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200 000 espectadores...
...e subindo: Cidade de Deus,
de Fernando Meirelles, é uma
combinação rara de prestígio crítico
e sucesso popular ambos merecidos
Isabela
Boscov
Divulgação
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| O
elenco de Cidade: estréia programada em mais de sessenta
países |

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Com
28 dias de exibição, Cidade de Deus, do diretor Fernando
Meirelles, bateu numa marca impressionante: 1,2 milhão de espectadores.
Já seria muito se fosse o seu número final. Para termo de
comparação, sucessos americanos como Onze Homens e um
Segredo têm encerrado sua bilheteria por aqui com 2,5 milhões
de ingressos vendidos. Mas Cidade de Deus ainda está longe
de fechar suas contas. Num caso raro, sua renda não caiu depois
da estréia. Cresceu do primeiro fim de semana para o segundo, e
do segundo para o terceiro. As projeções da distribuidora
Lumière indicam uma conta final memorável: 2 milhões
de espectadores. Mas inédita mesmo é a geografia do sucesso
de Cidade de Deus. Boa parte da legião de interessados nessa
história de tráfico e sobrevivência na favela vem
da periferia das grandes cidades. É nos cinemas de áreas
populares e nos dias de semana, quando o ingresso é mais
barato que o filme tem seu desempenho mais notável. O público
comparece em peso, ri, torce, se choca e sai recomendando o programa à
vizinhança. Para os defensores da tese de que o cinema é
o melhor espelho de um país, Cidade de Deus serve de prova.
Fernando Meirelles, porém, não pôde saborear como
merecia essa conquista: seu filme já estreou cercado por uma polêmica
bizantina.
Oscar Cabral
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| Meirelles,
com Douglas Silva, que faz Dadinho: ex-arquiteto e quase biólogo
marinho |
Segundo uma certa linha de pensamento, filmes como Central do Brasil,
Eu Tu Eles e Cidade de Deus seriam exemplos do que a crítica
Ivana Bentes escolheu denominar "cosmética da fome". Trata-se de
um trocadilho com a expressão "estética da fome", cunhada
pelo cineasta Glauber Rocha à época do cinema novo. Num
texto recente, Ivana acusa Cidade de ser o auge de um "novo realismo
e brutalismo latino-americano". Ela critica a montagem ágil e o
virtuosismo da câmera como sintomas de uma ambição
sinistra: a de transformar a matança de pobres entre si em espetáculo
para consumo. Esse zelo linha-dura envolve duas falácias: a de
que um filme sobre uma realidade dramática não pode provocar
prazer de nenhum tipo, e a de que espectador pego pelos sentidos não
pensa. Para Walter Salles, produtor do filme, o simples fato de haver
tanto debate desmente esse gênero de raciocínio. "O que fez
Apocalypse Now, por exemplo, senão elevar à enésima
potência um conflito absurdo? Cidade de Deus aprofundou a
discussão sobre o apartheid social brasileiro e virou matéria
urgente, aquilo que o cinema raramente consegue", observa Salles. Parte
do tiroteio dirigido contra Cidade de Deus resulta de um preconceito
antigo. Sempre que um diretor vem do meio publicitário caso
de Salles, Meirelles e Andrucha Waddington, de Eu Tu Eles ,
ele é veladamente acusado de usar seu arsenal de truques para dar
um lustro na miséria e faturar com ela. É o tipo de ataque
que freqüentemente parece ter algo de maldoso, até porque
sugere despeito, e muito de deslocado. Por trás dele, está
uma idéia mais do que vencida: a de que, para ser genuíno,
um filme brasileiro tem de ser tosco. De tosco Cidade de Deus não
tem nada e de publicitário também não.
Apesar dessa minoria ruidosa, Cidade de Deus ganhou um prestígio
dentro e fora do Brasil que, na história recente do cinema nacional,
só tem antecedentes em Central do Brasil. Adjetivos como
"talentoso" ou "genial", no entanto, espantam Meirelles. "Me identifico
bem mais com aquele mané que rala para burro há muito tempo",
assegura. Em parte, ele diz, Cidade de Deus só saiu porque
não sabia muito bem no que estava se metendo. Paulistano de classe
média alta, filho de um médico e uma paisagista, o diretor
de 47 anos estudou no tradicional Colégio Santa Cruz e tinha pretensões
de cursar biologia marinha na França. Chegando lá, constatou
que gostava era de praia, não de estudar o oceano, e voltou para
fazer arquitetura na Universidade de São Paulo. Nunca levou os
croquis adiante: nos anos 80, fundou com alguns amigos a produtora Olhar
Eletrônico, cuja cria mais célebre foi o repórter
Ernesto Varela na vida civil, Marcelo Tas. O diretor criou o personagem
com Tas e atuava também como o cameraman Valdeci. Com uma família
em surgimento para sustentar ele é "muito bem-casado" há
dezoito anos e tem dois filhos , Meirelles rumou pouco a pouco para
a publicidade. Hoje é sócio de uma das grandes produtoras
do país, a O2 Filmes, que entrega as cópias dos comerciais
aos clientes em saquinhos de padaria estampados com lemas como "servir
bem para servir sempre". Nada na vida pregressa de Meirelles, portanto,
poderia prepará-lo para a experiência de Cidade de Deus.
"Mal eu pus o pé no morro e já tinha um cara com uma arma
apontada para a minha cabeça", conta ele, ressalvando que esse
foi um dos poucos episódios de perigo com que sua equipe deparou.
"No fim, a filmagem foi o período mais feliz da minha vida. Passei
um ano de bermuda e chinelo, cercado de pessoas cheias de entusiasmo",
diz.
A
carreira de Meirelles não poderia estar mais em alta. Seu filme
é o candidato natural à indicação do Brasil
(a ser decidida no fim de outubro) para a disputa pelo Oscar de produção
estrangeira. Cidade de Deus já está também
vendido para 62 países estrangeiros, e os arquivos de Meirelles
na O2 estão recheados de roteiros enviados por estúdios
americanos. Entre as várias propostas há uma da Fox, para
um filme com Robert De Niro, e outra da Universal, com Tom Hanks à
frente do elenco. A primeira ele já recusou, e é possível
que a segunda siga o mesmo caminho. Novamente em dupla com Bráulio
Mantovani, o roteirista de Cidade de Deus, o diretor está
tocando um projeto chamado Intolerância II em referência
ao Intolerância de D.W. Griffith, de 1916, um dos filmes
fundadores da cinematografia americana. Enquanto Griffith tratava da história
da humanidade através do tempo, porém, Meirelles pretende
fazê-lo através da geografia, percorrendo cinco países
com seu enredo. "Não estou trocando Hollywood por Intolerância
II por esnobismo. Quero fazer um filme lá, porque acho uma
experiência necessária", diz Meirelles. "Mas meu agente (o
americano John Lesher, o mesmo de Walter Salles) me garantiu que ainda
tenho crédito para pisar na bola com os caras umas duas vezes",
brinca.
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