Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Auto-retrato
Rainha Silvia

Nascida na Alemanha e filha de mãe brasileira, Silvia Renata de Toledo Sommerlath, de 61 anos, é casada com o rei da Suécia, Carlos Gustavo. Com três filhos adultos, ela criou em 2000 uma fundação para combater o abuso sexual infantil, a World Childhood Foundation (WCF). Em São Paulo, na semana passada, ela conversou com o repórter José Eduardo Barella.

POR QUE A SENHORA FUNDOU UMA ONG PARA COMBATER O ABUSO SEXUAL DE CRIANÇAS?
A idéia veio em 1996, quando começaram a surgir filmes pornográficos na Suécia feitos com crianças. Aquilo me chocou. Não imaginava que por trás desse tipo de abuso havia um negócio organizado. Achei que tinha de chamar atenção para o problema.  

NÃO É COMUM UMA RAINHA TRATAR DE TEMAS DELICADOS COMO ESSE. A SENHORA ENFRENTOU RESISTÊNCIA?
O abuso infantil é um tema difícil de abordar. As pessoas têm vergonha de falar nisso. Fui criticada na Suécia quando trouxe esse problema à tona. Um dos argumentos era que eu estava me envolvendo em assuntos políticos. Ora, trata-se de uma questão humanitária, não política. No início não foi fácil como mãe e, principalmente, como rainha denunciar esse problema. Mas tenho orgulho do que fiz.  

QUAL A ATUAÇÃO DE SUA ONG?
O objetivo é dar assistência às vítimas e desenvolver projetos sociais de prevenção em hospitais, escolas, hotéis e empresas para conscientizar as pessoas. Abrimos escritórios na Suécia, Estados Unidos, Alemanha e Brasil. No Brasil conseguimos apoiar cerca de sessenta projetos em dezesseis estados. São mais de 670.000 pessoas beneficiadas, entre crianças, familiares e profissionais capacitados para lidar adequadamente com o problema. Há modalidades de abuso sexual infantil que podem ser combatidas pelas autoridades, como o turismo sexual, e outras difíceis de ser detectadas a tempo, como a pedofilia.

A SENHORA MUDOU O PAPEL DAS RAINHAS NA SUÉCIA?
Foi meu marido quem modernizou a monarquia sueca. Ele herdou o trono do rei Gustavo Adolfo, seu avô, em 1973. Ele tinha 90 anos, e meu marido, 27. Coube a meu marido fazer a ponte entre a tradição e a modernidade. Quando nos casamos, três anos depois, em 1976, não tinha idéia de qual seria meu papel. Minha situação era diferente da de outras rainhas da Europa. Eu havia trabalhado vários anos como tradutora e, depois, no cerimonial dos Jogos Olímpicos de Munique. Até então, as mulheres não desempenhavam papel relevante na corte sueca. A primeira coisa que pedi ao me casar foi uma máquina de escrever. "Máquina de escrever para quê?", perguntaram. Era para escrever cartas para parentes e amigas, mas todos estranharam. A maior inovação adotada pelo rei e por mim foi a contratação de um grupo de consultores profissionais, que aconselha a família real nas áreas sociais, militares e políticas.  

QUAIS SÃO AS VANTAGENS E DESVANTAGENS DE SER RAINHA?
A principal vantagem é poder chamar atenção para problemas sociais importantes, como o abuso sexual infantil, e mobilizar recursos para essas causas. A desvantagem é a impossibilidade de fazer coisas de improviso, sem programação prévia. Sinto falta disso.  

A FAMÍLIA REAL CONTINUA MANTENDO O HÁBITO DE PASSAR OS FINS DE SEMANA REUNIDA?
Meu marido gosta de cozinhar, e durante muito tempo eu e meus filhos aproveitamos para ficar juntos, ajudando-o na preparação dos pratos. Depois que eles cresceram, ficou difícil segurá-los nos fins de semana. Consegui preservar apenas a noite de domingo para o jantar em família.  

SEUS FILHOS TAMBÉM ESTÃO ENGAJADOS EM CAUSAS SOCIAIS?
Os dois menores, Carlos Felipe, de 25 anos, e Madeleine, de 22 anos, ainda estão estudando. Mas Victoria, de 27 anos, é ativa em várias fundações, entre elas a Make-a-Wish, que concede a crianças com câncer a possibilidade de realizar um grande desejo. Ela também apóia a WCF, participando de eventos importantes da fundação.

 
 
 
 
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