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André
Petry É só preconceito
"É
lamentável a dificuldade que Baby do Brasil e outros
evangélicos (e não só evangélicos,
convenhamos) parecem ter para conviver com a
diversidade religiosa e cultural"
O ruim da onda evangélica que cresce no Brasil é que, por trás
dela, vem uma tonelada de preconceito religioso. É por isso, devido à
enorme presunção de alguns evangélicos, que volta e meia
aparece um fiel dando chute ou jogando pedra em santa católica. Trata-se
da mais abjeta intolerância religiosa um câncer social que
todos, ateus inclusive, devem combater. Mas o pior é que, por trás
da onda, tem crescido também o preconceito racial. Uma parte dos evangélicos,
além de atiçar o demônio sobre os que professam outra fé,
qualquer outra, ainda acha que os negros devem ser vítimas preferenciais
do cão-tinhoso. Eis aí a razão pela qual tem sido particularmente
intensa a intolerância evangélica contra o candomblé, a macumba,
a umbanda, todos credos de origem africana e majoritariamente praticados por negros.
Não há dado mais tristemente exemplar dessa postura odiosa do que
o entusiasmo algo diáfano com que Baby do Brasil, evangélica convertida
há seis anos, deu para falar das outras fés.
Baby do Brasil, ex-Baby Consuelo, acredita que foi o belzebu quem produziu a tragédia
do furacão Katrina em Nova Orleans. Numa reportagem publicada na edição
passada de VEJA, ela explicou por que diabos o diabo escolheu devastar justamente
Nova Orleans: "Lá só tem vodu", disse. O raciocínio é
estupidamente linear: Nova Orleans foi amaldiçoada pelo capeta porque é
uma cidade de negros que, em vez de se converterem ao Ministério do Espírito
Santo de Deus em Nome do Senhor Jesus Cristo, a igreja que Baby do Brasil está
fundando, caíram no erro de ser adeptos dessa coisa monstruosa e indigna
chamada vodu. Baby do Brasil tem o direito de ser o que quiser, fundar a igreja
que quiser, professar a fé que bem entender e dar sua opinião sobre
tudo o que desejar mas espalhar preconceito e intolerância é
demais. Já estive numa sessão
de vodu em Porto Príncipe, capital do Haiti. O vodu está para o
Haiti assim como o candomblé está para a Bahia. No centro da cerimônia,
que durou perto de duas horas, só havia negros e um cenário
inigualável. Seja pelo ritual religioso propriamente dito, com os adeptos
fazendo desenhos pelo chão com pó de carvão, tijolo e giz,
seja pela sua atmosfera mágica, as tochas de fogo, a plasticidade sempre
vermelha, a sonoridade frenética. Nada, ali, era macabro, não havia
bonecos de pano nem agulhas ou poções demoníacas. Nada do
que nos informam os filmes de Hollywood. Era vodu, essa religião criada
e celebrada por negros. (E os que vivem de difamar cultos africanos por achar
que assim defendem os animais se tranqüilizem: nenhuma galinha, nenhum bode
foi sacrificado para os deuses naquela noite em Porto Príncipe.)
É lamentável a dificuldade que Baby do Brasil
e outros evangélicos (e não só evangélicos, convenhamos)
parecem encontrar para conviver com a diversidade religiosa e cultural, que resulta
na própria diversidade de cor de pele. É
especialmente lamentável que isso tudo venha à tona justamente na
semana em que, aos 92 anos, Rosa Parks morreu! Ela, que se recusou a ceder seu
lugar no ônibus para um branco e acendeu o estopim que incendiou a segregação
racial nos Estados Unidos. Ela, que,
além de negra, era evangélica! |