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Livros Um
desafio global Como criar uma nova ordem
num mundo em que os Estados perderam poder e soberania  Carlos
Rydlewski
Michael
Kappeler/AFP
 | | Encontro
dos líderes das nações mais desenvolvidas: em busca de soluções
conjuntas |
Parafraseando
o escritor americano Mark Twain, pode-se dizer que os rumores sobre a morte dos
Estados nacionais têm sido muito exagerados. Eles ainda são os principais
atores no jogo político mundial, e assim devem continuar por um longo tempo.
Algo bem diferente é constatar que, nas últimas décadas,
a globalização transformou a vida das nações de maneira
inapelável. O fortalecimento das empresas e dos mercados financeiros transnacionais,
além de saltos gigantescos no campo tecnológico, retirou do Estado
muito de sua autoridade. Um dos pilares de sua imagem clássica foi solapado:
o da soberania. Compreender esse fenômeno e descrevê-lo de maneira
adequada é uma tarefa que ocupa, hoje em dia, os melhores cérebros
no campo da teoria política. Uma síntese cristalina desses debates
se encontra no livro A Humanidade e Suas Fronteiras (Paz e Terra; 556 páginas;
45 reais), do jurista paulistano Eduardo Felipe Pérez Matias.
Matias
demonstra como o arsenal teórico e retórico a respeito
da ação estatal perde validade a cada dia. Por exemplo: fora de
um contexto de guerra ou de invasão, as restrições à
soberania de um país foram sempre abordadas com o uso do conceito de "autolimitação".
Em outras palavras, só cabia ao Estado decidir sobre a eventual restrição
de seus poderes. Esse modelo ainda explica o surgimento de tratados ou entidades
supranacionais como a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Mas ele já não é suficiente num mundo em que o bater de asas
do mercado financeiro, digamos, na China, pode causar tufões pelo mundo
todo. Como afirma Matias, o esgarçamento
da soberania estatal não é algo em si negativo. Ele tem razão.
A globalização retirou, por exemplo, boa parte do peso da ideologia
no campo econômico. Isso se vê no Brasil. Independentemente da bandeira
política que a ocasião possa fixar no topo do Palácio do
Planalto, já ficou claro que existem parâmetros objetivos que precisam
ser cumpridos caso o país deseje manter sua estabilidade e garantir sua
inserção no comércio mundial. Mas A Humanidade e Suas
Fronteiras trata do tema num plano mais abstrato. É interessante compará-lo
com outros livros recentemente lançados: Multidão (Record)
e A Democracia no Mundo de Hoje (Martins Fontes). O primeiro é assinado
pelo americano Michael Hardt e pelo italiano Antonio Negri (mentor do grupo terrorista
Brigadas Vermelhas, nos anos 70). Ele traz uma visão de extrema esquerda
do mundo contemporâneo, segundo a qual uma ordem imperial estaria se consolidando
e a única alternativa a ela seria o fortalecimento do poder da "multidão".
O segundo livro é de autoria do alemão Otfried Höffe, um dos
mais originais pensadores políticos contemporâneos. Num estilo rigoroso
e avesso a slogans fáceis, Höffe analisa o surgimento de uma "República
Mundial" e procura estabelecer os meios políticos e jurídicos para
que ela seja o mais justa possível. Esse é o time de Matias. |