Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Internacional
Todos os suspeitos
do presidente

Investigação sobre vazamento
na Casa Branca chega aos homens
de confiança de Bush

 
AP
Kevin Lamarque/Reuters
Bush e a turma sob investigação: Cheney, Rove e Libby. Por enquanto, só Libby foi indiciado
Win Macnamee/AFP
Jason Reed/Reuters

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Em Profundidade: A era Bush

O presidente George W. Bush não está pessoalmente envolvido. Mas, como entre os investigados estão Karl Rove, seu principal assessor político, o vice-presidente, Dick Cheney, e seu chefe-de-gabinete, Lewis Libby, o assunto tem o potencial de colocar seu mandato de cabeça para baixo. Os três são suspeitos de ter revelado a jornalistas a identidade de uma agente secreta da CIA. Trata-se de um crime que pode dar até cinco anos de cadeia. Na sexta-feira, o promotor Patrick Fitzgerald, que investiga o caso, indiciou Libby por falso testemunho, obstrução de Justiça e perjúrio. Libby pediu demissão em seguida. Em depoimento ao júri popular que acompanha o inquérito, Libby disse que soube da identidade da agente, chamada Valerie Plame, por jornalistas. A mentira desabou quando o promotor descobriu, em documentos apreendidos, que a fonte de Libby foi o próprio Cheney, em 2003. Por sua vez, o vice-presidente obteve a informação de George Tenet, na época diretor da CIA. Karl Rove, estrategista político de todas as campanhas de Bush, também pode ser indiciado nas próximas semanas.

O escândalo – que já está sendo chamado de Plamegate, em alusão ao Watergate, que acabou por derrubar o presidente Richard Nixon, na década de 70 – não é grave apenas porque levanta a suspeita do envolvimento de pessoas próximas de Bush com um crime, mas também por estar conectado aos argumentos falsos utilizados pelo governo americano para justificar a guerra no Iraque. Uma das estratégias para convencer a opinião pública americana de que o Iraque representava uma ameaça era a de dizer que o ditador iraquiano Saddam Hussein desenvolvia armas de destruição em massa. Em janeiro de 2003, Bush chegou a afirmar em discurso à nação que Bagdá teria tentado comprar urânio, matéria-prima da bomba atômica, do Níger, um país africano.

Três meses depois da invasão do Iraque, o embaixador aposentado Joseph Wilson afirmou em um artigo no The New York Times que a informação de Bush era falsa e que o governo sabia. Wilson tinha autoridade para dizer isso. Em fevereiro de 2002, ele havia sido enviado pela CIA ao Níger para investigar a suposta venda de urânio ao Iraque. Concluiu que se tratava de fantasia e preparou um relatório a respeito. Não se sabe se ele foi lido na Casa Branca ou se se perdeu em meio à papelada – o certo é que o governo insistiu na existência da conexão nuclear entre o Iraque e o Níger. Dias depois do artigo de Wilson, diversos jornalistas receberam, de altos funcionários da Casa Branca, uma informação cujo único objetivo era desmoralizar Wilson. O que ouviam era que o diplomata era um incompetente e só recebera a missão por indicação de sua mulher, Valerie Plame, uma especialista em armas de destruição em massa que trabalhava secretamente para a CIA.

O caráter fechado do pequeno grupo de amigos que dá as cartas no governo Bush e sua aberta estratégia de contra-atacar com violência todo e qualquer desafeto não deixam dúvida sobre as razões do vazamento: o objetivo era punir Wilson por suas declarações. A pedido do diretor da CIA George Tenet, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos iniciou uma investigação para descobrir quem havia revelado que a mulher de Wilson era uma agente secreta – o que, além de ser crime, acabou com a carreira dela. O promotor designado para o caso, Fitzgerald, colheu o depoimento de vários funcionários do governo americano e jornalistas. Um deles, Matthew Cooper, da revista Time, contou que sua fonte tinha sido Karl Rove, o mentor político de Bush. O advogado de Rove, depois, confirmou a informação. Outra jornalista, Judith Miller, do The New York Times, alegando o direito de preservar a fonte, negou-se a testemunhar e ficou 85 dias presa. Saiu no mês passado e entregou Libby (veja reportagem).

O presidente americano Bush não está mesmo em boa forma política. Na semana passada, outros dois fatos abalaram a imagem de sua Presidência. O primeiro foi a notícia de que o número de americanos mortos no Iraque chegou a 2.000, em pouco mais de dois anos de ocupação militar. E, o que é pior, a situação militar não dá indícios de que pode melhorar. O segundo fato indigesto para Bush foi o fracasso na tentativa de nomear sua advogada pessoal, Harriet Miers, para ocupar uma vaga na Suprema Corte dos Estados Unidos. O currículo profissional de Miers foi considerado insuficiente para a função até por senadores republicanos – para não falar da oposição da direita religiosa, que torceu o nariz ao saber que a candidata já tivera uma fase liberal. Na quinta-feira, Miers desistiu da indicação. Após o fracasso do governo americano em dar socorro às vítimas do furacão Katrina, em agosto, tudo que o Bush não precisava era de um escândalo como o Plamegate, que levanta a hipótese de que ele mentiu ao povo para justificar uma guerra. Afinal, sua aprovação popular já está em cerca de 40% – o mais baixo índice desde que assumiu o cargo, em 2001.

 

Quem entregou Valerie Plame?

 
Jonas Karlsson/Vanity Fair/AP
Valerie Plame e o marido, Joseph Wilson: a serviço da CIA

1 Três meses depois da invasão do Iraque, em 2003, Joseph Wilson, um diplomata americano aposentado, publicou um artigo denunciando como fraude um dos argumentos usados pelos Estados Unidos para depor Saddam, a suposta compra pelo Iraque de urânio no Níger. Antes da guerra, Wilson tinha sido enviado à África pelo governo americano para investigar o assunto, mas a Casa Branca ignorou seu relatório.

2 Pouco depois, por vingança, alguém muito poderoso vazou à imprensa que Valerie Plame, mulher de Wilson, era agente secreta da CIA. Como identificar publicamente um agente secreto é crime nos Estados Unidos, um promotor especial foi designado para investigar o vazamento.

3 As suspeitas concentram-se agora em três homens próximos ao presidente: o vice-presidente Dick Cheney, Lewis Libby, chefe-de-gabinete de Cheney, e Karl Rove, o principal assessor político de Bush.

 
 
 
 
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