Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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A sua neurose não é inferior à de ninguém

O homem comum sabe sobre 200 anos, o educado sobre 20 mil, o arqueólogo vai ao paleolítico, o geólogo ao DNA terrestre, o astrônomo chega ao infinito. Vêem como vocês são insignificantes? E agora, ameaçados por ozonas, vulcões, furacões e furavacas, lhes mostro como eu previa vosso FINAL. Em Computa, Computador, Computa, com Fernanda Montenegro.ponto.com

Um Ser Humano (SH) cai no universo. Sem saber onde e o que o espera. Até que não agüenta mais.

SH – É mesmo o Rei da Criação? Assassino nato, usufruidor da miséria geral – quando come, outro não come –, de que se ri a hiena? Fura túneis, empesta o ar, emporcalha as águas, apodrece tudo. (Pausa.)
Você é um ser que gagueja e vacila a sua hora, cercado por genocídios, doenças tropicais, lacaios de Wall Street, o fantasma da superpopulação, turistas, glutamato de sódio, e o Abominável Homem das Neves. Todo: você está morto? (Olha pra cima.) A indiferença é o que mais me chateia.
Sabe o quê? Assim não fico mais. Copio o Jânio Quadros, eu renuncio! (Tecla na máquina de escrever.)  

"Caro senhor, lamento muito" (pra máquina) "Continua!" (A máquina continua só.)  

Não dá pra agüentar a existência. As condições são perigosas, a compensação ridícula – eu me retiro! Não tenho recebido o menor apoio de Vossa parte. Os ingleses chamam isso de absentee-landlord, proprietário ausente. E por isso é que o mundo é uma merda: não tem assistência técnica. Come-se mal, as condições sanitárias são lamentáveis. E, além disso, chove dentro! Como não sabemos como esta droga funciona, nossas melhorias dão sempre em piorias. Olha o cristianismo. Só liquidou com o sexo sem pecado. Olha o comunismo. Só fez aquele muro. E você aí, Alienadão, admita: isto só pode ser resolvido com programação global, um computador gigantesco como... (Pensa.)  

Me diz aí, ó Chefe, você computa? Não? Pois é. Eu me mando. Estou num labirinto sem fio. Um Teseu sem tesão. Eu saio do enredo, velho! (Uma forca desce do alto. SH olha. A corda pára. Desce mais.)  

Tá bem, sei... Tenho que lhe agradecer ter-me indicado pra... (A corda "acena".)  

Pô, que falta de espírito esportivo! Quequiá, Velho, não tou aqui pra agradar ninguém. Desisto de desistir. (A corda some.)  

Ué, ficou zangado? Estava só brincando. Sei que está tudo planejado, Onipotente! Sei que você é Onipresente! Sei que você sabe tudo. Onisciente! Vou te dizer – onipotente é muito bom. Onipresente é maravilhoso. Mas onisciente, não; é um saco. (Raios.)  

Tou brincando, pô! Sei, devemos fazer o melhor de nossos pequenos recursos. Por exemplo – você me deu a linha reta... (Anda em reta.) Eu invento a curva. (Representa.)  

Tá gostando? Invento o círculo, a roda, invento a roda quadrada. Não, a roda quadrada já existia, o português só inventou a roda triangular. A vantagem? Menos um solavanco. Ih, ih, ih. Sei, devemos nos contentar com as coisas simples da vida. O circo. O folclore. As festas infantis. O convívio familiar. O pôr-do-sol. Pô, todo dia pôr-do-sol!  

(Pausa.) Dá um ar de sua graça, Cara. Um sinalzinho! (Ouve.) O quê?
(Mão no ouvido. Ouvido no chão. Olha longe. Sobe em cadeira.)
Ah! Ah, enfim.  

(Coro operístico: Aleluia.) Eu te amo, Anjo Comunicador!  

(Surge anjo, bem vagabundo, asas quebradas, ridículo. Entrega telegrama e some. SH lê. Cara decepcionada.)  

Mas, pô, logo agora que eu começava a gostar? E por que eu? Por que já? Por que tão cedo? Ah, não senhor. É inconstitucional. Eu não vou sem reagir. (Pega pedras no chão.) Eu não aceito, não senhor. Eu não me entrego. Eu vou me defender.  

(O palco escurece, ela estaca. Na parede, iluminadas, surgem as palavras MANE-TECEL-FARES. Apagam e acendem, frenéticas. A atriz bota as pedras no chão.) Ah, eu sabia. O velho truque!  

(Explosão. Tudo se ilumina violentamente. SH cai morto. Blecaute. O palco se ilumina suavemente. Surge o cronista Ibraim Sued, vestido ridiculamente, mas não déjà visto.)

 

SUED

BOMBA! BOMBA! Conforme noticiamos com exclusividade: O MUNDO ACABOU ONTEM. Observadores atribuem o fato ao uso sem controle de detergentes que provocaram o irrompimento de labaredas sulfurosas na crostra da Terra. Mas é incontreste: O MUNDO ACABOU MESMO! E muita calma, pessoal. Burro não desce escada. (Efeitos de luz.)  

VOZ ("fora do mundo") Agora a Terra é só um montão de cinzas, rochas incandescentes e pó, girando fora de órbita, a caminho de Plutão e Marte, para se transformar num satélite morto no universo.  

VOZ Desaparece o homem e todos os seus movimentos paranóicos – liberdade de expressão, anti-racismo, direito de ir e vir, democracia... Sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, o maior egoísta animal iria destruir seu próprio mundo. Enviamos sinais que não foram reconhecidos por falta da mais primária capacidade intelectual. Ontem, afinal, ele desapareceu, no meio de chamas e destroços. Não sentiremos falta dele.

 

VOZ FEMININA

Embora na superfície retorcida da Terra tudo seja destruição e escombros, ainda se ouvem os últimos sinais de vida. Alguns computadores que sobreviveram à tragédia, escapando do fogo devido às chuvas radioativas, ainda procuram comover o Cosmo com restos da memória de seus donos desaparecidos.

 

VOZ

A pomba plástica da tecnologia,
Ao acabar a última guerra,
Voa com um ramo ionizado de oliveira
Sobre os robôs que herdaram a Terra,
Pois o último gemido deste mundo
Não será o do homem destroçado,
Será o do robô, ficando só,
Morrendo enferrujado,

 

(Os atores se curvam. Bip-bip aumenta até o insuportável. Pára de estalo. Enquanto o público sai, os atores, com megafones, berram:) Classe média, go home! Go home, classe média!

 
 
 
 
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