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Entrevista: Robert
Mueller Crime e castigo
O diretor do FBI dá a receita do que funciona no combate à criminalidade:
eficiência de quem investiga e a certeza da punição do
lado de quem comete  Vilma
Gryzinski
Andrew Councill/AFP
 | "Nossos
agentes fazem testes periódicos com o detector de mentiras e pedimos declaração
de bens, no caso de quem lida com informações confidenciais" | |
Robert Mueller é o tipo de sujeito que
você não quer ver pela frente se fez algo errado aliás,
nem se fez tudo certinho mas não pode provar. O diretor do FBI, a gigantesca
polícia federal americana, com 30.000 funcionários e atuação
em sessenta países, tem feições que parecem copiadas de um
moai da Ilha de Páscoa, corte de cabelo nada distante de seus tempos de
fuzileiro naval e o senso de humor de, bem, é melhor nem entrar nesse assunto.
Sua missão na vida é clara: identificar, processar e prender criminosos.
Dedicou-se a essa tarefa como promotor, até chegar à chefia da Divisão
Criminal do Departamento de Justiça. Acumulou casos famosos, como o exaustivo
trabalho que terminou por esvaziar a máfia americana e as investigações
sobre o atentado a bomba tramado pela Líbia de Muamar Kadafi, que na véspera
do Natal de 1988 explodiu um avião da Pan Am, em pleno vôo, sobre
a cidadezinha de Lockerbie, na Escócia. Foi premiado pelo presidente George
W. Bush com a direção do FBI. Data: setembro de 2001. Todo mundo
sabe o que aconteceu logo em seguida. Em passagem por Brasília para preparar
a visita de Bush, na próxima semana, ele falou sobre as medidas mais eficazes
no combate à criminalidade. A principal é fartamente conhecida:
quem comete um crime precisa saber com certeza quase absoluta que será
punido. Veja Como o FBI recruta,
treina e põe em campo o agente da lei mais bem preparado possível? Mueller
Recebemos milhares de candidaturas todos os anos. Entre elas, procuramos
as pessoas que demonstram maturidade e capacidade de julgamento de forma a entender
que, na qualidade de agentes do FBI, terão um poder considerável.
Depois do 11 de Setembro, também procuramos pessoas que tenham determinadas
aptidões no campo da computação, em especial de programação
de softwares, além de formação em idiomas estrangeiros, ciências
e engenharia, pois um dos grandes perigos no futuro é de um ataque com
armas de destruição em massa. Já tivemos, aliás, todo
o caso do anthrax. Os selecionados passam por um programa de treinamento de dezessete
semanas na área policial e no campo da inteligência. Estudam as liberdades
civis garantidas pela Constituição e os códigos de conduta
do Departamento de Justiça. Todos os nossos agentes também vão
ao Museu do Holocausto, em Washington, para entender o que pode acontecer quando
um organismo policial não respeita os limites constitucionais.
Veja E como são formados agentes à
prova de corrupção? Mueller Em primeiro lugar,
todos passam por um crivo de investigações, para que sejam levantados
eventuais problemas pregressos e eliminados os indivíduos que a nosso ver
não darão bons agentes. Também fazemos testes periódicos
com o detector de mentiras e pedimos declarações de bens e rendimentos
daqueles que lidam com informações altamente confidenciais.
Veja Com que freqüência? Mueller
Anualmente. Temos ainda o serviço de responsabilidade pública
e um departamento de inspeção, ambos muito atuantes. Quando surge
a mais remota suspeita de corrupção, fazemos uma investigação
exaustiva. Veja Imaginemos
uma situação que é comum em inúmeros países:
seus agentes prendem um traficante de drogas e, com ele, grande quantidade de
dinheiro ilícito, que nunca será reclamado por ninguém. Como
garantir que resistirão à tentação de embolsar esse
dinheiro? Mueller Procurando selecionar agentes que tenham
integridade e honestidade, que são absolutamente essenciais para exercer
suas funções e manter a reputação de nossa instituição.
No processo de treinamento, enfatizamos a importância da integridade em
todos os momentos da atuação de cada agente. Também continuamos
a dar treinamento ao longo da carreira. Qualquer um que pareça não
corresponder a esses padrões de exigência é imediatamente
investigado ou processado. Veja
No trabalho que o FBI está fazendo com a polícia mexicana, como
é tratada a questão da corrupção? Mueller
Fazemos isso em vários países. Trabalhamos com unidades
"filtradas", que passaram pelo mesmo processo de seleção, treinamento
e metodologia que nós temos, incluindo as declarações de
renda e os testes com o detector de mentiras. Veja
O detector funciona mesmo? Mueller Funciona.
Os integrantes dessas unidades passam pelo detector e em alguns casos a movimentação
financeira é examinada. Elas são separadas de outros departamentos,
especialmente na véspera de operações importantes. Ao longo
dos últimos anos, criamos muitas unidades competentes desse tipo no México
e trabalhamos estreitamente com elas na esfera do tráfico de drogas.
Veja Os índices de criminalidade
têm caído consistentemente nos Estados Unidos. Fora as questões
que não dependem da ação policial, como as mudanças
de natureza demográfica, quais os principais motivos para isso? Mueller
Eu diria que em primeiro lugar está a melhoria substancial no
treinamento das diversas polícias dos Estados Unidos. Com o treinamento
vem o acesso à tecnologia, que nos permite aprimorar muito o trabalho de
elucidação de crimes, com o uso do DNA e de outras técnicas.
Treinamento e tecnologia, portanto, constituem um dos fundamentos. O segundo é
o chamado policiamento comunitário: tirar a polícia das radiopatrulhas
e fazê-la integrar-se às comunidades, de forma a saber em quem é
preciso ficar de olho. O terceiro fator decorre da severidade de nossas leis.
Qualquer um que comete um crime sabe que irá para a cadeia por um substancial
período de tempo. É importante que os processos sejam rápidos
e as sentenças tenham duração fixa. Os criminosos precisam
saber qual será sua punição, que pegarão dez, quinze
ou vinte anos de cadeia, sem liberdade condicional nem suspensão de sentença.
Isso contribuiu muito para a redução da criminalidade nos Estados
Unidos. Veja O que dessa experiência
poderia beneficiar o Brasil? Mueller Nós já
trabalhamos com a polícia brasileira, principalmente na área de
treinamento da polícia técnica. É imensamente importante
aprimorar a capacidade investigativa por meio da formação de profissionais
e do desenvolvimento de técnicas laboratoriais e de estudo da cena dos
crimes. É isso que vai embasar os inquéritos apresentados à
Justiça. Também é importante ter um sistema judiciário
ágil, que administre a Justiça de forma rápida e imparcial.
Quem está sendo processado precisa entender que o sistema em si é
justo. Outro aspecto que quero enfatizar é o trabalho na área do
levantamento de informações. Depois do 11 de Setembro, detectamos
nossa vulnerabilidade nesse campo, tanto em relação ao terrorismo
quanto ao crime comum. Com um bom sistema de inteligência e uma boa capacidade
analítica, é possível direcionar recursos, colocando os grandes
criminosos na mira. Nessa área de levantamento de informações,
o público em geral tem uma participação importante. O combate
ao crime não pode ser deixado apenas a cargo da polícia, dos promotores
ou dos juízes. Quando as pessoas não agüentam mais conviver
com o crime no dia-a-dia, podem colaborar de maneira eficiente com a polícia.
Veja Como combater o terrorismo
e ao mesmo tempo respeitar os direitos humanos? Mueller Devemos
combater o terrorismo da mesma maneira que fizemos com o crime organizado. Nossos
países têm sistemas judiciários que dão garantias aos
réus, e devemos acatá-las. O importante é fazer um bom levantamento
de informações e utilizar o Judiciário adequadamente para
enquadrar quem não cumpre a lei. Veja
A seguinte situação hipotética é invocada
com freqüência: o FBI prende um suspeito que, com alto grau de certeza,
tem informações sobre uma operação terrorista em andamento.
Que nível de pressão o senhor considera aceitável? Mueller
Pelo nosso sistema, se prendemos um indivíduo, o mecanismo para
levá-lo a cooperar é convencê-lo de que será condenado
pelo crime pelo qual foi preso e que vai passar um substancial período
de tempo na cadeia dez, vinte, trinta anos. Essa pena só poderá
diminuir se o suspeito cooperar imediatamente. Esse mecanismo ajuda muito a obter
informações, sem pressões físicas, tudo dentro das
regras do sistema judiciário. Veja-se o exemplo do que fizemos com a Cosa
Nostra (a máfia americana). Primeiro, identificamos, prendemos e
processamos as pessoas nos escalões inferiores da organização.
Elas colaboraram com a Justiça, e nós fomos subindo de patamar,
até chegar aos chefões. Com as informações que levantamos,
o sistema judiciário conseguiu dizimar as famílias que comandavam
o crime organizado nos Estados Unidos. Com o terrorismo, é a mesma coisa.
Veja Qual foi a sua reação
quando finalmente conseguiu enquadrar o chefão John Gotti? Mueller
Ficamos muito, muito felizes. O processo foi muito bem embasado, mas
demorou anos até conseguirmos lançar seus fundamentos.
Veja Qual foi o caso mais marcante de sua
carreira como promotor? Mueller O do atentado terrorista
contra o avião da Pan Am que explodiu sobre Lockerbie (na Escócia).
Eu estava no Departamento de Justiça na época e, ao acompanhar toda
a investigação, passei muito tempo com os familiares das vítimas.
Numa das minhas muitas viagens a Lockerbie, visitei um pequeno galpão de
madeira onde estavam os pertences dos 270 mortos, 259 no avião e onze em
terra. Havia muitas crianças e jovens universitários voltando para
casa naquele vôo, porque era véspera de Natal. É uma imagem
indelével ver um agasalho ou um par de tênis que uma garota nunca
mais usaria. Veja O senhor
considerou aceitável o resultado desse caso, que depois de muitos anos
de investigações e negociações redundou na prisão
de funcionários de escalão inferior do serviço de informações
da Líbia? Mueller Nós conseguimos comprovar
que a Líbia estava por trás do atentado e identificar os dois elementos,
que não eram funcionários do baixo escalão. E, embora tenham
se passado quase vinte anos, ainda tenho esperança de que ficaremos sabendo
de mais coisas sobre o caso do vôo 103 da Pan Am. E espero que levemos mais
gente à Justiça. Veja
O que o senhor lista como os maiores sucessos do FBI na luta contra o terrorismo? Mueller
Eu não gostaria de falar apenas do FBI. Existem três motivos
pelos quais temos mais segurança hoje nos Estados Unidos do que antes do
11 de Setembro. Primeiro, foi acabar com o uso do Afeganistão como santuário
onde a Al Qaeda podia recrutar e treinar militantes e organizar ataques. Ficou
muito mais difícil para a organização ter um sistema de comunicações
e promover atentados. Segundo, com a ajuda dos serviços de informações
de todo o mundo, prendemos um número considerável de líderes
importantes da Al Qaeda. Com isso, tiramos de campo indivíduos carismáticos,
que falavam vários idiomas, tinham conhecimentos de computação
e já haviam morado nos Estados Unidos, no Brasil ou em outros lugares,
sendo assim altamente capacitados a planejar e executar atentados. Em terceiro
lugar, derrubamos as barreiras burocráticas que, nos Estados Unidos, impediam,
por exemplo, o FBI de compartilhar informações com a CIA. Ao todo,
em nível municipal ou estadual, temos 17.000 entidades de natureza policial.
Criamos centenas de forças-tarefa para estabelecer um diálogo entre
todas as instâncias, a fim de saber o que está acontecendo em nossas
comunidades. Com isso, temos uma base de informações muito melhor.
Mas somos um país muito grande, um país de imigrantes, como o Brasil
e queremos continuar a ser. Embora nossa segurança tenha aumentado,
não podemos garantir com certeza absoluta que impedimos qualquer ataque
terrorista. Veja E qual
foi a maior frustração? Mueller Frustração?
Está aí uma pergunta que ninguém me fez recentemente. Acho
que foi não ter sido capaz de promover as mudanças necessárias
mais depressa. Veja O senhor
não se sente frustrado quando vê o caso do anthrax, que teve enorme
repercussão na época e não foi resolvido até hoje? Mueller
Sempre há casos que demoram mais do que gostaríamos para
ser resolvidos. Quem é promotor na área de homicídios, como
eu fui, sabe que se estabelece um vínculo extremamente próximo com
os familiares da pessoa assassinada. E, quando não é possível
levar o culpado à Justiça, bate um grande sentimento de culpa. Principalmente
quando se sabe quem foi o autor, e não estou dizendo que seja esse o caso
do anthrax, mas não há provas suficientes. Acredito que ainda vamos
resolver o caso do anthrax. Veja
Tem certeza? Mueller Absoluta. |