Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Brasil
O Planalto atuou
para ajudar o Rural

Como o Banco Central sofreu pressões
do governo e do lobista Marcos Valério
para financiar o banco mineiro e o PT


Felipe Patury


Dida Sampaio/Celso Junior/AE
AE
Após conversa com Lula, Meirelles (à esq.) estudou o fim da liquidação do Mercantil: pleito de Valério

Em julho passado, uma reportagem de capa de VEJA revelou que o lobista Marcos Valério de Souza chantageou o governo. A matéria dizia que Valério exigira 200 milhões de reais para não revelar o inteiro teor de sua relação com os líderes do Partido dos Trabalhadores. Aquele valor, adiantava a reportagem, equivaleria ao prêmio que o lobista mineiro esperava obter caso fosse bem-sucedido em desembaraçar junto ao Banco Central uma antiga e grossa encrenca financeira: o encerramento da liquidação dos bancos Econômico e Mercantil de Pernambuco. Dependendo da forma como fosse encaminhada a operação, ela poderia dragar dos cofres públicos até 1 bilhão de reais. Valério empenhava-se em solucionar o caso a pedido do Banco Rural, que sonhava em comprar o controle do Mercantil. Empenhava-se também em nome do banqueiro Ângelo Calmon de Sá, do Econômico. Atuava ainda em nome próprio e no interesse financeiro do PT, que ficaria com parte da recompensa caso a transação fosse aprovada. "Valério disse que era capaz de resolver meu problema, que poderia fazer o Banco Central suspender a liquidação do Econômico. Disse ainda que não queria nada em troca para ele mesmo. Queria que eu contribuísse com o PT quando estivesse tudo resolvido. Concordei com essa proposta, é claro", disse Calmon de Sá a VEJA.

Pelo que se sabe hoje, Valério esteve à beira de conseguir seu intento. A operação de encerramento das liquidações dos bancos Mercantil e Econômico foi abortada depois que Valério se tornou uma figura nacional e passou a ser conhecido como "aquele carequinha mineiro que falava de dinheiro como se ele caísse do céu" – nas palavras do ex-deputado Roberto Jefferson, responsável pela súbita notoriedade do operador financeiro do PT. Começam agora a surgir detalhes de como Valério atuou dentro do Banco Central para conseguir aprovar o negócio. Ele esteve perto, muito perto de arrancar o 1 bilhão de reais dos cofres públicos.


Fotos Sergio Dutti/Ana Araujo
Monteiro Filho (acima) com Lula, em 1994, e Monteiro Neto: um é amigo, outro dirige a CNI

VEJA obteve uma relação das visitas feitas por Marcos Valério à sede do Banco Central em Brasília e à sua sede em São Paulo. O documento, solicitado pelo deputado Gustavo Fruet, da CPI dos Correios, dá uma indicação precisa de como, onde, com quem e quando o lobista atuou para tentar cumprir sua promessa. Desde o início de 2003, quando o PT chegou ao poder, Marcos Valério entrou, pelo menos, dezessete vezes no Banco Central. Esses são os registros de entrada contabilizados nas portarias da instituição. O número destoa da versão inicial do banco, divulgada para a imprensa e comunicada informalmente ao próprio Fruet, de que as visitas de Valério à instituição não passariam de quatro. O número de dezessete visitas ganha importância quando se lembra que o Banco Central afirmou que elas haviam sido apenas quatro. Se o Banco Central considerava dezessete um número pequeno, por que mentiu à imprensa e informalmente à CPI? Além do registro das visitas, a CPI receberá uma lista de chamadas feitas entre aparelhos telefônicos de diretores do Banco Central e aparelhos das agências de Valério.

Um exame da lista de visitas mostra que Marcos Valério se encontrava prioritariamente com pessoas das diretorias de Fiscalização e de Liquidações do Banco Central. Ele visitou sete vezes a Diretoria de Fiscalização. Em cinco das visitas foi recebido pelo diretor da área, Paulo Sérgio Cavalheiro. Nas outras dez vezes foi recebido na Diretoria de Liquidações, dirigida por Gustavo do Vale. As primeiras investidas de Marcos Valério sobre Vale começaram no fim de 2003. O lobista foi cinco vezes a sua sala em novembro, janeiro e fevereiro. Voltou mais uma vez em meados do ano e foi atendido pelos assessores do diretor. Redobrou a carga neste ano. Entre fevereiro e maio de 2005 foi mais quatro vezes ao BC. O último registro da passagem de Valério pelo Banco Central é de cerca de dez dias antes de seu nome ser denunciado pelo deputado Jefferson. Gustavo do Vale diz que só atendeu Marcos Valério em duas das dez visitas registradas. Os diretores do Banco Central garantem que bloquearam as pretensões de Valério antes mesmo de Jefferson soltar os rojões que provocaram o estouro da boiada dos escândalos petistas. Como o pleito de Valério não prosperou, não se pode desacreditar dos diretores do BC no episódio. Ainda assim, é no mínimo curioso que um publicitário de província tenha tido tamanho acesso às diretorias do banco.

José Paulo Lacerda/AE
Vale: dez visitas de Valério para falar do Mercantil


O salvamento dos bancos falidos e a recompensa que ele produziria para Valério e associados no negócio eram vitais para garantir a longevidade do projeto petista. A amigos, em diversas ocasiões, Henrique Meirelles, presidente do BC, atribuiu boa parte do "fogo amigo" que sofreu no cargo ao fato de sua equipe técnica ter resistido ao lobby de Marcos Valério. Isso não é segredo para ninguém. De uma fonte com acesso cotidiano aos principais personagens desse episódio, VEJA ouviu nesta semana relatos que dão conta de que Meirelles recebeu pressões bem mais qualificadas do que as originárias do "fogo amigo". Esses incentivos teriam partido de ninguém menos do que o presidente da República e de seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Pelos relatos ouvidos por VEJA, Meirelles sempre deixou claro para o ministro que para aceitar o pleito de Valério teria de atropelar o parecer jurídico do BC e isso produziria não apenas uma aberração, mas um escândalo de enormes proporções. Palocci não escondia de Meirelles que agia a contragosto nesse episódio e teria chegado a revelar que recebera pressões do então colega de ministério José Dirceu para dar uma solução satisfatória à questão. Muitas vezes, quando encerrava suas conversas com Palocci sobre esse caso, Meirelles comentava em voz alta que o ministro insistia para ele analisar "com carinho". Em uma das ocasiões, Palocci teria usado com Meirelles a seguinte expressão: "Você sabe, não dá para ganhar todas".

A fonte de VEJA ouviu confidências de Meirelles pouco tempo depois de o presidente do BC ter saído do gabinete de Lula. A mesma fonte conta que, no segundo semestre de 2004, Meirelles foi convocado por Palocci para uma reunião a três com Lula no Planalto. Uma vez no Planalto, Meirelles descobriu que Palocci não iria mais à reunião. O presidente do BC esperou enquanto Lula terminava uma audiência. Ao final, descobriu que o interlocutor de Lula era o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro Neto, filho do dono da massa falida do Mercantil de Pernambuco e com interesses diretos na decisão do Banco Central. Ao sair, Monteiro cumprimentou o presidente do BC e foi embora. Meirelles confidenciou ter encontrado Lula aborrecido. Meirelles comentou em voz alta ter ouvido do presidente naquele dia a mesmíssima argumentação que ouvira do ministro da Fazenda a respeito da resistência técnica do BC ao pleito de Marcos Valério: "Não dá para vocês ganharem todas". Ele ficou intrigado com a coincidência de argumentos e comentou isso em forma de desabafo. Monteiro nega que tenha tratado do caso do Mercantil na conversa com Lula. VEJA também ouviu Meirelles e Palocci sobre esses relatos. Ambos admitem que o assunto foi tratado inúmeras vezes entre eles. Ambos dizem que chegaram a ouvir sugestões de fora do governo para encaminhar o problema para uma solução que produzisse o pagamento bilionário ao Mercantil. Ambos se dão por satisfeitos com o fato inegável de que o Banco Central e a Fazenda ignoraram os pedidos.


J. Freitas/ABR
Cavalheiro: agenda com o lobista em São Paulo e Brasília

As origens do problema do Mercantil remontam a agosto de 1995. Naquele mês, o BC decidiu intervir no Econômico, que chegou a ser o sétimo maior banco privado do país e o mais antigo do Brasil. Para diluir o impacto da ação sobre o Econômico, o BC resolveu estender a medida a dois bancos de pequeno porte que também estavam em má situação: o Mercantil de Pernambuco e o Comercial de São Paulo. Três meses depois, o BC criou o programa de reestruturação do sistema financeiro, que ficou conhecido como Proer. Ele permitia que a parte sadia dos bancos quebrados fosse separada da parte podre. O "banco bom" seria vendido a alguma instituição financeira interessada. No caso do Mercantil, a parte boa ficou com o Rural, que já era seu sócio. O "banco ruim" receberia um empréstimo e passaria a ser administrado pelo BC. O Mercantil e o Econômico foram obrigados a comprar títulos públicos cotados em dólar e dá-los ao BC em garantia do empréstimo oficial. Os títulos públicos adquiridos pelos dois bancos são corrigidos pelo dólar, que, à época, valia 1 real.

Com a desvalorização da moeda brasileira, a massa falida dos bancos começou a ter lucros. Segundo alguns cálculos, o Mercantil dispõe de dinheiro para pagar o empréstimo do Banco Central desde 2001. Desde então, tem acumulado lucros. Daí vem o problema. Há duas teses. O antigo controlador, Armando Monteiro Filho, e o Banco Rural acreditam que os lucros lhes pertencem. Outros acham que o BC não deve permitir que banqueiros falidos saiam das liquidações com dinheiro. O objetivo de Marcos Valério era dobrar a resistência de Gustavo do Vale e dos demais diretores da instituição contrários a seu pleito. Malsucedido nas primeiras tentativas, o lobista voltou à carga depois da eleição municipal do ano passado. Foi quando Jefferson provocou o estouro da boiada.

 

 


 
 
 
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