Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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André Petry
É só preconceito

"É lamentável a dificuldade que
Baby do Brasil
e outros evangélicos
(e não só evangélicos, convenhamos)
parecem ter
para conviver com
a diversidade religiosa e cultural"

O ruim da onda evangélica que cresce no Brasil é que, por trás dela, vem uma tonelada de preconceito religioso. É por isso, devido à enorme presunção de alguns evangélicos, que volta e meia aparece um fiel dando chute ou jogando pedra em santa católica. Trata-se da mais abjeta intolerância religiosa – um câncer social que todos, ateus inclusive, devem combater. Mas o pior é que, por trás da onda, tem crescido também o preconceito racial. Uma parte dos evangélicos, além de atiçar o demônio sobre os que professam outra fé, qualquer outra, ainda acha que os negros devem ser vítimas preferenciais do cão-tinhoso. Eis aí a razão pela qual tem sido particularmente intensa a intolerância evangélica contra o candomblé, a macumba, a umbanda, todos credos de origem africana e majoritariamente praticados por negros. Não há dado mais tristemente exemplar dessa postura odiosa do que o entusiasmo algo diáfano com que Baby do Brasil, evangélica convertida há seis anos, deu para falar das outras fés.

Baby do Brasil, ex-Baby Consuelo, acredita que foi o belzebu quem produziu a tragédia do furacão Katrina em Nova Orleans. Numa reportagem publicada na edição passada de VEJA, ela explicou por que diabos o diabo escolheu devastar justamente Nova Orleans: "Lá só tem vodu", disse. O raciocínio é estupidamente linear: Nova Orleans foi amaldiçoada pelo capeta porque é uma cidade de negros que, em vez de se converterem ao Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome do Senhor Jesus Cristo, a igreja que Baby do Brasil está fundando, caíram no erro de ser adeptos dessa coisa monstruosa e indigna chamada vodu. Baby do Brasil tem o direito de ser o que quiser, fundar a igreja que quiser, professar a fé que bem entender e dar sua opinião sobre tudo o que desejar – mas espalhar preconceito e intolerância é demais.

Já estive numa sessão de vodu em Porto Príncipe, capital do Haiti. O vodu está para o Haiti assim como o candomblé está para a Bahia. No centro da cerimônia, que durou perto de duas horas, só havia negros – e um cenário inigualável. Seja pelo ritual religioso propriamente dito, com os adeptos fazendo desenhos pelo chão com pó de carvão, tijolo e giz, seja pela sua atmosfera mágica, as tochas de fogo, a plasticidade sempre vermelha, a sonoridade frenética. Nada, ali, era macabro, não havia bonecos de pano nem agulhas ou poções demoníacas. Nada do que nos informam os filmes de Hollywood. Era vodu, essa religião criada e celebrada por negros. (E os que vivem de difamar cultos africanos por achar que assim defendem os animais se tranqüilizem: nenhuma galinha, nenhum bode foi sacrificado para os deuses naquela noite em Porto Príncipe.)

É lamentável a dificuldade que Baby do Brasil e outros evangélicos (e não só evangélicos, convenhamos) parecem encontrar para conviver com a diversidade religiosa e cultural, que resulta na própria diversidade de cor de pele.

É especialmente lamentável que isso tudo venha à tona justamente na semana em que, aos 92 anos, Rosa Parks morreu! Ela, que se recusou a ceder seu lugar no ônibus para um branco e acendeu o estopim que incendiou a segregação racial nos Estados Unidos.

Ela, que, além de negra, era evangélica!

 
 
 
 
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