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A
sua neurose não é inferior à de ninguém
O homem comum
sabe sobre 200 anos, o educado sobre 20 mil, o arqueólogo vai ao paleolítico,
o geólogo ao DNA terrestre, o astrônomo chega ao infinito. Vêem
como vocês são insignificantes? E agora, ameaçados por ozonas,
vulcões, furacões e furavacas, lhes mostro como eu previa vosso
FINAL. Em Computa, Computador, Computa, com Fernanda Montenegro.ponto.com
Um Ser Humano (SH) cai no universo.
Sem saber onde e o que o espera. Até que não agüenta mais.
SH É mesmo o Rei da Criação?
Assassino nato, usufruidor da miséria geral quando come, outro não
come , de que se ri a hiena? Fura túneis, empesta o ar, emporcalha
as águas, apodrece tudo. (Pausa.) Você é um ser que gagueja
e vacila a sua hora, cercado por genocídios, doenças tropicais,
lacaios de Wall Street, o fantasma da superpopulação, turistas,
glutamato de sódio, e o Abominável Homem das Neves. Todo: você
está morto? (Olha pra cima.) A indiferença é o que mais me
chateia. Sabe o quê? Assim não fico mais. Copio o Jânio
Quadros, eu renuncio! (Tecla na máquina de escrever.) "Caro
senhor, lamento muito" (pra máquina) "Continua!" (A máquina continua
só.) Não dá pra agüentar
a existência. As condições são perigosas, a compensação
ridícula eu me retiro! Não tenho recebido o menor apoio de
Vossa parte. Os ingleses chamam isso de absentee-landlord, proprietário
ausente. E por isso é que o mundo é uma merda: não tem assistência
técnica. Come-se mal, as condições sanitárias são
lamentáveis. E, além disso, chove dentro! Como não sabemos
como esta droga funciona, nossas melhorias dão sempre em piorias. Olha
o cristianismo. Só liquidou com o sexo sem pecado. Olha o comunismo. Só
fez aquele muro. E você aí, Alienadão, admita: isto só
pode ser resolvido com programação global, um computador gigantesco
como... (Pensa.) Me diz aí, ó
Chefe, você computa? Não? Pois é. Eu me mando. Estou num labirinto
sem fio. Um Teseu sem tesão. Eu saio do enredo, velho! (Uma forca desce
do alto. SH olha. A corda pára. Desce mais.)
Tá bem, sei... Tenho que lhe agradecer ter-me indicado pra... (A corda
"acena".) Pô, que falta de espírito
esportivo! Quequiá, Velho, não tou aqui pra agradar ninguém.
Desisto de desistir. (A corda some.) Ué,
ficou zangado? Estava só brincando. Sei que está tudo planejado,
Onipotente! Sei que você é Onipresente! Sei que você sabe tudo.
Onisciente! Vou te dizer onipotente é muito bom. Onipresente é
maravilhoso. Mas onisciente, não; é um saco. (Raios.)
Tou brincando, pô! Sei, devemos fazer o melhor de nossos pequenos recursos.
Por exemplo você me deu a linha reta... (Anda em reta.) Eu invento
a curva. (Representa.) Tá gostando?
Invento o círculo, a roda, invento a roda quadrada. Não, a roda
quadrada já existia, o português só inventou a roda triangular.
A vantagem? Menos um solavanco. Ih, ih, ih. Sei, devemos nos contentar com as
coisas simples da vida. O circo. O folclore. As festas infantis. O convívio
familiar. O pôr-do-sol. Pô, todo dia pôr-do-sol!
(Pausa.) Dá um ar de sua graça, Cara. Um sinalzinho! (Ouve.) O quê?
(Mão no ouvido. Ouvido no chão. Olha longe. Sobe em cadeira.)
Ah! Ah, enfim. (Coro operístico:
Aleluia.) Eu te amo, Anjo Comunicador!
(Surge anjo, bem vagabundo, asas quebradas, ridículo. Entrega telegrama
e some. SH lê. Cara decepcionada.)
Mas, pô, logo agora que eu começava a gostar? E por que eu? Por que
já? Por que tão cedo? Ah, não senhor. É inconstitucional.
Eu não vou sem reagir. (Pega pedras no chão.) Eu não aceito,
não senhor. Eu não me entrego. Eu vou me defender.
(O palco escurece, ela estaca. Na parede, iluminadas, surgem as palavras MANE-TECEL-FARES.
Apagam e acendem, frenéticas. A atriz bota as pedras no chão.) Ah,
eu sabia. O velho truque! (Explosão.
Tudo se ilumina violentamente. SH cai morto. Blecaute. O palco se
ilumina suavemente. Surge o cronista Ibraim Sued, vestido ridiculamente, mas não
déjà visto.) SUED
BOMBA! BOMBA! Conforme noticiamos com exclusividade: O MUNDO ACABOU ONTEM. Observadores
atribuem o fato ao uso sem controle de detergentes que provocaram o irrompimento
de labaredas sulfurosas na crostra da Terra. Mas é incontreste:
O MUNDO ACABOU MESMO! E muita calma, pessoal. Burro não desce escada. (Efeitos
de luz.) VOZ ("fora do mundo") Agora
a Terra é só um montão de cinzas, rochas incandescentes e
pó, girando fora de órbita, a caminho de Plutão e Marte,
para se transformar num satélite morto no universo. VOZ
Desaparece o homem e todos os seus movimentos paranóicos liberdade
de expressão, anti-racismo, direito de ir e vir, democracia... Sabíamos
que, mais cedo ou mais tarde, o maior egoísta animal iria destruir seu
próprio mundo. Enviamos sinais que não foram reconhecidos por falta
da mais primária capacidade intelectual. Ontem, afinal, ele desapareceu,
no meio de chamas e destroços. Não sentiremos falta dele.
VOZ FEMININA Embora
na superfície retorcida da Terra tudo seja destruição e escombros,
ainda se ouvem os últimos sinais de vida. Alguns computadores que sobreviveram
à tragédia, escapando do fogo devido às chuvas radioativas,
ainda procuram comover o Cosmo com restos da memória de seus donos desaparecidos.
VOZ A
pomba plástica da tecnologia, Ao acabar a última guerra, Voa
com um ramo ionizado de oliveira Sobre os robôs que herdaram a Terra,
Pois o último gemido deste mundo Não será o do homem
destroçado, Será o do robô, ficando só, Morrendo
enferrujado, (Os atores se curvam. Bip-bip
aumenta até o insuportável. Pára de estalo. Enquanto o público
sai, os atores, com megafones, berram:) Classe média, go home! Go home,
classe média! |