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Abstratos
furores
São eles que movem o protagonista
do
romance Conversa na Sicília,
clássico
da literatura italiana
Mario
Sabino

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Antes
de entrar na resenha propriamente dita de Conversa na Sicília
(tradução de Valêncio Xavier e Maria Helena
Arrigucci; Cosac & Naify; 287 páginas; 39 reais), um episódio
da biografia de seu autor, Elio Vittorini. Na década de 50, ele
dirigia uma coleção de literatura da editora Einaudi. Sua
tarefa principal era avaliar originais de escritores. Um dos manuscritos
que lhe caíram nas mãos foi um romance de um certo Giuseppe
Tomasi di Lampedusa, um aristocrata (siciliano como Vittorini) que resolvera
dedicar-se à literatura pouco antes de completar 60 anos. Vittorini
examinou o original e o descartou, com um burocrático "não
condiz com a nossa linha editorial". Na verdade, ele recusou o livro por
considerá-lo antiquado na forma, que remetia aos romances do final
do século XIX, e (pecado maior) resignado no conteúdo, que
fala de uma Sicília condenada a permanecer estagnada. Uma visão
diametralmente oposta à de Vittorini, homem de esquerda, defensor
de "uma cultura que não consolasse dos sofrimentos, mas que protegesse
deles, os combatesse e eliminasse". Meses depois, o manuscrito de Lampedusa,
que havia falecido não fazia muito, foi lido por outro autor, Giorgio
Bassani (de O Jardim dos Finzi-Contini). Ele não hesitou
em recomendar sua publicação, o que ocorreria em 1958. Assim
começou a história de sucesso mundial do romance O Gattopardo.
Não
publicar o livro de Lampedusa talvez tenha sido o único erro de
Vittorini creditável à miopia ideológica. Essa marca
é ainda mais respeitável por se tratar de um protagonista
do intenso tiroteio intelectual que se instalou na Itália no imediato
pós-Segunda Guerra uma época em que tantos cometeram
tantos equívocos por tão pouco (a "causa", também
grafada com maiúscula). Vittorini atirava à direita e à
esquerda. Na década de 40, ficou famosa a sua polêmica com
o secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI), Palmiro
Togliatti, que desejava colocar a produção cultural sob
a linha dura. "Revolucionário é o escritor que consegue
exprimir por meio de sua obra exigências revolucionárias
diferentes das impostas pela política: exigências internas,
recônditas, que só ele, escritor, sabe perceber no homem",
escreveu numa carta a Togliatti. Por causa do embate, Vittorini teve a
revista que dirigia fechada e, alguns anos mais tarde, acabaria saindo
dos quadros do PCI.
Conversa
na Sicília, romance publicado em capítulos entre 1938
e 1939, é a maior realização de Vittorini, que morreu
em 1966. É uma prova de que sua carta a Togliatti não era
retórica. Conta a história de um siciliano migrado que está
para completar 30 anos e passou a metade de sua vida longe da família.
Tomado por "abstratos furores", pela "calmaria na não-esperança",
ele embarca, quase que por inércia, numa viagem à terra
natal. Busca, com isso, reconhecer-se como sujeito de sua própria
existência, com um passado tangível e um presente que cabe
a ele construir, em benefício do "gênero humano perdido".
É impossível estabelecer em que ponto termina a sua crise
individual e começa o seu desalento com o quadro social em que
ele está inserido o do ultraje e da humilhação.
E é essa fusão a grande virtude do livro de Vittorini. Em
certos manuais de literatura, Conversa na Sicília é
definido um dos marcos inaugurais do neo-realismo. É estranho,
no entanto, classificá-lo como tal. Sua estrutura circular e seus
diálogos corais evocam as tragédias gregas. Sua linguagem
despida de sentimentalismo remete à melhor literatura americana
do século XX, uma das paixões de Vittorini. Ernest Hemingway,
aliás, assina o prefácio da edição lançada
nos Estados Unidos. Conversa na Sicília, na verdade, escapa
aos enquadramentos. É, também por esse motivo, um clássico.
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