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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
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1 200 000 espectadores...

...e subindo: Cidade de Deus,
de Fernando Meirelles, é uma
combinação rara de prestígio crítico
e sucesso popular – ambos merecidos

Isabela Boscov

 
Divulgação
O elenco de Cidade: estréia programada em mais de sessenta países


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Estação VEJA: trailer de Cidade de Deus

Com 28 dias de exibição, Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles, bateu numa marca impressionante: 1,2 milhão de espectadores. Já seria muito se fosse o seu número final. Para termo de comparação, sucessos americanos como Onze Homens e um Segredo têm encerrado sua bilheteria por aqui com 2,5 milhões de ingressos vendidos. Mas Cidade de Deus ainda está longe de fechar suas contas. Num caso raro, sua renda não caiu depois da estréia. Cresceu do primeiro fim de semana para o segundo, e do segundo para o terceiro. As projeções da distribuidora Lumière indicam uma conta final memorável: 2 milhões de espectadores. Mas inédita mesmo é a geografia do sucesso de Cidade de Deus. Boa parte da legião de interessados nessa história de tráfico e sobrevivência na favela vem da periferia das grandes cidades. É nos cinemas de áreas populares – e nos dias de semana, quando o ingresso é mais barato – que o filme tem seu desempenho mais notável. O público comparece em peso, ri, torce, se choca e sai recomendando o programa à vizinhança. Para os defensores da tese de que o cinema é o melhor espelho de um país, Cidade de Deus serve de prova. Fernando Meirelles, porém, não pôde saborear como merecia essa conquista: seu filme já estreou cercado por uma polêmica bizantina.

Oscar Cabral
Meirelles, com Douglas Silva, que faz Dadinho: ex-arquiteto e quase biólogo marinho


Segundo uma certa linha de pensamento, filmes como Central do Brasil, Eu Tu Eles e Cidade de Deus seriam exemplos do que a crítica Ivana Bentes escolheu denominar "cosmética da fome". Trata-se de um trocadilho com a expressão "estética da fome", cunhada pelo cineasta Glauber Rocha à época do cinema novo. Num texto recente, Ivana acusa Cidade de ser o auge de um "novo realismo e brutalismo latino-americano". Ela critica a montagem ágil e o virtuosismo da câmera como sintomas de uma ambição sinistra: a de transformar a matança de pobres entre si em espetáculo para consumo. Esse zelo linha-dura envolve duas falácias: a de que um filme sobre uma realidade dramática não pode provocar prazer de nenhum tipo, e a de que espectador pego pelos sentidos não pensa. Para Walter Salles, produtor do filme, o simples fato de haver tanto debate desmente esse gênero de raciocínio. "O que fez Apocalypse Now, por exemplo, senão elevar à enésima potência um conflito absurdo? Cidade de Deus aprofundou a discussão sobre o apartheid social brasileiro e virou matéria urgente, aquilo que o cinema raramente consegue", observa Salles. Parte do tiroteio dirigido contra Cidade de Deus resulta de um preconceito antigo. Sempre que um diretor vem do meio publicitário – caso de Salles, Meirelles e Andrucha Waddington, de Eu Tu Eles –, ele é veladamente acusado de usar seu arsenal de truques para dar um lustro na miséria e faturar com ela. É o tipo de ataque que freqüentemente parece ter algo de maldoso, até porque sugere despeito, e muito de deslocado. Por trás dele, está uma idéia mais do que vencida: a de que, para ser genuíno, um filme brasileiro tem de ser tosco. De tosco Cidade de Deus não tem nada – e de publicitário também não.

Apesar dessa minoria ruidosa, Cidade de Deus ganhou um prestígio dentro e fora do Brasil que, na história recente do cinema nacional, só tem antecedentes em Central do Brasil. Adjetivos como "talentoso" ou "genial", no entanto, espantam Meirelles. "Me identifico bem mais com aquele mané que rala para burro há muito tempo", assegura. Em parte, ele diz, Cidade de Deus só saiu porque não sabia muito bem no que estava se metendo. Paulistano de classe média alta, filho de um médico e uma paisagista, o diretor de 47 anos estudou no tradicional Colégio Santa Cruz e tinha pretensões de cursar biologia marinha na França. Chegando lá, constatou que gostava era de praia, não de estudar o oceano, e voltou para fazer arquitetura na Universidade de São Paulo. Nunca levou os croquis adiante: nos anos 80, fundou com alguns amigos a produtora Olhar Eletrônico, cuja cria mais célebre foi o repórter Ernesto Varela – na vida civil, Marcelo Tas. O diretor criou o personagem com Tas e atuava também como o cameraman Valdeci. Com uma família em surgimento para sustentar – ele é "muito bem-casado" há dezoito anos e tem dois filhos –, Meirelles rumou pouco a pouco para a publicidade. Hoje é sócio de uma das grandes produtoras do país, a O2 Filmes, que entrega as cópias dos comerciais aos clientes em saquinhos de padaria estampados com lemas como "servir bem para servir sempre". Nada na vida pregressa de Meirelles, portanto, poderia prepará-lo para a experiência de Cidade de Deus. "Mal eu pus o pé no morro e já tinha um cara com uma arma apontada para a minha cabeça", conta ele, ressalvando que esse foi um dos poucos episódios de perigo com que sua equipe deparou. "No fim, a filmagem foi o período mais feliz da minha vida. Passei um ano de bermuda e chinelo, cercado de pessoas cheias de entusiasmo", diz.

A carreira de Meirelles não poderia estar mais em alta. Seu filme é o candidato natural à indicação do Brasil (a ser decidida no fim de outubro) para a disputa pelo Oscar de produção estrangeira. Cidade de Deus já está também vendido para 62 países estrangeiros, e os arquivos de Meirelles na O2 estão recheados de roteiros enviados por estúdios americanos. Entre as várias propostas há uma da Fox, para um filme com Robert De Niro, e outra da Universal, com Tom Hanks à frente do elenco. A primeira ele já recusou, e é possível que a segunda siga o mesmo caminho. Novamente em dupla com Bráulio Mantovani, o roteirista de Cidade de Deus, o diretor está tocando um projeto chamado Intolerância II – em referência ao Intolerância de D.W. Griffith, de 1916, um dos filmes fundadores da cinematografia americana. Enquanto Griffith tratava da história da humanidade através do tempo, porém, Meirelles pretende fazê-lo através da geografia, percorrendo cinco países com seu enredo. "Não estou trocando Hollywood por Intolerância II por esnobismo. Quero fazer um filme lá, porque acho uma experiência necessária", diz Meirelles. "Mas meu agente (o americano John Lesher, o mesmo de Walter Salles) me garantiu que ainda tenho crédito para pisar na bola com os caras umas duas vezes", brinca.

   
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