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Brasil
O Planalto atuou
para ajudar o Rural
Como o Banco Central sofreu pressões
do governo e do lobista Marcos Valério
para financiar o banco mineiro e o PT

Felipe Patury
Dida Sampaio/Celso Junior/AE
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AE
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| Após conversa com Lula, Meirelles
(à esq.) estudou o fim da liquidação do Mercantil: pleito
de Valério |
Em julho passado, uma reportagem
de capa de VEJA revelou que o lobista Marcos Valério de Souza
chantageou o governo. A matéria dizia que Valério
exigira 200 milhões de reais para não revelar o inteiro
teor de sua relação com os líderes do Partido
dos Trabalhadores. Aquele valor, adiantava a reportagem, equivaleria
ao prêmio que o lobista mineiro esperava obter caso fosse
bem-sucedido em desembaraçar junto ao Banco Central uma antiga
e grossa encrenca financeira: o encerramento da liquidação
dos bancos Econômico e Mercantil de Pernambuco. Dependendo
da forma como fosse encaminhada a operação, ela poderia
dragar dos cofres públicos até 1 bilhão de
reais. Valério empenhava-se em solucionar o caso a pedido
do Banco Rural, que sonhava em comprar o controle do Mercantil.
Empenhava-se também em nome do banqueiro Ângelo Calmon
de Sá, do Econômico. Atuava ainda em nome próprio
e no interesse financeiro do PT, que ficaria com parte da recompensa
caso a transação fosse aprovada. "Valério disse
que era capaz de resolver meu problema, que poderia fazer o Banco
Central suspender a liquidação do Econômico.
Disse ainda que não queria nada em troca para ele mesmo.
Queria que eu contribuísse com o PT quando estivesse tudo
resolvido. Concordei com essa proposta, é claro", disse Calmon
de Sá a VEJA.
Pelo que se sabe hoje, Valério
esteve à beira de conseguir seu intento. A operação
de encerramento das liquidações dos bancos Mercantil
e Econômico foi abortada depois que Valério se tornou
uma figura nacional e passou a ser conhecido como "aquele carequinha
mineiro que falava de dinheiro como se ele caísse do céu"
nas palavras do ex-deputado Roberto Jefferson, responsável
pela súbita notoriedade do operador financeiro do PT. Começam
agora a surgir detalhes de como Valério atuou dentro do Banco
Central para conseguir aprovar o negócio. Ele esteve perto,
muito perto de arrancar o 1 bilhão de reais dos cofres públicos.
Fotos Sergio Dutti/Ana Araujo
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| Monteiro Filho (acima) com Lula, em
1994, e Monteiro Neto: um é amigo, outro dirige a CNI
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VEJA obteve uma relação
das visitas feitas por Marcos Valério à sede do Banco
Central em Brasília e à sua sede em São Paulo.
O documento, solicitado pelo deputado Gustavo Fruet, da CPI dos
Correios, dá uma indicação precisa de como,
onde, com quem e quando o lobista atuou para tentar cumprir sua
promessa. Desde o início de 2003, quando o PT chegou ao poder,
Marcos Valério entrou, pelo menos, dezessete vezes no Banco
Central. Esses são os registros de entrada contabilizados
nas portarias da instituição. O número destoa
da versão inicial do banco, divulgada para a imprensa e comunicada
informalmente ao próprio Fruet, de que as visitas de Valério
à instituição não passariam de quatro.
O número de dezessete visitas ganha importância quando
se lembra que o Banco Central afirmou que elas haviam sido apenas
quatro. Se o Banco Central considerava dezessete um número
pequeno, por que mentiu à imprensa e informalmente à
CPI? Além do registro das visitas, a CPI receberá
uma lista de chamadas feitas entre aparelhos telefônicos de
diretores do Banco Central e aparelhos das agências de Valério.
Um exame da lista de visitas
mostra que Marcos Valério se encontrava prioritariamente
com pessoas das diretorias de Fiscalização e de Liquidações
do Banco Central. Ele visitou sete vezes a Diretoria de Fiscalização.
Em cinco das visitas foi recebido pelo diretor da área, Paulo
Sérgio Cavalheiro. Nas outras dez vezes foi recebido na Diretoria
de Liquidações, dirigida por Gustavo do Vale. As primeiras
investidas de Marcos Valério sobre Vale começaram
no fim de 2003. O lobista foi cinco vezes a sua sala em novembro,
janeiro e fevereiro. Voltou mais uma vez em meados do ano e foi
atendido pelos assessores do diretor. Redobrou a carga neste ano.
Entre fevereiro e maio de 2005 foi mais quatro vezes ao BC. O último
registro da passagem de Valério pelo Banco Central é
de cerca de dez dias antes de seu nome ser denunciado pelo deputado
Jefferson. Gustavo do Vale diz que só atendeu Marcos Valério
em duas das dez visitas registradas. Os diretores do Banco Central
garantem que bloquearam as pretensões de Valério antes
mesmo de Jefferson soltar os rojões que provocaram o estouro
da boiada dos escândalos petistas. Como o pleito de Valério
não prosperou, não se pode desacreditar dos diretores
do BC no episódio. Ainda assim, é no mínimo
curioso que um publicitário de província tenha tido
tamanho acesso às diretorias do banco.
José Paulo Lacerda/AE
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| Vale: dez visitas de Valério para falar do
Mercantil |
O salvamento dos bancos falidos e a recompensa que ele produziria
para Valério e associados no negócio eram vitais para
garantir a longevidade do projeto petista. A amigos, em diversas
ocasiões, Henrique Meirelles, presidente do BC, atribuiu
boa parte do "fogo amigo" que sofreu no cargo ao fato de sua equipe
técnica ter resistido ao lobby de Marcos Valério.
Isso não é segredo para ninguém. De uma fonte
com acesso cotidiano aos principais personagens desse episódio,
VEJA ouviu nesta semana relatos que dão conta de que Meirelles
recebeu pressões bem mais qualificadas do que as originárias
do "fogo amigo". Esses incentivos teriam partido de ninguém
menos do que o presidente da República e de seu ministro
da Fazenda, Antonio Palocci. Pelos relatos ouvidos por VEJA, Meirelles
sempre deixou claro para o ministro que para aceitar o pleito de
Valério teria de atropelar o parecer jurídico do BC
e isso produziria não apenas uma aberração,
mas um escândalo de enormes proporções. Palocci
não escondia de Meirelles que agia a contragosto nesse episódio
e teria chegado a revelar que recebera pressões do então
colega de ministério José Dirceu para dar uma solução
satisfatória à questão. Muitas vezes, quando
encerrava suas conversas com Palocci sobre esse caso, Meirelles
comentava em voz alta que o ministro insistia para ele analisar
"com carinho". Em uma das ocasiões, Palocci teria usado com
Meirelles a seguinte expressão: "Você sabe, não
dá para ganhar todas".
A fonte de VEJA ouviu confidências
de Meirelles pouco tempo depois de o presidente do BC ter saído
do gabinete de Lula. A mesma fonte conta que, no segundo semestre
de 2004, Meirelles foi convocado por Palocci para uma reunião
a três com Lula no Planalto. Uma vez no Planalto, Meirelles
descobriu que Palocci não iria mais à reunião.
O presidente do BC esperou enquanto Lula terminava uma audiência.
Ao final, descobriu que o interlocutor de Lula era o presidente
da Confederação Nacional da Indústria, Armando
Monteiro Neto, filho do dono da massa falida do Mercantil de Pernambuco
e com interesses diretos na decisão do Banco Central. Ao
sair, Monteiro cumprimentou o presidente do BC e foi embora. Meirelles
confidenciou ter encontrado Lula aborrecido. Meirelles comentou
em voz alta ter ouvido do presidente naquele dia a mesmíssima
argumentação que ouvira do ministro da Fazenda a respeito
da resistência técnica do BC ao pleito de Marcos Valério:
"Não dá para vocês ganharem todas". Ele ficou
intrigado com a coincidência de argumentos e comentou isso
em forma de desabafo. Monteiro nega que tenha tratado do caso do
Mercantil na conversa com Lula. VEJA também ouviu Meirelles
e Palocci sobre esses relatos. Ambos admitem que o assunto foi tratado
inúmeras vezes entre eles. Ambos dizem que chegaram a ouvir
sugestões de fora do governo para encaminhar o problema para
uma solução que produzisse o pagamento bilionário
ao Mercantil. Ambos se dão por satisfeitos com o fato inegável
de que o Banco Central e a Fazenda ignoraram os pedidos.
J. Freitas/ABR
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| Cavalheiro: agenda com o lobista em São Paulo
e Brasília |
As origens do problema do Mercantil
remontam a agosto de 1995. Naquele mês, o BC decidiu intervir
no Econômico, que chegou a ser o sétimo maior banco
privado do país e o mais antigo do Brasil. Para diluir o
impacto da ação sobre o Econômico, o BC resolveu
estender a medida a dois bancos de pequeno porte que também
estavam em má situação: o Mercantil de Pernambuco
e o Comercial de São Paulo. Três meses depois, o BC
criou o programa de reestruturação do sistema financeiro,
que ficou conhecido como Proer. Ele permitia que a parte sadia dos
bancos quebrados fosse separada da parte podre. O "banco bom" seria
vendido a alguma instituição financeira interessada.
No caso do Mercantil, a parte boa ficou com o Rural, que já
era seu sócio. O "banco ruim" receberia um empréstimo
e passaria a ser administrado pelo BC. O Mercantil e o Econômico
foram obrigados a comprar títulos públicos cotados
em dólar e dá-los ao BC em garantia do empréstimo
oficial. Os títulos públicos adquiridos pelos dois
bancos são corrigidos pelo dólar, que, à época,
valia 1 real.
Com a desvalorização
da moeda brasileira, a massa falida dos bancos começou a
ter lucros. Segundo alguns cálculos, o Mercantil dispõe
de dinheiro para pagar o empréstimo do Banco Central desde
2001. Desde então, tem acumulado lucros. Daí vem o
problema. Há duas teses. O antigo controlador, Armando Monteiro
Filho, e o Banco Rural acreditam que os lucros lhes pertencem. Outros
acham que o BC não deve permitir que banqueiros falidos saiam
das liquidações com dinheiro. O objetivo de Marcos
Valério era dobrar a resistência de Gustavo do Vale
e dos demais diretores da instituição contrários
a seu pleito. Malsucedido nas primeiras tentativas, o lobista voltou
à carga depois da eleição municipal do ano
passado. Foi quando Jefferson provocou o estouro da boiada.
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