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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
Economia e Negócios Conjuntura

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Os efeitos da alta do dólar

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O que está por trás
da queda do real

Incerteza na política e especulação
nos mercados levam o dólar a
bater
novo recorde

 
Televisores à venda em São Paulo: o repasse da alta do dólar chegou ao varejo


Veja também
Comparação entre o risco Brasil e a cotação do dólar
Na internet
Notícias diárias sobre economia

O mercado atingiu na semana passada um grau de ebulição que espantou até os pessimistas. O dólar fechou a 3,87 reais. De janeiro até a última semana, o poder de compra do real despencou 68% em relação à moeda americana. A proximidade das eleições e a possibilidade de vitória ainda no primeiro turno do candidato petista Luís Inácio Lula da Silva explicam boa parte da volatilidade. Não é apenas porque o mercado ainda não se convenceu totalmente da conversão de Lula e seu partido às regras básicas da estabilidade monetária. Mas também porque a transição de governo, especialmente quando um partido de oposição vence, é sempre turbulenta, independentemente das boas intenções dos novos operadores da máquina estatal. Na melhor das hipóteses, os três primeiros meses após a posse serão tomados pelo burburinho da substituição de quadros em todos os primeiros escalões de governo, um movimento que não favorece a tomada de decisões e tende a prejudicar o andamento da economia. Num período assim ocorre uma ruptura como a que o Brasil está vivendo, uma situação nervosa em que o risco dá lugar à incerteza. Risco é natural no jogo político, financeiro e comercial. Ele pode ser medido, analisado e precificado, como dizem os economistas. Em outras palavras, o risco pode ser embutido no custo. Quando isso ocorre, os empréstimos e investimentos ficam mais caros. A incerteza paralisa. Ela é um animal bem mais selvagem que leva pessoas e empresas a procurar a proteção, às vezes excessiva, de seu patrimônio financeiro. A saída clássica em períodos de incerteza é a troca de reais por dólares, ouro e imóveis.

A confiança dos investidores num governo como o brasileiro, que administra uma dívida pública de cerca de 60% do PIB, não pode ser apenas parcial. Por isso, qualquer mudança de direção deixa todo mundo apreensivo. "Colocar ou manter dinheiro num país com esse grau de endividamento equivale a um casamento com comunhão total de bens. É preciso confiança cega", diz Nicholas Brady, economista que foi secretário do Tesouro dos Estados Unidos no fim dos anos 80, quando comandou o plano de renegociação da dívida externa da América Latina que levou seu nome. Exatamente por essa razão, a perspectiva de ter Lula no poder, embora não sinalize o caos para o mercado, mostra que os próximos meses não serão de tranqüilidade. "Os executivos financeiros fazem suas contas e chegam à conclusão de que, mantido o atual cenário de incertezas, o próximo governo brasileiro terá de produzir um superávit primário de quase 5%. Eles se perguntam se Lula é o presidente certo para conduzir um arrocho dessas dimensões", observa um banqueiro paulista. O superávit primário é o dinheiro que sobra no caixa do governo quando se subtraem da receita todos os gastos, menos o pagamento dos juros da dívida. O governo brasileiro e o Fundo Monetário Internacional (FMI) acertaram que o Brasil produziria um superávit primário mínimo de 3,88%. Na semana passada, os técnicos do Fundo admitiram pela primeira vez que esse valor apenas não dará a tranqüilidade necessária à economia brasileira. Será preciso que o governo poupe mais.

O fato de que um casamento em regime de comunhão de bens com Lula ainda não foi bem assimilado pelo mercado contribuiu para a disparada do dólar. Mas o foguete da moeda americana teve outros combustíveis. Para começo de conversa, o mercado de dólares no Brasil está "pouco líquido", o que no jargão do mundo financeiro significa que tem muito mais gente querendo comprar do que vender moeda americana. Como em todo círculo vicioso, o mercado de câmbio está pressionado justamente porque há incerteza política. Se outras partes da máquina financeira estivessem com funcionamento normal, a fuga para o dólar provocada pelo ambiente eleitoral teria impacto menor. Mas vive-se um momento especialmente adverso também no mercado mundial. O movimento de capitais dos países ricos para os emergentes, que foi a marca registrada dos anos 90, simplesmente se paralisou. O Brasil deve receber até o fim do ano cerca de 16 bilhões de dólares em investimentos diretos, menos da metade do que o país atraiu em 2000 e bem menos que os 22 bilhões captados em 2001. Para 2003, as estimativas são de uma retração ainda mais drástica. Os investidores estão avessos ao risco em seus próprios países e muito seletivos quando se trata de colocar dinheiro nos mercados emergentes.

A consultoria americana A.T. Kearney divulgou na semana passada o resultado de uma pesquisa em que ouviu executivos das 1.000 maiores companhias do mundo sobre suas expectativas de investimento no exterior. O Brasil perdeu dez posições. Na mesma pesquisa feita em 2001, a economia brasileira ocupava a confortável terceira posição no ranking das que mais atraem capital estrangeiro. Agora despencou para o 13º lugar. A notícia está longe de ser positiva para o Brasil. Muito mais que uma descrença na economia brasileira em particular, no entanto, o ranking da consultoria americana mostra uma perda global de apetite. Para se ter uma idéia, países com economia bem mais estável que a brasileira estão em colocação pior que a do Brasil no ranking. A Holanda está em 19º lugar, a Coréia do Sul em 21º lugar e Taiwan em 24º. Além da pressão natural que se pode esperar em momentos de refluxo da economia mundial, como o que está ocorrendo agora, e da incerteza política local, a cotação do dólar no Brasil sofreu um impulso de ordem especulativa. Na semana passada havia interesse de investidores em forçar uma alta da moeda americana para engordar seus ganhos com títulos do governo brasileiro de valor atrelado ao dólar. O Banco Central teve de resgatar títulos denominados em dólar no valor total de 1,5 bilhão. O BC bem que tentou rolar a dívida, mas o mercado refugou. "O mercado estava pedindo taxas de juros altíssimas para aceitar a rolagem e o BC não concordou em pagar", explica o economista-chefe do Lloyds TSB, Odair Abate.

 
Krueger e Koehler, do FMI: menos tutela e mais ajuda para evitar crises

No mundo real, a alta do dólar começa a empurrar os preços para o alto. O aumento da produtividade na indústria e a competição acirrada no comércio, conquistas da economia brasileira nos anos 90, vinham conseguindo segurar o repasse da alta do dólar para os preços. Mas esse efeito de contenção tem um limite. Na semana passada, diversos setores mais dependentes de insumos importados anunciaram a diminuição no ritmo de produção, ao mesmo tempo que reajustavam seus preços para fazer frente à alta da moeda americana. "A oscilação do dólar na semana passada foi tão absurda que a indústria de óleo de soja não sabia que preço deveria praticar e suspendeu a venda para o varejo", diz Hugo Bethlem, diretor executivo comercial do Grupo Pão de Açúcar. A rede tem óleo de soja estocado suficiente para atender à demanda por mais três semanas. "Espero que o mercado financeiro volte ao planeta Terra e que a cotação do dólar recue para um patamar mais aceitável", diz Bethlem.

Em Washington, onde esteve na semana passada para uma reunião no FMI, o ministro Pedro Malan mostrou a investidores um panorama muito positivo da economia brasileira. Malan disse a investidores e a técnicos do Fundo que o superávit da balança comercial brasileira pode chegar a 9 bilhões de dólares no fim do ano. Além disso, tornou públicos números sobre a estabilização nos índices de desemprego e alguns sinais de vida na indústria e no comércio. Contrariando sua proverbial paciência, Malan reagiu com violência verbal contra o que qualificou de "ganância, medo e ignorância" do mercado no que diz respeito à avaliação que as instituições financeiras vêm fazendo da capacidade do Brasil de sustentar os pagamentos de sua dívida pública. "O medo é excessivo e a ignorância, contagiosa", disse Malan. "O Brasil passou por mudanças estruturais muito significativas na política, nas instituições, na economia. Não tivemos problemas para honrar nossas dívidas até agora e não vamos tê-los no futuro."

Uma mudança positiva no cenário externo surgiu na mesma reunião na capital americana. Horst Koehler e Anne Krueger, a dupla que chefia o FMI, anunciou a primeira de uma série de mudanças pelas quais a instituição está passando para tornar sua atuação mais efetiva. O FMI admitiu ter cometido erros, especialmente ao não dar trégua aos países, tirando-lhes a chance de conduzir a economia da maneira que achem mais apropriada. Krueger ressalvou que não se trata de voltar atrás na exigência de disciplina fiscal, mas apenas de deixar que os países atinjam os resultados de acordo com políticas econômicas próprias. O FMI deve mudar radicalmente seu foco de atuação. Em vez de acompanhar a aplicação de suas políticas por anos a fio, até por décadas, a instituição vai se especializar em prevenir crises financeiras.

A idéia mais original, quem diria, saiu da cabeça do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O'Neill. Ele sugeriu que os empréstimos do FMI aos países-membros em dificuldades contenham uma cláusula de falência, semelhante à que rege a vida financeira de pessoas físicas e empresas americanas. Segundo essa cláusula, os países que porventura se tornarem insolventes terão a chance de pagar sua dívida de maneira mais organizada, escolhendo os credores prioritários. "Desse modo, os países poderiam continuar funcionando sem o trauma da moratória, enquanto os credores reescalonam os pagamentos a receber", disse O'Neill. É uma proposta radical, ainda mais partindo de O'Neill, que nunca demonstrou boa vontade para com os países emergentes. Ela é uma prova de que o acirramento das crises financeiras em países como o Brasil deixou de ser apenas um problema regional para se tornar uma dor de cabeça mundial.

 
 
   
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