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O
que está por trás
da queda do real
Incerteza
na política
e especulação
nos
mercados levam
o dólar a
bater novo
recorde
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| Televisores
à venda em São Paulo: o repasse da alta do dólar chegou ao varejo |

Veja também |
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O
mercado atingiu na semana passada um grau de ebulição
que espantou até os pessimistas. O dólar fechou a 3,87 reais.
De janeiro até a última semana, o poder de compra do real
despencou 68% em relação à moeda americana. A proximidade
das eleições e a possibilidade de vitória ainda no
primeiro turno do candidato petista Luís Inácio Lula da
Silva explicam boa parte da volatilidade. Não é apenas porque
o mercado ainda não se convenceu totalmente da conversão
de Lula e seu partido às regras básicas da estabilidade
monetária. Mas também porque a transição de
governo, especialmente quando um partido de oposição vence,
é sempre turbulenta, independentemente das boas intenções
dos novos operadores da máquina estatal. Na melhor das hipóteses,
os três primeiros meses após a posse serão tomados
pelo burburinho da substituição de quadros em todos os primeiros
escalões de governo, um movimento que não favorece a tomada
de decisões e tende a prejudicar o andamento da economia. Num período
assim ocorre uma ruptura como a que o Brasil está vivendo, uma
situação nervosa em que o risco dá lugar à
incerteza. Risco é natural no jogo político, financeiro
e comercial. Ele pode ser medido, analisado e precificado, como dizem
os economistas. Em outras palavras, o risco pode ser embutido no custo.
Quando isso ocorre, os empréstimos e investimentos ficam mais caros.
A incerteza paralisa. Ela é um animal bem mais selvagem que leva
pessoas e empresas a procurar a proteção, às vezes
excessiva, de seu patrimônio financeiro. A saída clássica
em períodos de incerteza é a troca de reais por dólares,
ouro e imóveis.
A
confiança dos investidores num governo como o brasileiro, que administra
uma dívida pública de cerca de 60% do PIB, não pode
ser apenas parcial. Por isso, qualquer mudança de direção
deixa todo mundo apreensivo. "Colocar ou manter dinheiro num país
com esse grau de endividamento equivale a um casamento com comunhão
total de bens. É preciso confiança cega", diz Nicholas Brady,
economista que foi secretário do Tesouro dos Estados Unidos no
fim dos anos 80, quando comandou o plano de renegociação
da dívida externa da América Latina que levou seu nome.
Exatamente por essa razão, a perspectiva de ter Lula no poder,
embora não sinalize o caos para o mercado, mostra que os próximos
meses não serão de tranqüilidade. "Os executivos financeiros
fazem suas contas e chegam à conclusão de que, mantido o
atual cenário de incertezas, o próximo governo brasileiro
terá de produzir um superávit primário de quase 5%.
Eles se perguntam se Lula é o presidente certo para conduzir um
arrocho dessas dimensões", observa um banqueiro paulista. O superávit
primário é o dinheiro que sobra no caixa do governo quando
se subtraem da receita todos os gastos, menos o pagamento dos juros da
dívida. O governo brasileiro e o Fundo Monetário Internacional
(FMI) acertaram que o Brasil produziria um superávit primário
mínimo de 3,88%. Na semana passada, os técnicos do Fundo
admitiram pela primeira vez que esse valor apenas não dará
a tranqüilidade necessária à economia brasileira. Será
preciso que o governo poupe mais.
O
fato de que um casamento em regime de comunhão de bens com Lula
ainda não foi bem assimilado pelo mercado contribuiu para a disparada
do dólar. Mas o foguete da moeda americana teve outros combustíveis.
Para começo de conversa, o mercado de dólares no Brasil
está "pouco líquido", o que no jargão do mundo financeiro
significa que tem muito mais gente querendo comprar do que vender moeda
americana. Como em todo círculo vicioso, o mercado de câmbio
está pressionado justamente porque há incerteza política.
Se outras partes da máquina financeira estivessem com funcionamento
normal, a fuga para o dólar provocada pelo ambiente eleitoral teria
impacto menor. Mas vive-se um momento especialmente adverso também
no mercado mundial. O movimento de capitais dos países ricos para
os emergentes, que foi a marca registrada dos anos 90, simplesmente se
paralisou. O Brasil deve
receber até o fim do ano cerca de 16 bilhões de dólares
em investimentos diretos, menos da metade do que o país atraiu
em 2000 e bem menos que os 22 bilhões captados em 2001. Para 2003,
as estimativas são de uma retração ainda mais drástica.
Os investidores estão avessos ao risco em seus próprios
países e muito seletivos quando se trata de colocar dinheiro nos
mercados emergentes.
A
consultoria americana A.T. Kearney divulgou na semana passada o resultado
de uma pesquisa em que ouviu executivos das 1.000 maiores companhias do
mundo sobre suas expectativas de investimento no exterior. O Brasil perdeu
dez posições. Na mesma pesquisa feita em 2001, a economia
brasileira ocupava a confortável terceira posição
no ranking das que mais atraem capital estrangeiro. Agora despencou para
o 13º lugar. A notícia está longe de ser positiva para
o Brasil. Muito mais que uma descrença na economia brasileira em
particular, no entanto, o ranking da consultoria americana mostra uma
perda global de apetite. Para se ter uma idéia, países com
economia bem mais estável que a brasileira estão em colocação
pior que a do Brasil no ranking. A Holanda está em 19º lugar,
a Coréia do Sul em 21º lugar e Taiwan em 24º. Além
da pressão natural que se pode esperar em momentos de refluxo da
economia mundial, como o que está ocorrendo agora, e da incerteza
política local, a cotação do dólar no Brasil
sofreu um impulso de ordem especulativa. Na semana passada havia interesse
de investidores em forçar uma alta da moeda americana para engordar
seus ganhos com títulos do governo brasileiro de valor atrelado
ao dólar. O Banco Central teve de resgatar títulos denominados
em dólar no valor total de 1,5 bilhão. O BC bem que tentou
rolar a dívida, mas o mercado refugou. "O mercado estava pedindo
taxas de juros altíssimas para aceitar a rolagem e o BC não
concordou em pagar", explica o economista-chefe do Lloyds TSB, Odair Abate.
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| Krueger
e Koehler, do FMI: menos tutela e mais ajuda para evitar crises |
No
mundo real, a alta do dólar começa a empurrar os preços
para o alto. O aumento da produtividade na indústria e a competição
acirrada no comércio, conquistas da economia brasileira nos anos
90, vinham conseguindo segurar o repasse da alta do dólar para
os preços. Mas esse efeito de contenção tem um limite.
Na semana passada, diversos setores mais dependentes de insumos importados
anunciaram a diminuição no ritmo de produção,
ao mesmo tempo que reajustavam seus preços para fazer frente à
alta da moeda americana. "A oscilação do dólar na
semana passada foi tão absurda que a indústria de óleo
de soja não sabia que preço deveria praticar e suspendeu
a venda para o varejo", diz Hugo Bethlem, diretor executivo comercial
do Grupo Pão de Açúcar. A rede tem óleo de
soja estocado suficiente para atender à demanda por mais três
semanas. "Espero que o mercado financeiro volte ao planeta Terra e que
a cotação do dólar recue para um patamar mais aceitável",
diz Bethlem.
Em Washington, onde esteve na semana passada para uma reunião no
FMI, o ministro Pedro Malan mostrou a investidores um panorama muito positivo
da economia brasileira. Malan disse a investidores e a técnicos
do Fundo que o superávit da balança comercial brasileira
pode chegar a 9 bilhões de dólares no fim do ano. Além
disso, tornou públicos números sobre a estabilização
nos índices de desemprego e alguns sinais de vida na indústria
e no comércio. Contrariando sua proverbial paciência, Malan
reagiu com violência verbal contra o que qualificou de "ganância,
medo e ignorância" do mercado no que diz respeito à avaliação
que as instituições financeiras vêm fazendo da capacidade
do Brasil de sustentar os pagamentos de sua dívida pública.
"O medo é excessivo e a ignorância, contagiosa", disse Malan.
"O Brasil passou por mudanças estruturais muito significativas
na política, nas instituições, na economia. Não
tivemos problemas para honrar nossas dívidas até agora e
não vamos tê-los no futuro."
Uma
mudança positiva no cenário externo surgiu na mesma reunião
na capital americana. Horst Koehler e Anne Krueger, a dupla que chefia
o FMI, anunciou a primeira de uma série de mudanças pelas
quais a instituição está passando para tornar sua
atuação mais efetiva. O FMI admitiu ter cometido erros,
especialmente ao não dar trégua aos países, tirando-lhes
a chance de conduzir a economia da maneira que achem mais apropriada.
Krueger ressalvou que não se trata de voltar atrás na exigência
de disciplina fiscal, mas apenas de deixar que os países atinjam
os resultados de acordo com políticas econômicas próprias.
O FMI deve mudar radicalmente seu foco de atuação. Em vez
de acompanhar a aplicação de suas políticas por anos
a fio, até por décadas, a instituição vai
se especializar em prevenir crises financeiras.
A idéia mais original, quem diria, saiu da cabeça do secretário
do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O'Neill. Ele sugeriu que os empréstimos
do FMI aos países-membros em dificuldades contenham uma cláusula
de falência, semelhante à que rege a vida financeira de pessoas
físicas e empresas americanas. Segundo essa cláusula, os
países que porventura se tornarem insolventes terão a chance
de pagar sua dívida de maneira mais organizada, escolhendo os credores
prioritários. "Desse modo, os países poderiam continuar
funcionando sem o trauma da moratória, enquanto os credores reescalonam
os pagamentos a receber", disse O'Neill. É uma proposta radical,
ainda mais partindo de O'Neill, que nunca demonstrou boa vontade para
com os países emergentes. Ela é uma prova de que o acirramento
das crises financeiras em países como o Brasil deixou de ser apenas
um problema regional para se tornar uma dor de cabeça mundial.
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