Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Entrevista: Robert Mueller
Crime e castigo

O diretor do FBI dá a receita do que
funciona no combate à criminalidade:
eficiência de quem investiga e a certeza
da punição do lado de quem comete


Vilma Gryzinski

 

Andrew Councill/AFP

"Nossos agentes fazem testes periódicos com o detector de mentiras e pedimos declaração de bens, no caso de quem lida com informações confidenciais"

Robert Mueller é o tipo de sujeito que você não quer ver pela frente se fez algo errado – aliás, nem se fez tudo certinho mas não pode provar. O diretor do FBI, a gigantesca polícia federal americana, com 30.000 funcionários e atuação em sessenta países, tem feições que parecem copiadas de um moai da Ilha de Páscoa, corte de cabelo nada distante de seus tempos de fuzileiro naval e o senso de humor de, bem, é melhor nem entrar nesse assunto. Sua missão na vida é clara: identificar, processar e prender criminosos. Dedicou-se a essa tarefa como promotor, até chegar à chefia da Divisão Criminal do Departamento de Justiça. Acumulou casos famosos, como o exaustivo trabalho que terminou por esvaziar a máfia americana e as investigações sobre o atentado a bomba tramado pela Líbia de Muamar Kadafi, que na véspera do Natal de 1988 explodiu um avião da Pan Am, em pleno vôo, sobre a cidadezinha de Lockerbie, na Escócia. Foi premiado pelo presidente George W. Bush com a direção do FBI. Data: setembro de 2001. Todo mundo sabe o que aconteceu logo em seguida. Em passagem por Brasília para preparar a visita de Bush, na próxima semana, ele falou sobre as medidas mais eficazes no combate à criminalidade. A principal é fartamente conhecida: quem comete um crime precisa saber com certeza quase absoluta que será punido.

Veja – Como o FBI recruta, treina e põe em campo o agente da lei mais bem preparado possível?
Mueller – Recebemos milhares de candidaturas todos os anos. Entre elas, procuramos as pessoas que demonstram maturidade e capacidade de julgamento de forma a entender que, na qualidade de agentes do FBI, terão um poder considerável. Depois do 11 de Setembro, também procuramos pessoas que tenham determinadas aptidões no campo da computação, em especial de programação de softwares, além de formação em idiomas estrangeiros, ciências e engenharia, pois um dos grandes perigos no futuro é de um ataque com armas de destruição em massa. Já tivemos, aliás, todo o caso do anthrax. Os selecionados passam por um programa de treinamento de dezessete semanas na área policial e no campo da inteligência. Estudam as liberdades civis garantidas pela Constituição e os códigos de conduta do Departamento de Justiça. Todos os nossos agentes também vão ao Museu do Holocausto, em Washington, para entender o que pode acontecer quando um organismo policial não respeita os limites constitucionais.

Veja – E como são formados agentes à prova de corrupção?
Mueller – Em primeiro lugar, todos passam por um crivo de investigações, para que sejam levantados eventuais problemas pregressos e eliminados os indivíduos que a nosso ver não darão bons agentes. Também fazemos testes periódicos com o detector de mentiras e pedimos declarações de bens e rendimentos daqueles que lidam com informações altamente confidenciais.  

Veja – Com que freqüência?
Mueller – Anualmente. Temos ainda o serviço de responsabilidade pública e um departamento de inspeção, ambos muito atuantes. Quando surge a mais remota suspeita de corrupção, fazemos uma investigação exaustiva.  

Veja – Imaginemos uma situação que é comum em inúmeros países: seus agentes prendem um traficante de drogas e, com ele, grande quantidade de dinheiro ilícito, que nunca será reclamado por ninguém. Como garantir que resistirão à tentação de embolsar esse dinheiro?
Mueller – Procurando selecionar agentes que tenham integridade e honestidade, que são absolutamente essenciais para exercer suas funções e manter a reputação de nossa instituição. No processo de treinamento, enfatizamos a importância da integridade em todos os momentos da atuação de cada agente. Também continuamos a dar treinamento ao longo da carreira. Qualquer um que pareça não corresponder a esses padrões de exigência é imediatamente investigado ou processado.

Veja – No trabalho que o FBI está fazendo com a polícia mexicana, como é tratada a questão da corrupção?
Mueller – Fazemos isso em vários países. Trabalhamos com unidades "filtradas", que passaram pelo mesmo processo de seleção, treinamento e metodologia que nós temos, incluindo as declarações de renda e os testes com o detector de mentiras.  

Veja – O detector funciona mesmo?
Mueller – Funciona. Os integrantes dessas unidades passam pelo detector e em alguns casos a movimentação financeira é examinada. Elas são separadas de outros departamentos, especialmente na véspera de operações importantes. Ao longo dos últimos anos, criamos muitas unidades competentes desse tipo no México e trabalhamos estreitamente com elas na esfera do tráfico de drogas.  

Veja – Os índices de criminalidade têm caído consistentemente nos Estados Unidos. Fora as questões que não dependem da ação policial, como as mudanças de natureza demográfica, quais os principais motivos para isso?
Mueller – Eu diria que em primeiro lugar está a melhoria substancial no treinamento das diversas polícias dos Estados Unidos. Com o treinamento vem o acesso à tecnologia, que nos permite aprimorar muito o trabalho de elucidação de crimes, com o uso do DNA e de outras técnicas. Treinamento e tecnologia, portanto, constituem um dos fundamentos. O segundo é o chamado policiamento comunitário: tirar a polícia das radiopatrulhas e fazê-la integrar-se às comunidades, de forma a saber em quem é preciso ficar de olho. O terceiro fator decorre da severidade de nossas leis. Qualquer um que comete um crime sabe que irá para a cadeia por um substancial período de tempo. É importante que os processos sejam rápidos e as sentenças tenham duração fixa. Os criminosos precisam saber qual será sua punição, que pegarão dez, quinze ou vinte anos de cadeia, sem liberdade condicional nem suspensão de sentença. Isso contribuiu muito para a redução da criminalidade nos Estados Unidos.

Veja – O que dessa experiência poderia beneficiar o Brasil?
Mueller – Nós já trabalhamos com a polícia brasileira, principalmente na área de treinamento da polícia técnica. É imensamente importante aprimorar a capacidade investigativa por meio da formação de profissionais e do desenvolvimento de técnicas laboratoriais e de estudo da cena dos crimes. É isso que vai embasar os inquéritos apresentados à Justiça. Também é importante ter um sistema judiciário ágil, que administre a Justiça de forma rápida e imparcial. Quem está sendo processado precisa entender que o sistema em si é justo. Outro aspecto que quero enfatizar é o trabalho na área do levantamento de informações. Depois do 11 de Setembro, detectamos nossa vulnerabilidade nesse campo, tanto em relação ao terrorismo quanto ao crime comum. Com um bom sistema de inteligência e uma boa capacidade analítica, é possível direcionar recursos, colocando os grandes criminosos na mira. Nessa área de levantamento de informações, o público em geral tem uma participação importante. O combate ao crime não pode ser deixado apenas a cargo da polícia, dos promotores ou dos juízes. Quando as pessoas não agüentam mais conviver com o crime no dia-a-dia, podem colaborar de maneira eficiente com a polícia.  

Veja – Como combater o terrorismo e ao mesmo tempo respeitar os direitos humanos?
Mueller – Devemos combater o terrorismo da mesma maneira que fizemos com o crime organizado. Nossos países têm sistemas judiciários que dão garantias aos réus, e devemos acatá-las. O importante é fazer um bom levantamento de informações e utilizar o Judiciário adequadamente para enquadrar quem não cumpre a lei.

Veja – A seguinte situação hipotética é invocada com freqüência: o FBI prende um suspeito que, com alto grau de certeza, tem informações sobre uma operação terrorista em andamento. Que nível de pressão o senhor considera aceitável?
Mueller – Pelo nosso sistema, se prendemos um indivíduo, o mecanismo para levá-lo a cooperar é convencê-lo de que será condenado pelo crime pelo qual foi preso e que vai passar um substancial período de tempo na cadeia – dez, vinte, trinta anos. Essa pena só poderá diminuir se o suspeito cooperar imediatamente. Esse mecanismo ajuda muito a obter informações, sem pressões físicas, tudo dentro das regras do sistema judiciário. Veja-se o exemplo do que fizemos com a Cosa Nostra (a máfia americana). Primeiro, identificamos, prendemos e processamos as pessoas nos escalões inferiores da organização. Elas colaboraram com a Justiça, e nós fomos subindo de patamar, até chegar aos chefões. Com as informações que levantamos, o sistema judiciário conseguiu dizimar as famílias que comandavam o crime organizado nos Estados Unidos. Com o terrorismo, é a mesma coisa.  

Veja – Qual foi a sua reação quando finalmente conseguiu enquadrar o chefão John Gotti?
Mueller – Ficamos muito, muito felizes. O processo foi muito bem embasado, mas demorou anos até conseguirmos lançar seus fundamentos.  

Veja – Qual foi o caso mais marcante de sua carreira como promotor?
Mueller – O do atentado terrorista contra o avião da Pan Am que explodiu sobre Lockerbie (na Escócia). Eu estava no Departamento de Justiça na época e, ao acompanhar toda a investigação, passei muito tempo com os familiares das vítimas. Numa das minhas muitas viagens a Lockerbie, visitei um pequeno galpão de madeira onde estavam os pertences dos 270 mortos, 259 no avião e onze em terra. Havia muitas crianças e jovens universitários voltando para casa naquele vôo, porque era véspera de Natal. É uma imagem indelével ver um agasalho ou um par de tênis que uma garota nunca mais usaria.  

Veja – O senhor considerou aceitável o resultado desse caso, que depois de muitos anos de investigações e negociações redundou na prisão de funcionários de escalão inferior do serviço de informações da Líbia?
Mueller – Nós conseguimos comprovar que a Líbia estava por trás do atentado e identificar os dois elementos, que não eram funcionários do baixo escalão. E, embora tenham se passado quase vinte anos, ainda tenho esperança de que ficaremos sabendo de mais coisas sobre o caso do vôo 103 da Pan Am. E espero que levemos mais gente à Justiça.  

Veja – O que o senhor lista como os maiores sucessos do FBI na luta contra o terrorismo?
Mueller – Eu não gostaria de falar apenas do FBI. Existem três motivos pelos quais temos mais segurança hoje nos Estados Unidos do que antes do 11 de Setembro. Primeiro, foi acabar com o uso do Afeganistão como santuário onde a Al Qaeda podia recrutar e treinar militantes e organizar ataques. Ficou muito mais difícil para a organização ter um sistema de comunicações e promover atentados. Segundo, com a ajuda dos serviços de informações de todo o mundo, prendemos um número considerável de líderes importantes da Al Qaeda. Com isso, tiramos de campo indivíduos carismáticos, que falavam vários idiomas, tinham conhecimentos de computação e já haviam morado nos Estados Unidos, no Brasil ou em outros lugares, sendo assim altamente capacitados a planejar e executar atentados. Em terceiro lugar, derrubamos as barreiras burocráticas que, nos Estados Unidos, impediam, por exemplo, o FBI de compartilhar informações com a CIA. Ao todo, em nível municipal ou estadual, temos 17.000 entidades de natureza policial. Criamos centenas de forças-tarefa para estabelecer um diálogo entre todas as instâncias, a fim de saber o que está acontecendo em nossas comunidades. Com isso, temos uma base de informações muito melhor. Mas somos um país muito grande, um país de imigrantes, como o Brasil – e queremos continuar a ser. Embora nossa segurança tenha aumentado, não podemos garantir com certeza absoluta que impedimos qualquer ataque terrorista.  

Veja – E qual foi a maior frustração?
Mueller – Frustração? Está aí uma pergunta que ninguém me fez recentemente. Acho que foi não ter sido capaz de promover as mudanças necessárias mais depressa.  

Veja – O senhor não se sente frustrado quando vê o caso do anthrax, que teve enorme repercussão na época e não foi resolvido até hoje?
Mueller – Sempre há casos que demoram mais do que gostaríamos para ser resolvidos. Quem é promotor na área de homicídios, como eu fui, sabe que se estabelece um vínculo extremamente próximo com os familiares da pessoa assassinada. E, quando não é possível levar o culpado à Justiça, bate um grande sentimento de culpa. Principalmente quando se sabe quem foi o autor, e não estou dizendo que seja esse o caso do anthrax, mas não há provas suficientes. Acredito que ainda vamos resolver o caso do anthrax.  

Veja – Tem certeza?
Mueller – Absoluta.

 
 
 
 
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