensar e de agir. Criam regras que elas próprias seguem e cobram do parceiro
que ele tenha os mesmos comportamentos. Dizem coisas do tipo: "Eu recusei
sair com meus amigos hoje, então não encontre seus amigos amanhã".
A esse tipo de ciúme chamamos de ciúme "Otelo". O ciúme
hipersensível é típico das pessoas melindrosas. Elas não
suportam a reprovação ou uma palavra mais brusca do parceiro, mas
preferem sofrer em silêncio. O ciúme ansioso, por fim, é comum
entre as pessoas que estão em constante estado de alerta. Na verdade, é
um desdobramento da própria ansiedade.
O
celular e a internet, principalmente as redes sociais como Facebook, Orkut e Twitter,
não servem de combustível ao ciúme?
Esses recursos alimentam
o ciúme, sem dúvida. De um lado, porque aumentam realmente as possibilidades
de traição e, consequentemente, ampliam os motivos para o aparecimento
do sentimento. Atualmente, sem sair de casa, uma pessoa pode conhecer outra pela
internet e acabar tendo com ela uma relação extraconjugal. De outro
lado, essas ferramentas deixam as pessoas mais suscetíveis à vigilância
do ciumento. As relações ficam muito mais expostas.
A
senhora é ciumenta?
Eu me considero levemente ciumenta. Ocasionalmente,
sinto mais ciúme do que o habitual, mas consigo dominá-lo. Tenho
uma fórmula para não ser consumida pelo ciúme: não
perco tempo pensando na possível traição do meu marido. Invisto
minha energia cuidando dele! Funciona, eu garanto. |