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Internacional Mentiras
em massa O New York Times faz
autocrítica: a ex-mártir da liberdade de imprensa era de
fato rainha do engodo Numa história
fenomenalmente complicada, alguns fatos são claros no caso que envolve
Judith Miller, repórter-estrela do jornal The New York Times, e
a encrenca em que membros do governo americano se meteram ao revelar a jornalistas,
de maneira ilegal, a identidade de uma agente da CIA. Miller ocultou informações
importantes, distorceu fatos e simplesmente mentiu à direção
do jornal quanto a sua participação. Constrangeu colegas, humilhou
seus superiores e colocou em posição embaraçosa aqueles que,
de boa-fé, porém mal informados, lhe manifestaram apoio. Por isso,
de pseudo-heroína da liberdade de imprensa, a mulher que passou 85 dias
presa em defesa do direito de não revelar o nome do integrante do governo
que lhe contara a identidade da agente (o agora enrascado assessor presidencial
Lewis Libby), saiu da cadeia diretamente para a ignomínia.
Recebida gentilmente na porta da prisão por Arthur Sulzberger Jr., editor
e representante da família que tem tinta do Times no sangue há
quatro gerações, Miller foi desconstruída em poucos dias.
Uma reportagem do próprio jornal recapitulou seus erros. Na origem de tudo,
estão as matérias que escreveu antes e durante a invasão
do Iraque. Disposta a dar o grande furo da época a prova das armas
de destruição em massa que o governo Bush atribuía ao regime
de Saddam Hussein , ela várias vezes anunciou a descoberta iminente
do que se revelou inexistente. Quando o jornal fez um mea-culpa sobre os erros
cometidos na cobertura, Miller empurrou a responsabilidade com a barriga. "Os
analistas, os especialistas e os jornalistas que cobriram a questão das
armas de destruição em massa todos nós erramos. Se
suas fontes erram, você erra", alegou, para fúria de inúmeros
colegas é claro que jornalistas podem ser enganados por informantes
mal-intencionados, mas faz parte de seu trabalho justamente detectar as armadilhas.
As armas da discórdia também estão por trás do caso
que agora incomoda simultaneamente o governo Bush e o Times: Libby, o assessor
presidencial, disse a Miller e a outros jornalistas que o homem que havia contestado
publicamente um dos braços da campanha anti-Saddam era casado com uma agente
da CIA, Valerie Plame. O objetivo provável era desacreditá-lo. Miller
não publicou nada a respeito no jornal (Por quê? Diz que ofereceu
a matéria e a editora a rejeitou; mentira, proclama a editora). Quando
o caso passou a ser investigado, foi intimada a declinar sua fonte. Recusou-se,
no que parecia ser uma atitude nobre enquanto mantinha nebulosas negociações
com Libby via advogado e dava informações enganosas à direção
do jornal. Presa por desacato à Justiça, ganhou aura de mártir
para a direção do jornal, que lhe dedicou nada menos que quinze
editoriais de apoio. Já os colegas se dividiam em duas turmas: os que,
descrentes da natureza humana, achavam que estava usando a cadeia para reabilitar
sua carreira e os que torciam para que não saísse de lá.
No fim, a direção do Times fez a autocrítica com base
na pedra fundamental do jornalismo: buscar a verdade, doa a quem doer. Nem que
seja em si mesmo. |