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Ben
vence o mal
Fora
de Controle sugere que,
além de ser astro, Ben Affleck
pode virar também um ator
Isabela
Boscov
A
história fala ao coração dos estressados urbanos:
um pequeno acidente numa via expressa lotada, dois motoristas atrasados,
uma discussão pouco amigável e logo se tem dois sujeitos
engalfinhados numa guerra que escala em intensidade a cada ataque e contra-ataque.
A mera exploração dessa neurose já poderia constituir
algo interessante. Mas Fora de Controle (Changing Lanes,
Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país,
soma um pouco mais a ela por mérito de seu diretor o sul-africano
de nascimento e inglês de adoção Roger Michell, do
ligeiro e agradável Um Lugar Chamado Notting Hill. O que
Michell tem a mais, no caso, é o olhar de um estrangeiro sobre
uma cidade tão peculiar quanto Nova York. Os dois oponentes nessa
guerra são, de forma até certo ponto previsível,
pessoas saídas de extremos opostos da ultracompetitiva organização
social americana. Doyle Gipson (Samuel L. Jackson) é negro, ex-alcoólatra,
dirige um carro velho, tem um emprego monótono e está a
caminho do fórum para provar que se tornou um cidadão-modelo
e se encontra apto a reaver sua parte na guarda dos filhos. Gavin Banek
(Ben Affleck) tem um Mercedes, usa ternos caros e é um advogado
em ascensão. Também está indo para o fórum,
para oficializar um negócio não exatamente exemplar
embora não seja um mau sujeito para o sogro e patrão
(Sydney Pollack, em ótima participação).
No tumulto do acidente, Gavin segue seus instintos yuppies para resolver
a situação. Ou seja, preenche um cheque. Doyle, por sua
vez, reage com seus instintos de desprivilegiado e toma a oferta como
uma ofensa. A partir daí, segue-se uma campanha de ruína
mútua. A sensatez de Michell está em não demonizar
o rico nem santificar o pobre, como muito provavelmente faria um diretor
americano. Prefere fundamentar a batalha entre eles sobre a percepção,
e as preconcepções, que uma classe social tem da outra.
Faz diversas concessões moralistas, é verdade, mas não
tão grandes que tirem do enredo toda a sua substância. A
demonstração de que o material é bem escrito e bem
dirigido está no desempenho de Ben Affleck. Com mais jeito para
ser astro do que para convencer como ator, Affleck responde à história
com o mais próximo de uma interpretação que conseguiu
em sua carreira. Não é só seu personagem que tem
salvação. Ele também, pelo visto.
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