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Auto-retrato Rainha
Silvia Nascida na Alemanha e filha de mãe
brasileira, Silvia Renata de Toledo Sommerlath, de 61 anos, é casada com
o rei da Suécia, Carlos Gustavo. Com três filhos adultos, ela criou
em 2000 uma fundação para combater o abuso sexual infantil, a World
Childhood Foundation (WCF). Em São Paulo, na semana passada, ela conversou
com o repórter José Eduardo Barella. POR
QUE A SENHORA FUNDOU UMA ONG PARA COMBATER O ABUSO SEXUAL DE CRIANÇAS?
A idéia veio em 1996, quando começaram a surgir filmes pornográficos
na Suécia feitos com crianças. Aquilo me chocou. Não imaginava
que por trás desse tipo de abuso havia um negócio organizado. Achei
que tinha de chamar atenção para o problema. NÃO
É COMUM UMA RAINHA TRATAR DE TEMAS DELICADOS COMO ESSE. A SENHORA ENFRENTOU
RESISTÊNCIA? O abuso infantil é um tema difícil de
abordar. As pessoas têm vergonha de falar nisso. Fui criticada na Suécia
quando trouxe esse problema à tona. Um dos argumentos era que eu estava
me envolvendo em assuntos políticos. Ora, trata-se de uma questão
humanitária, não política. No início não foi
fácil como mãe e, principalmente, como rainha denunciar esse problema.
Mas tenho orgulho do que fiz. QUAL A
ATUAÇÃO DE SUA ONG? O objetivo é dar assistência
às vítimas e desenvolver projetos sociais de prevenção
em hospitais, escolas, hotéis e empresas para conscientizar as pessoas.
Abrimos escritórios na Suécia, Estados Unidos, Alemanha e Brasil.
No Brasil conseguimos apoiar cerca de sessenta projetos em dezesseis estados.
São mais de 670.000 pessoas beneficiadas, entre crianças, familiares
e profissionais capacitados para lidar adequadamente com o problema. Há
modalidades de abuso sexual infantil que podem ser combatidas pelas autoridades,
como o turismo sexual, e outras difíceis de ser detectadas a tempo, como
a pedofilia. A SENHORA MUDOU O PAPEL DAS RAINHAS
NA SUÉCIA? Foi meu marido quem modernizou a monarquia sueca. Ele
herdou o trono do rei Gustavo Adolfo, seu avô, em 1973. Ele tinha 90 anos,
e meu marido, 27. Coube a meu marido fazer a ponte entre a tradição
e a modernidade. Quando nos casamos, três anos depois, em 1976, não
tinha idéia de qual seria meu papel. Minha situação era diferente
da de outras rainhas da Europa. Eu havia trabalhado vários anos como tradutora
e, depois, no cerimonial dos Jogos Olímpicos de Munique. Até então,
as mulheres não desempenhavam papel relevante na corte sueca. A primeira
coisa que pedi ao me casar foi uma máquina de escrever. "Máquina
de escrever para quê?", perguntaram. Era para escrever cartas para parentes
e amigas, mas todos estranharam. A maior inovação adotada pelo rei
e por mim foi a contratação de um grupo de consultores profissionais,
que aconselha a família real nas áreas sociais, militares e políticas.
QUAIS SÃO AS VANTAGENS E DESVANTAGENS
DE SER RAINHA? A principal vantagem é poder chamar atenção
para problemas sociais importantes, como o abuso sexual infantil, e mobilizar
recursos para essas causas. A desvantagem é a impossibilidade de fazer
coisas de improviso, sem programação prévia. Sinto falta
disso. A FAMÍLIA REAL CONTINUA
MANTENDO O HÁBITO DE PASSAR OS FINS DE SEMANA REUNIDA? Meu marido
gosta de cozinhar, e durante muito tempo eu e meus filhos aproveitamos para ficar
juntos, ajudando-o na preparação dos pratos. Depois que eles cresceram,
ficou difícil segurá-los nos fins de semana. Consegui preservar
apenas a noite de domingo para o jantar em família. SEUS
FILHOS TAMBÉM ESTÃO ENGAJADOS EM CAUSAS SOCIAIS? Os dois
menores, Carlos Felipe, de 25 anos, e Madeleine, de 22 anos, ainda estão
estudando. Mas Victoria, de 27 anos, é ativa em várias fundações,
entre elas a Make-a-Wish, que concede a crianças com câncer a possibilidade
de realizar um grande desejo. Ela também apóia a WCF, participando
de eventos importantes da fundação. |