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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
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Ben vence o mal

Fora de Controle sugere que,
além de ser astro, Ben Affleck
pode virar também um ator

Isabela Boscov

A história fala ao coração dos estressados urbanos: um pequeno acidente numa via expressa lotada, dois motoristas atrasados, uma discussão pouco amigável – e logo se tem dois sujeitos engalfinhados numa guerra que escala em intensidade a cada ataque e contra-ataque. A mera exploração dessa neurose já poderia constituir algo interessante. Mas Fora de Controle (Changing Lanes, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país, soma um pouco mais a ela por mérito de seu diretor – o sul-africano de nascimento e inglês de adoção Roger Michell, do ligeiro e agradável Um Lugar Chamado Notting Hill. O que Michell tem a mais, no caso, é o olhar de um estrangeiro sobre uma cidade tão peculiar quanto Nova York. Os dois oponentes nessa guerra são, de forma até certo ponto previsível, pessoas saídas de extremos opostos da ultracompetitiva organização social americana. Doyle Gipson (Samuel L. Jackson) é negro, ex-alcoólatra, dirige um carro velho, tem um emprego monótono e está a caminho do fórum para provar que se tornou um cidadão-modelo e se encontra apto a reaver sua parte na guarda dos filhos. Gavin Banek (Ben Affleck) tem um Mercedes, usa ternos caros e é um advogado em ascensão. Também está indo para o fórum, para oficializar um negócio não exatamente exemplar – embora não seja um mau sujeito – para o sogro e patrão (Sydney Pollack, em ótima participação).

No tumulto do acidente, Gavin segue seus instintos yuppies para resolver a situação. Ou seja, preenche um cheque. Doyle, por sua vez, reage com seus instintos de desprivilegiado e toma a oferta como uma ofensa. A partir daí, segue-se uma campanha de ruína mútua. A sensatez de Michell está em não demonizar o rico nem santificar o pobre, como muito provavelmente faria um diretor americano. Prefere fundamentar a batalha entre eles sobre a percepção, e as preconcepções, que uma classe social tem da outra. Faz diversas concessões moralistas, é verdade, mas não tão grandes que tirem do enredo toda a sua substância. A demonstração de que o material é bem escrito e bem dirigido está no desempenho de Ben Affleck. Com mais jeito para ser astro do que para convencer como ator, Affleck responde à história com o mais próximo de uma interpretação que conseguiu em sua carreira. Não é só seu personagem que tem salvação. Ele também, pelo visto.

 

   
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