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Ponto
de vista: Lya Luft Coisas
importantes "Angustia-me a negligência
com uma questão tão grave, que para alguns nunca chega a
ser um drama, mas que é tão fatal quanto balas perdidas
ou tiros intencionais: o alcoolismo"
O dispendioso referendo a que acabamos de ser submetidos teve ao menos um resultado
positivo: o povo entendeu que deve mostrar seu descontentamento usando o voto,
a melhor das armas. O voto manifestou o repúdio
dos brasileiros a políticas públicas aqui praticadas, não
apenas na área da segurança mas na de saúde e defesa sanitária,
na de educação e na de moradia. Dinheiro existe, orçamentos
também, mas as aplicações estão sempre muito aquém
das necessidades. Ainda no campo da saúde
pública, um tema me parece urgente: o efeito da propaganda de bebidas alcoólicas,
sobretudo na televisão. Se para a maioria das pessoas a bebida não
causa problema e pode ser moderadamente tomada, em muitas provoca a terrível
doença do alcoolismo, promovendo grande sofrimento pessoal e familiar,
assassinatos por acidentes de trânsito ou armas de fogo.
Em nome desses para quem beber é uma perdição, deveríamos
suspender tais propagandas, duas das quais me irritam particularmente pela mensagem
turva e pelo mau gosto: um marido, entediadíssimo enquanto a mulher compra
comida para os filhos, ao escutar algo que lhe lembra "bebida", anima-se, enche
o carrinho, e ouve-se o comentário (cínico, no caso): "Beba com
moderação".
Ilustração
Atomica Studio
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Na
outra, engraçada para um olhar desavisado, depois de beber as pessoas começam
a se cumprimentar passando a mão no traseiro umas das outras. Quando sóbrias,
cumprimentavam-se apenas com um simples abraço rápido. Recado para
os desprevenidos: "Bêbados, ficamos mais ousados, mais interessantes, a
vida é mais gostosa..." A propaganda é além de tudo enganosa,
pois, ao contrário do que ela pretende mostrar, bebendo em excesso ficamos
chatos, inoportunos, desagradáveis e violentos... quando não criminosos.
O mal advindo da falta de maior controle sobre
a venda, o consumo e a propaganda de álcool é imenso. Como parece
imensa a necessidade de nos anestesiarmos com substâncias que vão
da falsamente inocente maconha a drogas ainda mais destruidoras passando
pela bebida, ainda não oficialmente considerada "droga", embora o seja.
Quem não gostaria de escapar, eventualmente,
da concretude da vida, que é tão rica e instigante, mas pode ser
tediosa ou ameaçadora, violenta e corrupta? Isso nos torna frágeis
diante da lei, descumprida, sobre a venda de álcool a menores, da facilidade
com que ele é adquirido e da propaganda que faz parecer divertida tão
perigosa servidão, para quem corre o risco de se tornar seu escravo, e
precisaria ser respeitado. Anos atrás, visitei
várias vezes uma importante clínica de recuperação
de drogados (incluindo alcoólatras) em outro estado, acompanhando amigos
cujo filho ali recebia tratamento. A maior parte dos internos era de freqüentadores
habituais: tinham alta e retornavam, alguns já com seqüelas, destruídos
os neurônios, a beleza, a juventude e o futuro.
O álcool e outras drogas não produzem apenas casos trágicos
e clínicas de recuperação: invadem nosso cotidiano. Outro
dia, caminhando cedo pela manhã em seu bairro, uma conhecida minha encontrou
jovens saindo da loja de conveniência (aberta 24 horas) em um posto de gasolina,
com várias garrafas de bebida. Entravam em seus carros, arrancavam, voltavam,
saíam outra vez, insultavam-se, riam, jogavam garrafas uns nos outros ou
nos carros que passavam. De repente, um deles soltou um foguete praticamente dentro
do posto de gasolina. Tudo acabou em alguns minutos,
sem nenhum acidente mais sério. Digamos que foi uma brincadeira de gente
imatura. Porém, a tragédia espreitava, como tantas vezes em que
brincamos com o perigo real. Não sou moralista.
Não ignoro as dores da vida que nos levam a buscar esquecimento e alienação.
Angustia-me a negligência com uma questão tão grave, que para
alguns nunca chega a ser um drama, porém para outros funciona como uma
arma contra si e contra todos tão fatal quanto balas perdidas ou
tiros intencionais. Lya Luft é
escritora |