|
|
Internacional Todos
os suspeitos do presidente Investigação
sobre vazamento na Casa Branca chega aos homens de confiança de
Bush AP
 | Kevin
Lamarque/Reuters
 | | Bush
e a turma sob investigação: Cheney, Rove e Libby. Por enquanto,
só Libby foi indiciado | Win Macnamee/AFP
 | Jason
Reed/Reuters
 |
O presidente George W. Bush não
está pessoalmente envolvido. Mas, como entre os investigados estão
Karl Rove, seu principal assessor político, o vice-presidente, Dick Cheney,
e seu chefe-de-gabinete, Lewis Libby, o assunto tem o potencial de colocar seu
mandato de cabeça para baixo. Os três são suspeitos de ter
revelado a jornalistas a identidade de uma agente secreta da CIA. Trata-se de
um crime que pode dar até cinco anos de cadeia. Na sexta-feira, o promotor
Patrick Fitzgerald, que investiga o caso, indiciou Libby por falso testemunho,
obstrução de Justiça e perjúrio. Libby pediu demissão
em seguida. Em depoimento ao júri popular que acompanha o inquérito,
Libby disse que soube da identidade da agente, chamada Valerie Plame, por jornalistas.
A mentira desabou quando o promotor descobriu, em documentos apreendidos, que
a fonte de Libby foi o próprio Cheney, em 2003. Por sua vez, o vice-presidente
obteve a informação de George Tenet, na época diretor da
CIA. Karl Rove, estrategista político de todas as campanhas de Bush, também
pode ser indiciado nas próximas semanas.
O escândalo que já está sendo chamado de Plamegate,
em alusão ao Watergate, que acabou por derrubar o presidente Richard Nixon,
na década de 70 não é grave apenas porque levanta
a suspeita do envolvimento de pessoas próximas de Bush com um crime, mas
também por estar conectado aos argumentos falsos utilizados pelo governo
americano para justificar a guerra no Iraque. Uma das estratégias para
convencer a opinião pública americana de que o Iraque representava
uma ameaça era a de dizer que o ditador iraquiano Saddam Hussein desenvolvia
armas de destruição em massa. Em janeiro de 2003, Bush chegou a
afirmar em discurso à nação que Bagdá teria tentado
comprar urânio, matéria-prima da bomba atômica, do Níger,
um país africano. Três
meses depois da invasão do Iraque, o embaixador aposentado Joseph Wilson
afirmou em um artigo no The New York Times que a informação
de Bush era falsa e que o governo sabia. Wilson tinha autoridade para dizer isso.
Em fevereiro de 2002, ele havia sido enviado pela CIA ao Níger para investigar
a suposta venda de urânio ao Iraque. Concluiu que se tratava de fantasia
e preparou um relatório a respeito. Não se sabe se ele foi lido
na Casa Branca ou se se perdeu em meio à papelada o certo é
que o governo insistiu na existência da conexão nuclear entre o Iraque
e o Níger. Dias depois do artigo de Wilson, diversos jornalistas receberam,
de altos funcionários da Casa Branca, uma informação cujo
único objetivo era desmoralizar Wilson. O que ouviam era que o diplomata
era um incompetente e só recebera a missão por indicação
de sua mulher, Valerie Plame, uma especialista em armas de destruição
em massa que trabalhava secretamente para a CIA.
O caráter fechado do pequeno grupo de amigos que dá as cartas no
governo Bush e sua aberta estratégia de contra-atacar com violência
todo e qualquer desafeto não deixam dúvida sobre as razões
do vazamento: o objetivo era punir Wilson por suas declarações.
A pedido do diretor da CIA George Tenet, o Departamento de Justiça dos
Estados Unidos iniciou uma investigação para descobrir quem havia
revelado que a mulher de Wilson era uma agente secreta o que, além
de ser crime, acabou com a carreira dela. O promotor designado para o caso, Fitzgerald,
colheu o depoimento de vários funcionários do governo americano
e jornalistas. Um deles, Matthew Cooper, da revista Time, contou que sua
fonte tinha sido Karl Rove, o mentor político de Bush. O advogado de Rove,
depois, confirmou a informação. Outra jornalista, Judith Miller,
do The New York Times, alegando o direito de preservar a fonte, negou-se
a testemunhar e ficou 85 dias presa. Saiu no mês passado e entregou Libby
(veja reportagem).
O presidente americano Bush não está mesmo em boa forma política.
Na semana passada, outros dois fatos abalaram a imagem de sua Presidência.
O primeiro foi a notícia de que o número de americanos mortos no
Iraque chegou a 2.000, em pouco mais de dois anos de ocupação militar.
E, o que é pior, a situação militar não dá
indícios de que pode melhorar. O segundo fato indigesto para Bush foi o
fracasso na tentativa de nomear sua advogada pessoal, Harriet Miers, para ocupar
uma vaga na Suprema Corte dos Estados Unidos. O currículo profissional
de Miers foi considerado insuficiente para a função até por
senadores republicanos para não falar da oposição
da direita religiosa, que torceu o nariz ao saber que a candidata já tivera
uma fase liberal. Na quinta-feira, Miers desistiu da indicação.
Após o fracasso do governo americano em dar socorro às vítimas
do furacão Katrina, em agosto, tudo que o Bush não precisava era
de um escândalo como o Plamegate, que levanta a hipótese de que ele
mentiu ao povo para justificar uma guerra. Afinal, sua aprovação
popular já está em cerca de 40% o mais baixo índice
desde que assumiu o cargo, em 2001.
Quem entregou Valerie Plame?
Jonas
Karlsson/Vanity Fair/AP
 | | Valerie
Plame e o marido, Joseph Wilson: a serviço da CIA |
1 Três meses depois da invasão do Iraque,
em 2003, Joseph Wilson, um diplomata americano aposentado, publicou um artigo
denunciando como fraude um dos argumentos usados pelos Estados Unidos para depor
Saddam, a suposta compra pelo Iraque de urânio no Níger. Antes da
guerra, Wilson tinha sido enviado à África pelo governo americano
para investigar o assunto, mas a Casa Branca ignorou seu relatório.
2 Pouco depois, por vingança, alguém
muito poderoso vazou à imprensa que Valerie Plame, mulher de Wilson, era
agente secreta da CIA. Como identificar publicamente um agente secreto é
crime nos Estados Unidos, um promotor especial foi designado para investigar o
vazamento. 3 As suspeitas concentram-se
agora em três homens próximos ao presidente: o vice-presidente Dick
Cheney, Lewis Libby, chefe-de-gabinete de Cheney, e Karl Rove, o principal assessor
político de Bush. | | |